Triste segunda feira

Triste segunda feira

Ler o artigo de Ligia Bahia n’O GLOBO de hoje, segunda feira, 8 de maio de 2017, em outras circunstâncias, provocaria um sorriso, uma alegria. Afinal, é um artigo que mostra o quanto uma autora pode fazer nas poucas linhas disponíveis para quem escreve para a seção de Opinião. Um artigo escrito por uma doutora em Saúde Pública que pode ser compreendido pelo leitor comum; um artigo que trata de tema relevante para o país. Um excelente artigo.

A relevância e o conteúdo do tema, que recomendam a autora, entristecem o leitor. Mostram que o governo Temer está disposto a sacrificar a saúde dos brasileiros para aumentar a probabilidade de aprovar as mudanças econômicas que muitos julgam indispensáveis para que o país saia do fundo do poço.

O artigo de Ligia Bahia vai além de suas palavras: provoca reflexões nos leitores, que enchem a cidadania de apreensões e tristezas.

A cultura política corrupta e apodrecida, da qual Temer é parte e símbolo, cobra muito caro a sua anuência. O preço pago por Temer pelos votos de apoio de um partido mediano é a exclusão da competência do Ministério da Saúde. Não esqueçamos que um ministro não é, apenas, UM ministro. Cada ministro deste tipo traz consigo toda uma velharia incompetente e carcomida que ocupa cargos onde decisões importantes são tomadas. Decisões que afetam milhões de brasileiros, das quais a formação, a informação atualizada e a competência foram excluídas. Decisões que variam com os ventos do mercado político, de votos e apoios e não com a necessidade da população.

E mais brasileiros adoecem e não são tratados.

Muitos, demasiados, morrem.

Triste segunda feira.

 

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ

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A controvérsia sobre o PSA continua

A diferença na sobrevivência entre os pacientes de câncer da próstata nos Estados Unidos e o Reino Unido é preocupante. Segundo a publicação Cambridge First, aos cinco anos depois do diagnóstico a sobrevivência é de 91,9% nos Estados Unidos e de 51,1% no Reino Unido.


Os cientistas de Cambridge creditam essa gigantesca diferença ao uso corriqueiro do PSA nos Estados Unidos, onde há recomendações de que homens com mais de cinqüenta anos sejam testados uma vez por ano. No Reino Unido, a despeito de avanços maiores na medicina preventiva do que nos Estados Unidos, o teste é menos usado – certamente não é parte da rotina de exames anuais de homens.

O teste tem muitos “falsos positivos”, resultados que sugerem câncer onde não há. Em conseqüência, uma percentagem maior de homens enfrentam, desnecessariamente, uma dose cavalar de estresse e muitos são submetidos a procedimentos invasivos, como as biópsias. As biópsias não são apenas invasivas, aumentam o risco de infecções. Por isso, há uma recomendação de um comitê nomeado pelo governo americano de não apoiar os testes anuais de PSA.

Dr Nick Miller-Jones, diretor da empresa UroSens, afirma que sete de cada dez homens com PSA acima da linha de corte não têm câncer. Por isso, essa empresa tenta desenvolver um teste melhor, baseado na urina, que não é invasivo e seria barato. Ele se baseia em outra proteína, a Mcm5, que não está presente na urina de pessoas saudáveis. Esse teste reduz os “falsos positivos” a menos de dois em dez. 

A utilidade do PSA não se limita ao diagnóstico porque permite prognósticos com alguma confiabilidade baseados na mudança do PSA, como a velocidade do PSA e o tempo que o PSA leva para dobrar (PSADT).

Até que tenhamos um teste sem erros, possivelmente mantenhamos mais de um teste e exames: os usados atualmente (PSA e Toque Retal), mesmo quando usarmos o teste de urina a ser produzido pela UroSen.

 

GLÁUCIO SOARES

Os custos do cabazitaxel são muito altos em relação aos benefícios

Há um medicamento que recentemente terminou testes Fase III, de nome comercial Jevtana, baseado no cabazitaxel, que, em combinação com prednisona ou com prednisolona pode ser usado como quimioterapia de segunda linha. Até agora a de primeira linha é, sem lugar a dúvida, o taxotere.

Na Grã-Bretanha, a distribuição e uso de um medicamento pelo sistema público de saúde passa por uma avaliação, que inclui custo/benefício. No Brasil, o artigo constitucional, de triste inspiração, de que a saúde é direito de todos e obrigação do estado, gerou uma chuva de processos para que o estado pague por remédios caríssimos que aumentam pouco a sobrevivência do paciente. Com os mesmos recursos gastos com esses medicamentos, o número de pessoas salvas seria muito maior e o número de anos vividos muitíssimo maior. Mas os pobres não dispõem dessas informações nem de recursos para pagar advogados e obter os medicamentos grátis. Grátis para quem os usa; alguém paga a conta.

Quem faz a avaliação na Grã-Bretanha é o National Institute for Clinical Excellence (NICE). O NICE concluiu que esse medicamento não deveria ser usado (e custeado) pelo NHS, o sistema público de saúde do país. O raciocínio é simples:

  • A dose custa £3,700, ou 10.835,00 reais;
  • O tratamento custa £22,200, ou 65.013,66 reais;
  • O tratamento tem efeitos colaterais sérios;
  • O custo não é proporcional aos benefícios.

O sistema de saúde inglês, mais realista e menos populista do que o brasileiro, concluiu que os custos eram demasiadamente altos em relação aos benefícios. Todos sabem que esses recursos salvarão mais anos de vida se aplicados a outras áreas. É uma escolha difícil, mas racional, na qual o custo/benefício deste tratamento foi calculado e contrastado com os benefícios obtidos se os mesmos fundos fossem aplicados a outras áreas.

Quanto custa um ano de vida com qualidade?

Quanto custa um ano de vida com qualidade para você? Esses são os cálculos que os economistas da saúde andam fazendo. Já sabemos que o tratamento hormonal provoca muitos efeitos colaterais, inclusive fraturas devido à perda de minerais nos ossos. Os economistas, atualmente, fazem comparações como essa. Exemplificando, Ito Kouta, do Memorial Sloan-Kettering Cancer Center em Nova Iorque calculou o custo/benefício de dois tratamentos para o risco de fraturas para homens hipotéticos de 70 anos com câncer de próstata avançado que receberam terapia hormonal durante dois anos.

O tratamento da osteoporose provocada pela falta de hormônios masculinos com alendronato tem custos. Kouta calculou os QALY (um ano de vida com melhorias na qualidade da vida) – sem triagem, com triagem, sem tratamento e com diferentes tratamentos:

1.     Com triagem universal, usando o alendronato apenas quando necessário: o custo foi de US$ 67 mil por QALY;

2.     Sem triagem e usando o alendronato com todos, sem selecionar os pacientes que realmente necessitam, o custo foi de US$ 178 mil por QALY.

Os custos dependem da idade do paciente, de ter tido fraturas ou não, nível da densidade de minerais nos ossos antes da terapia hormonal e de baixar o custo do alendronato.

Em se tratando de saúde pública, cada real conta. O que se desperdiça em um lado, falta em outro.