Nova “vacina” contra o câncer da próstata

Uma nova pequena pesquisa reacende a esperança de aumentar o arsenal à nossa disposição para enfrentar o câncer da próstata. Porém, não será em breve.

É uma “vacina” nova. Visa fortalecer e direcionar melhor a resposta do nosso sistema imune contra as células cancerosas.

A vacina conteve o avanço do tumor em 77% dos pacientes (três em cada quatro). Do total, 45% tiveram uma redução do tumor.

Porém, a amostra é muito pequena: 22 pacientes.

No fim do experimento, 17 dos 22 pacientes conseguiram estabilizar o câncer. Três em quatro, repetindo.

Muitos medicamentos são propostos, um número menor chega a ser testado e um número bem menor é aprovado e chega ao mercado, e quando chega, uma década ou mais se passou.

Beneficiará outros companheiros. É o que esperamos.

Gláucio Soares

IESP-UERJ

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TESTOSTERONA, GLYCANS E O AVANÇO DO CÂNCER DA PRÓSTATA

Da Universidade de Newcastle, na Grã-Bretanha, vem uma pesquisa promissora: eles identificaram um grupo de moléculas que, eventualmente, poderá ser um caminho para reduzir a velocidade de avanço do câncer da próstata.

Primeiro: sabem que a testosterona afeta centenas, talvez muito mais, de genes. Um conjunto grande deles, adicionam açúcares, chamados de glycans, à “pele” das células cancerosas.

E aí?

Descobriram que a testosterona transforma os glycans de tal maneira que eles ajudam as células cancerosas a crescer, a sobreviver e a se espalhar por outras partes do corpo – as metástases – que é o que mata os pacientes do câncer da próstata. Então é possível diminuir o avanço do câncer através dos glycans.

Esse é, apenas, o início de uma possibilidade terapêutica. Se der certo, serão muitos anos até que chegue a ser usada para tratar o câncer.

Não obstante, há uma possibilidade de que o tempo seja menor. Porque já existem tratamentos de outros tipos de câncer, como o câncer da mama, que focam nos glycans. Talvez algum deles ajude a tratar o câncer da próstata.

Vejamos…

 

GLÁUCIO SOARES   IESP/UERJ

Redução nas células cancerosas em circulação e sobrevivência[i]

Redução nas células cancerosas em circulação e sobrevivência[i]

Todos queremos saber o que nos espera, no câncer como em qualquer outro futuro. As perspectivas se reduzem em vários endpoints – situações que servem como marcadores do progresso do câncer. Uma condição que é um endpoint avançado é quando nos tornamos resistentes ao tratamento hormonal. Se ler trabalhos em Inglês, a expressão é castration-resistant prostate cancer (CRPC). Os que nos tratam também precisam saber se e como o câncer está avançando, se e como os medicamentos estão dando certo. O câncer nos mostra que somos muito diferentes e respondemos de maneira que pode ser muito diferente ao mesmo tratamento.

Um marcador é o número de células cancerosas em circulação, uma contagem que deve ser feita antes do tratamento e depois também, para poder avaliar seus efeitos e o que fazer em seguida. Contagens ≥5 células/7.5 ml aumentam o risco estatístico de resultados ruins, de avanço do câncer.

MUDANÇAS nesse valor indicam alguma coisa?

Indicam.

Pesquisadores reuniram pacientes com uma contagem ≥5 células/7.5 ml antes do tratamento pós-hormonal, que tinham essa informação disponível. Eles usaram dados de outras pesquisas, com pacientes que foram tratados com abiraterona depois da quimioterapia e os que tinham sido tratados somente com quimioterapia.

Os pesquisadores queriam saber se reduções de 30% ou mais nas células cancerosas em circulação indicavam êxito no tratamento ou não.

A conclusão é simples: um declínio de 30% ou mais indica uma vantagem na sobrevivência em relação aos pacientes que fizeram o mesmo tratamento mas cuja redução no número de células cancerosas em circulação foi inferior a 30%. Essa redução tinha um bem-vindo efeito sobre a sobrevivência independente de outras condições.

A pesquisa usou 486 pacientes (122 tratados com abiraterona e químio e 364 tratados somente com químio). Fizeram coleta e avaliações depois de 4, 8 e 12 semanas. Após quatro semanas, a relação estava presente e a razão de risco era 0,45 – dividindo o risco dos pacientes com maior redução nas células cancerosas em circulação pelo risco dos com menor redução, vemos que o risco dos primeiros de morrer era 45% do risco, maior, do segundo grupo. Nesse caso, quanto menor a percentagem, maior a sobrevivência. Após oito semanas, era 41% e após doze semanas era 39%. Esse benefício, essa maior sobrevivência, valia para todos os níveis de CTC no ponto de partida. Alto, médio ou baixo, se reduzissem significativamente as células cancerosas em circulação reduziriam o risco de morte.

Marcadores não servem, apenas, para saber como a gente está; servem, também, para reorientar o tratamento.

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ


[i] Ver o artigo “Decline in Circulating Tumor Cell Count and Treatment Outcome in Advanced Prostate Cancer” em European Urology, June 2016.

GALETERONE: NOVA ESPERANÇA CONTRA O CÂNCER DA PRÓSTATA

Agora que pesquisadores “descobriram” o câncer da próstata e que a indústria farmacêutica “descobriu” que, cada ano, o número de novos pacientes ultrapassa duzentos e trinta mil somente nos Estados Unidos, há mais interesse e mais investimentos na área. Nada comparável ao investimento massivo feito para controlar o HIV/AIDS mas, mesmo assim, algo a celebrar.

O tratamento de outros cânceres parecia ter um princípio, uma diretriz: após o diagnóstico, se houver uma decisão de tratar o paciente, partia-se com tudo para cima do câncer. Sabemos que cada câncer inclui subtipos, causados por células diferentes e que muitos medicamentos funcionam bem em umas células, mas não em outras. A simultaneidade de tratamentos, muitos dos quais com pesados efeitos colaterais, obedeciam à lógica de que um medicamento de um tipo atacava células deste e daquele tipo, mas não eliminava as demais, que exigiam outro  medicamento e assim por diante.

A última vez que verifiquei, havia 25 tipos de células de câncer da próstata;  embora várias  delas sejam raridades, são muito tipos, constituindo um alvo difícil de eliminar com  um medicamento só.

Uma tendência mais recente é a de incluir vários alvos num medicamento só. Um dos mais recentes dessa tendência se chama galeterone. Ele lança um ataque em três frentes contra o câncer da próstata. Como se tornou habitual, ele se concentra nos pacientes que já não respondem ao tratamento (anti)hormonal. Os primeiros testes, com poucos pacientes, deram resultados promissores. Não é cura, mas poderá ajudar muitos pacientes.

Quais foram esses resultados obtidos por esses pesquisadores baseados em Harvard?

  1. 1.  Primeiro, em mais da metade dos pacientes, houve uma redução no PSA de 30% ou mais. Esse resultado é modesto, mas me diz algumas coisas:
  • ·       Muitos pacientes não respondem a esse medicamento, embora um número maior possa vir a responder com seu aperfeiçoamento;
  • ·       Redução do PSA não é cura. Cura pode haver, se chegarmos a níveis não detectáveis do PSA.  Para esses pacientes que responderam bem ao medicamento, a grande incógnita é: quanto tempo durarão os benefícios? O tempo conta porque, por se tratar de uma população velha, em duas décadas quase todos morrerão de outras causas.
  • 2.  Em onze pacientes (entre 49) houve uma redução substancial, de 50% ou mais do PSA. A lógica da avaliação é a mesma: nem todos respondem assim (alguns não respondem) e a duração desses benefícios é uma incógnita porque sua determinação depende de um acompanhando de uma população maior por muitos anos;

3.  Em alguns pacientes houve redução dos tumores, que representa uma demonstração mais segura de que o medicamento surte efeito, ainda que não cure.

 

· Galeterone funciona simultaneamente em três direções: bloqueia receptores de proteínas que respondem à testosterona;

  1. ·       Reduz o número de receptores nos tumores e
  2. ·       Foca em um enzima que está ligado com os caminhos dos hormônios ligados ao câncer.

Os resultados dessa pesquisa preliminar foram apresentados à American Association for Cancer Research. Outra pesquisa, Fase II, terá mais pacientes e avaliará a eficiência do medicamento, devendo ser começada ainda este ano.

É praxe conduzir um terceiro (e mais caro e demorado) tipo de pesquisa, chamado de FASE III, com um número maior de pacientes e um grupo controle.

Ainda falta bastante até que o medicamento seja aprovado e possa ser vendido, mas, se funcionar, é provável que muitos dos leitores venham a ser beneficiados por ele.

GLÁUCIO SOARES                 IESP/UERJ

Cancer da próstata: prognósticos errados e seus efeitos políticos

Toda doença tem aspectos políticos e o câncer da próstata não é exceção. A distribuição de fundos públicos para pesquisa, tratamento e prevenção talvez seja um dos campos mais politizados. Os pacientes, assim como seus parentes e amigos, podem participar e participam de diferentes maneiras e com diferentes intensidades nesses processos. O câncer da próstata é um dos campos com clara sub-representação dos interessados, em parte porque os homens ainda tem muita vergonha de admitir que são pacientes ou até que são vulneráveis a essa doença. O exame de toque retal, as freqüentes conseqüências de tratamentos como a impotência e a incontinência são tabus. Por isso, há menos fundos para pesquisas, tratamentos e prevenção do câncer da próstata do que para o de mama ou para a AIDS por paciente e por morto. Por isso, Marília Coutinho e eu apresentamos um trabalho, já em 1998, chamado Men: The Disorganized Majority,
posteriormente publicado na revista Dados.

Na atualidade, médicos e políticos escoceses estão no meio de um debate e de uma campanha política muito séria. Por que?

Há dois anos, Abdel Baset al Megrahi, um terrorista líbio foi solto de uma prisão escocesa por razoes humanitárias. Tinha câncer da próstata avançado e teria três meses de vida. Isso, há dois anos.Quem é Abdel Baset al Megrahi? O terrorista que colocou uma bomba num avião da Pan American, vôo 103, que explodiu sobre Lockerbie na Escócia, matando 270 pessoas. Quem eram os mortos? Em sua maioria estudantes de high school americanos, mas havia outros passageiros e a queda matou escoceses que estavam em Lockerbie.

É um assassino em massa, e há quem defenda a tese de que assassinos deste tipo não poderiam ser libertados por razoes humanitárias.

Porém, há um problema pesado do ponto de vista médico. Abdel Baset al Megrahi teria, no máximo, três meses de vida; dois anos depois ele continua vivo. Incompetência crassa. Professor Roger Kirby, do Prostate Centre em Londres, afirmou que os médicos que fizeram o prognóstico e os médicos que aconselharam o governo não estavam a par das pesquisas em andamento, nem de medicamentos recentes, como a abiraterona, que aumentou a sobrevivência (na mediana em vários meses, mas no extremo da distribuição em anos).

A indignação dos parentes e amigos das vítimas não tem limite. Abdel Baset al Megrahi negou direitos humanitários a todas as suas vítimas. Para eles, razoes humanitárias não se aplicam a monstros, a assassinos em massa.

Não é a primeira vez que algo semelhante acontece na Grã-Bretanha. Há anos, outro assassino em massa, que faz Abdel Baset al Megrahi parecer gente boa, o General Augusto Pinochet, se beneficiou de indulto semelhante. Estava em cadeira de rodas e dizia estar paralitico. Foi liberado e voltou para o Chile. Desceu andando, ás gargalhadas, do avião em Santiago. Não estava paralitico, nem gravemente enfermo. Era fraude. Em tempo: o governo chileno oficialmente reconheceu mais 9.800 vítimas da ditadura, elevando o número de vítimas do regime comandado por Pinochet a mais de quarenta mil!

Nos dois casos. Por detrás de políticos ingênuos (ou nem tanto) incompetência e fraudes médicas grosseiras.

GLÁUCIO SOARES

IESP/UERJ

Um caminho para impedir que os cânceres avancem

Um caminho para a cura dos cânceres talvez esteja começando. Como tantos, nasceu dentro de departamentos especializados que juntam áreas antes separadas. Desta vez, é o Departamento de Patologia e de Medicina Molecular da Universidade de Queens, em Ontário, no Canadá. Há um gene chamado PTEN. Uma de suas funções é suprimir tumores. É encontrado no núcleo das células cancerosas. Dá para aprender algo pela internet. Veja

http://www.cancerindex.org/geneweb/PTEN.htm

Aí aprendi que na medida em que vários tipos de cânceres se tornam mais agressivos e mais avançados, há mutações nesse gene. Isso já foi constatado em cânceres da mama, da próstata, do endométrio, do ovário, dos intestinos, no melanoma, no linfoma e no terrível glioblastoma (no cérebro). Quando há modificações genéticas no PTEN, esses cânceres disparam. O pesquisador Jeremy Squire, da Queens, desenvolveu uma técnica para detectar essas mutações.

É um passo milimétrico. Porém, esse milímetro abre uma janela enorme que deixa antever um rápido progresso na luta contra muitos cânceres.

Célula cancerosa atacada por macrófagos

Abaixo uma foto de uma célula cancerosa sendo morta pelos macrófagos que são parte do nosso sistema imune. Eles injetam toxinas na célula, se metem dentro dela, que vai morrendo.

Eles fazem isso injetando toxinas nela. Os macrófagos entram nas células e se fundem com ela. Primeiro a célula perde os “pedúnculos”, que estavam buscando sangue. Aí começa a ficar mais redonda e com a membrana suave. Antes de morrer, a célula parece ter pequenas bolhas, que nada mais são do que os macrófagos que se fundiram com a célula. Em seguida, numa foto não mostrada, a célula perde a sua forma característica, encolhe e morre. Foto aumentada 3: x8,000
Créditos:
Image and description: Dr. Raowf Guirguis. National Cancer Institute
Data: Outubro 1988
Autora: Susan Arnold (fotógrafa)