Há alguns medicamentos que interagem bem: são poucos, mas existem

Intuitivamente, podemos achar que tomar dois medicamentos contra um câncer é sempre melhor do que tomar somente um, mas não é verdade. Usualmente, aumentam muito os efeitos colaterais; em outros casos, o ingrediente ativo é o mesmo nos dois medicamentos, o que significa, apenas, tomar uma dose maior; em alguns casos, há interações entre eles com consequências negativas para a saúde e o bem-estar.

Alguns, poucos, dão certo.

Como saber quais entre milhares de combinações possíveis?

Stefan Kubicek, do CeMM Research Center for Molecular Medicine, na Áustria, e sua equipe coletaram uma gigantesca “biblioteca” sobre medicamentos que funcionam melhor juntos e buscaram o que havia de comum entre eles.[i]

Deu trabalho! Há mais de trinta mil medicamentos aprovados pela FDA. Imaginem as combinações…

Eliminaram, claro, primeiro que tudo os medicamentos com o mesmo ingrediente ativo; retiraram todos os com componentes biológicos etc. Enfim, terminaram com perto de mil pequenas moléculas sistêmicas que são ativas.

O próximo passo era classifica-las. Formaram quatro grupos com base em suas estruturas e atividades conhecidas e demonstradas. Nesse ponto, usaram programas para selecionar agentes que fossem representativos. Com base neles, criaram uma biblioteca muito menor, de 308 compostos, que foi batizada de CLOUD.

Usaram a CLOUD para ver o efeito sobre células cancerosas. Uma combinação que interessa aos pacientes de câncer da próstata é a da flutamida, usada para combater esse câncer, e um agente antitrombótico a respeito do qual sou ignorante total, chamado, em inglês, phenprocoumon. Segundo os autores, os dois tem um efeito sinergético, que combate células cancerosas que resistem a vários tratamentos.

O objetivo dos autores não era analisar combinações com possíveis aplicações ao câncer da próstata, mas facilitar a busca de combinações de medicamentos que fossem eficientes. Acreditam que a Cloud ajuda nessa busca.

Como exemplo, verificaram que outros medicamentos não incluídos na Cloud, mas com as mesmas características que a flutamida e a (o?) phenprocoumon também atuam sinergisticamente contra as células cancerosas resistentes do CP. Ou seja: pretendem que os compostos estudados e incluídos na Cloud representam outros, que estão fora da Cloud.

Mais uma esperança, ainda que seja para os que ainda nem descobriram que tem câncer…

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ


[i] Nat. Chem. Biol. 2017, DOI: 10.1038/nchembio.2382

TERAPIA HORMONAL: INTERMITENTE OU CONTÍNUA?

Para mim é uma boa notícia. Uma pesquisa compara os resultados de duas formas de usar o tratamento hormonal: contínua e intermitente. Contínua não tem interrupções; intermitente tem. Na forma intermitente, quando algum marcador (usualmente o PSA) atinge o nível desejado, o tratamento é interrompido temporariamente, mas continuamos acompanhando o marcador. Eventualmente, o marcador volta a atingir um nível indesejado e o tratamento é reiniciado. Há pouco tempo, uns dois anos, duas publicações argumentaram que interromper o tratamento reduzia a esperança de vida. Desde então, outros artigos demonstraram que não é assim.
Há dias, um grupo chinês publicou uma meta-análise  de vários artigos e comparou os resultados.
Usaram seis pesquisas com quase três mil pacientes “intermitentes” e “contínuos”.

Compararam os dois tipos de tratamento com relação aos seguintes efeitos: a mortalidade (por diferentes causas) é a principal comparação, mas há comparações secundárias: o avanço da doença, a qualidade da vida (QOL é a sigla em inglês) e efeitos negativos de diferentes tipos.
Quais os resultados?
Não há diferenças significativas na mortalidade nem no avanço da doença.
Porém, há diferenças na direção que todos desejamos: a Qualidade da Vida (QOL) é melhor, os efeitos colaterais são menores e, claro, o tratamento fica menos custoso porque usa uma quantidade menor de medicamentos que são muito caros. Independentemente de quem pague pelo tratamento (o paciente, sua família, os contribuintes através do estado etc.), o gasto é menor.
A minha visão pessoal é semelhante à daquele médico do seriado da TV, Dr. House: quimioterapia e terapia quimo-hormonal são venenosas. Quanto menos veneno dentro de mim, melhor. Infelizmente, no meu caso tenho que tomar ou o câncer avança rapidamente. Os pacientes devem conversar com seus urólogos e oncólogos antes de agir.
Se quiserem ler mais, vejam

ZhiLong Dong, Hanzhang Wang, MengMeng Xu, Yang Li, MingLi Hou, YanLing Wei, Xingchen Liu, ZhiPing Wang, XiaoDong Xie, Intermittent hormone therapy versus continuous hormone therapy for locally advanced prostate cancer: a meta-analysis, published: 26 August 2015, em The aging male : the official journal of the International Society for the Study of the Aging Male 2015 Jul 30 [Epub ahead of print].

GLÁUCIO SOARES                IESP-UERJ

Desatinib contra a metastase ossea

Uma pesquisa Fase II foi feita com um limitado número de pacientes com câncer já com metástases, mas que não haviam feito quimioterapia.

Clinical trials Fase II usualmente são para testar dosagem, efeitos colaterais e ter uma noção do impacto do tratamento sobre a doença. O ingrediente ativo se chama desatinib, que foi dado aos pacientes duas vezes por dia, em dose de 70 mg ou 100 mg. Para verificar se chegaram onde queriam chegar, os endpoints foram mudanças no PSA, nos scans ósseos, no metabolismo dos ossos e de um conjunto de critérios denominado Response Evaluation Criteria in Solid Tumor. Verificaram os efeitos doze e 24 semanas depois.

Conseguiram “parar” o tumor em 43% dos pacientes depois de 12 semanas e em 19% depois das 24. Aproximadamente a metade conseguiu reduzir um componente na urina (N-telopeptídeo) depois de 12 semanas; 63% conseguiram reduzir a fosfatase alcalina durante a pesquisa.

Segundo os autores, os efeitos colaterais foram modestos e toleráveis. Agora, devemos esperar um experimento Fase III.

Fonte: Clin Cancer Res. 2009 Dec 1;15(23):7421-8. 

 

 


 

Terapias Focais

Há uma terapia relativamente recente, chamada focal, que se destina ao tratamento de cânceres da próstata menos agressivos. A preocupação de muitos médicos e epidemiólogos também é com o que chamam de overtreatment, sobre-tratamento excessivo, além da conta. A polêmica cresceu desde a generalização do uso do PSA na detecção dos cânceres. Possibilitou um aumento no número dos diagnosticados, sobretudo nos diagnosticados cedo. Não obstante, segundo alguns, dentro do benefício maior do diagnóstico precoce existe esse problema, o de tratar alguns cânceres além da conta. E os tratamentos têm pesados efeitos colaterais.

O que fazer com cânceres com pequeno volume, células bem diferenciadas (as indiferenciadas são as brabas), pouco perigosos que não ameaçam nem a longevidade, nem a qualidade da vida. Dados confiáveis mostram que o simples acompanhamento provoca algumas mortes. Como impedir essas “poucas” mortes sem sacrificar muitos mais que receberam tratamentos desnecessariamente pesados?

Esse é o objetivo da terapia focal, que junta o acompanhamento e o tratamento da glândula inteira. Pretende eliminar os focos cancerosos que ofereçam algum perigo e, ao mesmo tempo, reduzir os danos das demais terapias convencionais (prostatectomia, radiação, tratamento hormonal etc.).

Tem claras vantagens, mas tem desvantagens também. A divisão dos cânceres em níveis (de menos a mais perigosos) fica comprometida, o que dificulta comparações e o uso de experiências de outros pacientes para orientar os que seguem essa terapia; a margem de incerteza é maior, e a dificuldade em comparar a qualidade da vida dos pacientes com a dos que optaram por terapias mais invasivas.

Uma avaliação da bibliografia sobre as terapias focais fez uma varredura do que foi publicado entre 1995 e 2009 revela um quadro promissor, mas até que guidelines, orientações padronizadas possam ser elaboradas, é necessário realizar experimentos com grupos controle de vários tipos.

Fonte: European Urology

Quanto custa um ano de vida com qualidade?

Quanto custa um ano de vida com qualidade para você? Esses são os cálculos que os economistas da saúde andam fazendo. Já sabemos que o tratamento hormonal provoca muitos efeitos colaterais, inclusive fraturas devido à perda de minerais nos ossos. Os economistas, atualmente, fazem comparações como essa. Exemplificando, Ito Kouta, do Memorial Sloan-Kettering Cancer Center em Nova Iorque calculou o custo/benefício de dois tratamentos para o risco de fraturas para homens hipotéticos de 70 anos com câncer de próstata avançado que receberam terapia hormonal durante dois anos.

O tratamento da osteoporose provocada pela falta de hormônios masculinos com alendronato tem custos. Kouta calculou os QALY (um ano de vida com melhorias na qualidade da vida) – sem triagem, com triagem, sem tratamento e com diferentes tratamentos:

1.     Com triagem universal, usando o alendronato apenas quando necessário: o custo foi de US$ 67 mil por QALY;

2.     Sem triagem e usando o alendronato com todos, sem selecionar os pacientes que realmente necessitam, o custo foi de US$ 178 mil por QALY.

Os custos dependem da idade do paciente, de ter tido fraturas ou não, nível da densidade de minerais nos ossos antes da terapia hormonal e de baixar o custo do alendronato.

Em se tratando de saúde pública, cada real conta. O que se desperdiça em um lado, falta em outro.

 

O que a químio faz no câncer da próstata?

A quimioterapia mais usada hoje contra o câncer de próstata se chama Taxotere. Era usado contra o câncer  de mama, mas como a “segunda” linha – quando a químio da primeira linha falhava. Hoje, é o padrão no tratamento do câncer de próstata avançado.
Desde há umas décadas que se tentava uma quimioterapia contra esse câncer, mas sem resultados. Verdade, eram medicamentos desenhados para combater outros cânceres, não o da próstata. Eram usado no desespero, em pacientes prestes a morrer, com muita dor e muito enfraquecidos. Eram pacientes do tipo no qual quase nada funcionaria.
Hoje há medicamentos “inteligentes”, que usam o conhecimento acumulado em décadas de pesquisas sobre células, moléculas, bioquímica. No caso do câncer da próstata, o Taxotere é o primeiro que deu bons resultados – mas ainda falta muito. Virou tratamento padrão, mas somente para pacientes que já não respondem ao tratamento hormonal. Às vezes é usado junto com uma ou outra forma de tratamento hormonal. Sem lugar a dúvidas, muitos pacientes experimentam melhoria na qualidade da vida porque a dor diminui e muitos também vivem mais tempo, embora menos do que todos desejamos.
Como funciona?
Taxotere inibe a proliferação de células cancerosas, inibindo os efeitos de uma proteína chamada de Bcl-2, que impede que as células cancerosas morram “normalmente”. Para quem não sabe, as células morrem normalmente e são substituídas por outras, recém-criadas. As células cancerosas se subdividem rapidamente e o tumor cresce.
Um problema é fazer o Taxotere chegar às células cancerosas do paciente. No laboratório, se adicionarmos Taxotere às células cancerosas, elas morrem. O remédio paralisa a célula.
Mais de metade dos pacientes tratados se beneficiam com um período de remissão da doença, mas os efeitos ainda deixam muito a desejar. Vivem, na média, três meses a mais do que os que receberam o tratamento padrão anterior. É pouco, mas há pesquisas para melhorar o medicamento.
Há efeitos colaterais também. Cai cabelo, há náuseas e vômitos, ainda que moderados, aumenta a chance de infecções e de anemia. Quase todos os efeitos acabam quando acaba a terapia.
Como saber se o tratamento está funcionando?
A diminuição do PSA é uma das maneiras. Se o PSA diminui ou para de crescer, o medicamento está funcionando. Se isso não acontecer em dois meses, não adianta continuar o medicamento.
Infelizmente, muitas células escapam ao tratamento e voltam a se reproduzir. Pode durar pouco ou bastante. Taxotere aumenta alguns meses de vida, na média. Há os que não se beneficiam em nada e há os que vivem muitos meses ou alguns anos a mais com mais qualidade de vida.
Há muita, muita gente no mundo com câncer de próstata avançado. Esse número só tende a aumentar com o envelhecimento da população. É um mercado considerável e por isso (e não por idealismo) que muitas empresas estão investindo pesado em outros tratamentos que começam a dar bons resultados experimentais. Pelas piores razões talvez tenhamos os melhores resultados.