Vidas desiguais, mortes desiguais

Durante os “bons anos” pós Estatuto e durante a era Beltrame houve uma redução na taxa de mortes por homicídios no Estado do Rio de Janeiro tanto entre brancos quanto entre negros. Se quiserem dar-nos a honra de uma leitura, Sandra Andrade e eu analisamos séries temporais que mostram que persistiram diferenças absolutas entre a vitimização dos negros e a dos brancos. O artigo se chama “Vidas Desiguais, Mortes Desiguais” e está disponível em

opiniaopublica.ufmg.br

http://opiniaopublica.ufmg.br/site/files/artigo/7-vidas-glaucio1.pdf

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Grupo de leitura e estudos sobre armas de fogo

Vamos criar um grupo de estudos sobre a legislação sobre armas? Qualquer um deve poder participar lendo. Para opinar, ajudaria se entendessem, minimamente, um pouquinho de Estatística e de Métodos de Pesquisa.

Vou dar o ponta-pé inicial:

Comecemos com algumas das pesquisas incluídas no megaestudo sobre mudanças na legislação que controla a venda e propriedade de armas de fogo e suas consequências sobre os homicídios e sobre todas as mortes com armas de fogo.

A África do Sul é um exemplo importante porque NÃO é um país industrializado, com altíssima renda per capita etc. Talvez seja mais parecida a nós. Em 2000, a África do Sul aprovou o Firearm Control Act, que inclui três condições associadas à redução da violência:

• Proibição, simples e pura, de vender, comprar e possuir armas automáticas (AK’s, AR-15’s, etc. como a que matou cinquenta pessoas em Orlando ontem à noite);

• Verificar quem quer comprar ou de outra forma obter uma arma de fogo. É evidente que criminosos, terroristas, pessoas com algumas doenças mentais (mas não outras) e outros com antecedentes de violência não puderam mais adquirir armas e

• Tornou-se obrigatória a licença para obter armas e para vendê-las.

Qual o resultado?

Houve uma redução de 13,6% AO ANO na taxa de homicídios com armas de fogo.

Tendo tempo, resumirei outras das cerca de 130 pesquisas.

Espero que os interessados leiam.

Para consultar a pesquisa original realizada na África do Sul:

Richard G. Matzopoulos, Mary Lou Thompson, and Jonathan E. Myers. Firearm and Nonfirearm Homicide in 5 South African Cities: A Retrospective Population-Based Study. American Journal of Public Health: March 2014, Vol. 104, No. 3, pp. 455-460.

doi: 10.2105/AJPH.2013.310650

Está nos Periódicos CAPES.

Se quiserem baixar, também podem. Sigam as instruções:

Reprints can be ordered at http://www.ajph.org by clicking the “Reprints” link.

Read More: http://ajph.aphapublications.org/…/abs/10.…/AJPH.2013.310650

Gláucio Soares, IESP-UERJ

É proibido pesquisar as consequências das armas de fogo!

O lobby da bala americano impediu que continuassem as pesquisas científicas sobre as consequências das armas de fogo que eram financiadas pelo CDC. Hoje, o autor da emenda que leva o seu nome mostra profundo arrependimento em função das carnificinas que, indiretamente, ele facilitou.

Em 1996, o deputado americano Jay Dickey (Republicano do Estado de Arkansas), apoiado pela NRA (National Rifle Association), apresentou um projeto de lei que foi aprovado e recebeu o nome do deputado, sendo chamado de “Dickey Amendment”, a Emenda Dickey. É uma lei proibitiva que impede o governo federal de financiar pesquisas sobre as consequências das armas de fogo. O CDC, Center for Disease Control, financiava algumas pesquisas através do National Center for Injury Prevention. Inicialmente, a ultra direita tentou fechar esse centro de pesquisas que é universalmente conhecido; não conseguindo o objetivo maior, concentrou seu poder político para proibir pesquisas cientificas sobre as consequências das leis sobre armas de fogo, seu uso e muito mais. Não conseguiram. Dickey calculou quanto o CDC gastava com essas pesquisas, chegando à modestíssima cifra de 2,6 milhões de dólares. Para dar uma ideia de quão modesto é esse total, o nosso conhecido José Hawilla foi acusado de extorsão, fraude e lavagem de dinheiro, concordando em devolver 151 milhões de dólares. É o equivalente ao que o CDC gastaria em pesquisas sobre armas durante 58 anos.

A lei foi aprovada há vinte anos, período durante o qual centenas de milhares de americanos morreram graças às armas de fogo. Agora, o ex-deputado Dickey admite culpa e responsabilidade porque o país não progrediu nessa área e declara que gostaria que o Congresso modificasse sua própria lei.

Veja a entrevista:

The Congressman Who Restricted Gun Violence Research Has Regrets

Rep. Jay Dickey (R-Ark.) authored the controversial 1996 amendment that remains in place. He wishes Congress would change it.

huffingtonpost.com

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GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ


[i] Morton E, Runyan CW, Moracco KE e Butts J., Partner homicide-suicide involving female homicide victims: a population-based study in North Carolina, 1988-1992, em Violence Vict. 1998 Summer;13(2):91-106.

[ii] Kathryn E. Moracco, Carol W. Runyan e John D. Butts, Femicide in North Carolina, 1991-1993, A Statewide Study of Patterns and Precursors, em Homicide Studies.

MULHERES ASSASSINADAS: quem as mata e de que maneira?

 

Uma pesquisa, levada a cabo na Carolina do Norte, analisou os casos de homicídio nos que a vítima era mulher e que aconteceram de 1988 a 1992.[i] Houve um total de 116 casos com 119 vítimas (em alguns casos houve mais de uma vítima). A informação inicial foi retirada dos arquivos do medical examiner (talvez melhor traduzido por médico forense).

Em 86% dos casos, o homicida era ou tinha sido o parceiro da vítima. A razão mais frequente encontrada era a separação (41% dos casos) e um dos sinais mais frequentes era uma história de violência doméstica (29%, que deve ser uma subestimativa porque não sabemos em quantos casos não houve denúncia). Um em cada quatro dos assassinos se suicidou posteriormente e 3% tentaram o suicídio, mas não morreram. A ineficiência do sistema policial-legal fica patenteada porque metade dos casos em que houve violência doméstica a vítima tinha buscado proteção legal ou policial. O rol das vítimas é ainda maior, porque em 43% dos casos, filhos (as) da vítima ou do assassino testemunharam o homicídio, estavam perto, descobriram o (s) cadáver (es) ou foram mortas também.

A causa próxima mais frequente do homicídio foi a separação por parte da vítima (41%) e a segunda mais frequente era um histórico de violência doméstica (29%).

Em outra pesquisa, no mesmo estado, foram codificadas e estudadas, caso a caso, todas as mulheres vítimas de femicídio com 15 e mais anos de idade, de 1991 a 1993. Os resultados confirmam os encontrados na pesquisa anterior. Nada menos do que 54% dessas mortes foram cometidas com armas de fogo e duas em três ocorreram em casa, numa residência. Mais de metade foi morta pelo parceiro ou ex-parceiro e, dessas mortes, duas em cada três foram precedidas por algum tipo de violência doméstica que chegou ao conhecimento das autoridades.[ii]

Na maioria dos casos, a mulher e os filhos ou filhas, assim como o assassino, foram mortos com armas de fogo. Não obstante, como uma parte significativa desses homicídios familiares se dá longe da mídia, a população, inclusive as mulheres, vive preocupada com o latrocínio, o homicídio cometido como parte, desejada ou não, planejada ou não, de um assalto.

Há dezenas de pesquisas sobre o femicídio, em lugares e momentos diferentes, que chegaram a conclusões semelhantes.

A maior ameaça à vida de uma mulher não é o bandido que ninguém vê, mas é o assassino escondido em pele de cordeiro, do marido, namorado, ou ex-marido ou ex-namorado, munido de uma arma de fogo.

 

 

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ


[i] Morton E, Runyan CW, Moracco KE e Butts J., Partner homicide-suicide involving female homicide victims: a population-based study in North Carolina, 1988-1992, em Violence Vict. 1998 Summer;13(2):91-106.

[ii] Kathryn E. Moracco, Carol W. Runyan e John D. Butts, Femicide in North Carolina, 1991-1993, A Statewide Study of Patterns and Precursors, em Homicide Studies.

MULHERES ASSASSINADAS: quem as mata e de que maneira?

 

Uma pesquisa, levada a cabo na Carolina do Norte, analisou os casos de homicídio nos que a vítima era mulher e que aconteceram de 1988 a 1992.[i] Houve um total de 116 casos com 119 vítimas (em alguns casos houve mais de uma vítima). A informação inicial foi retirada dos arquivos do medical examiner (talvez melhor traduzido por médico forense).

Em 86% dos casos, o homicida era ou tinha sido o parceiro da vítima. A razão mais frequente encontrada era a separação (41% dos casos) e um dos sinais mais frequentes era uma história de violência doméstica (29%, que deve ser uma subestimativa porque não sabemos em quantos casos não houve denúncia). Um em cada quatro dos assassinos se suicidou posteriormente e 3% tentaram o suicídio, mas não morreram. A ineficiência do sistema policial-legal fica patenteada porque metade dos casos em que houve violência doméstica a vítima tinha buscado proteção legal ou policial. O rol das vítimas é ainda maior, porque em 43% dos casos, filhos (as) da vítima ou do assassino testemunharam o homicídio, estavam perto, descobriram o (s) cadáver (es) ou foram mortas também.

A causa próxima mais frequente do homicídio foi a separação por parte da vítima (41%) e a segunda mais frequente era um histórico de violência doméstica (29%).

Em outra pesquisa, no mesmo estado, foram codificadas e estudadas, caso a caso, todas as mulheres vítimas de femicídio com 15 e mais anos de idade, de 1991 a 1993. Os resultados confirmam os encontrados na pesquisa anterior. Nada menos do que 54% dessas mortes foram cometidas com armas de fogo e duas em três ocorreram em casa, numa residência. Mais de metade foi morta pelo parceiro ou ex-parceiro e, dessas mortes, duas em cada três foram precedidas por algum tipo de violência doméstica que chegou ao conhecimento das autoridades.[ii]

Na maioria dos casos, e mulher e os filhos ou filhas, assim como o assassino, foram mortos com armas de fogo. Não obstante, como uma parte significativa desses homicídios familiares se dá longe da mídia, a população, inclusive as mulheres, vive preocupada com o latrocínio, o homicídio cometido como parte, desejada ou não, planejada ou não, de um assalto.

Há dezenas de pesquisas sobre o femicídio, em lugares e momentos diferentes, que chegaram a conclusões semelhantes.

A maior ameaça à vida de uma mulher não é o bandido que ninguém vê, mas é o assassino escondido em pele de cordeiro, do marido, namorado, ou ex-marido ou ex-namorado, munido de uma arma de fogo.

 

 

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ


[i] Morton E, Runyan CW, Moracco KE e Butts J., Partner homicide-suicide involving female homicide victims: a population-based study in North Carolina, 1988-1992, em Violence Vict. 1998 Summer;13(2):91-106.

[ii] Kathryn E. Moracco, Carol W. Runyan e John D. Butts, Femicide in North Carolina, 1991-1993, A Statewide Study of Patterns and Precursors, em Homicide Studies.

Continuemos salvando vidas!

Esse é um momento decisivo para nosso trabalho de salvar vidas. Precisamos da colaboração de todos os que conhecem os dados, sabem quais os benefícios trazidos pelo Estatuto do Desarmamento. Há necessidade de que participem, enviem sugestões, e, se gostarem, curtam, compartilhem, demonstrem – na página

Manifesto contra a revogação do Estatuto do Desarmamento

https://www.facebook.com/search/results/…

O Desarmamento e seus efeitos na Áustria

O Desarmamento e seus efeitos na Áustria

Uma equipe de pesquisadores austríacos, Kapusta, Etzersdorfer, Krall e Sonneck pesquisaram os efeitos na reforma legislativa na Uniao Europeia sobre as taxas de homicídio e de suicídio na Áustria. Seus resultados foram publicados no importante British Journal of Psychiatry. Descobriram que a presença de armas em casa é um fator de risco do suicídio e do homicídio domésticos.

Como fizeram a pesquisa? Relacionaram as estatísticas oficiais da Áustria sobre as permissões para ter armas de fogo de 1985 a 2005, assim como os dados sobre suicídios e homicídios com armas de fogo. Estavam interessados em verificar se a nova lei sobre armas de fogo teve algum impacto e qual a direção. Usaram regressões lineares e regressões de Poisson usando dados dos dois períodos, antes e depois da reforma que restringiu as licenças para ter armas de fogo. Constataram que a presença de uma ou mais armas de fogo em casa aumenta os suicídios e os homicídios. Concluem, congruentemente, que uma das maneiras de reduzir essas ocorrências é restringir o acesso a armas de fogo.

Após analisar detalhadamente os dados concluíram, coerentemente, que em vários grupos de idade a taxa de homicídios com armas de fogo passou a ser significativamente menor após as leis mais duras. Além da taxa de homicídios com armas de fogo, a taxa de suicídios com armas de fogo também baixou e, como esperado, a percentagem de pessoas com licença para ter armas de fogo.

Saiba mais:

Nestor D. Kapusta, Elmar Etzersdorfer, Christoph Krall, Gernot Sonneck, Firearm legislation reform in the European Union: impact on firearm availability, firearm suicide and homicide rates in Austria, The British Journal of Psychiatry Aug 2007, 191 (3) 253-257; DOI: 10.1192/bjp.bp.106.032862.

GLÁUCIO SOARES          IESP-UERJ