Cachorros farejam o câncer na urina

No estado de Indiana, um grupo de pesquisadores, com Dr.Mangilal Argawal à frente, está levando a sério a possibilidade de usar cachorros na detecção do câncer da próstata.

Foram inspirados por uma pesquisa feita na Itália onde os cachorros foram treinados para detectar corretamente o câncer cheirando a urina. Acertaram em 98% dos casos, um resultado muito superior ao de outros testes. As biopsias, custosas, invasivas, frequentemente dolorosas e sujeitas a infecções e outros efeitos colaterais, tem uma taxa incômoda de falsos negativos.

Embora os erros tenham diminuído, ainda existem. Quando eu fiz biopsias os dois primeiros “batches” (um de quatro agulhas, outro de seis) deram resultados negativos. Como o PSA continuava crescendo, foi feita nova série de seis agulhas e o câncer foi encontrado.

O olfato dos cachorros é muito, muito mais poderoso do que o dos humanos. Alexandra Horowitz, que estuda os caninos no Barnard College, afirma que os cachorros podem notar uma colher de açúcar no volume equivalente a duas piscinas. A acuidade seria de partes por trilhão.

Fonte: Inside of a Dog. 384 páginas, ISBN 9781416583431 | September 2010. À venda na Kindle por 13 dólares.

Na minha leitura, há dois grandes problemas no uso sistemático de cachorros na detecção do câncer da próstata: o primeiro é o treinamento. Tudo depende da qualidade e da extensão do treinamento. O segundo é o preconceito. Não vai ser fácil convencer pacientes a depositar as suas fichas em algo tão importante como a detecção de um câncer em um cachorro.

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ

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Explicando o Gleason

O escore Gleason indica quão agressivo é um câncer da próstata. Quanto mais alto, mais agressivo, pior. Descoberto o câncer através de biópsia, o Gleason contribui para orientar o médico na recomendação de um tratamento. Qual tratamento usar? O Gleason, o PSA, o PSADT e outros indicadores ajudam. Há muitas opções e uma delas é não fazer cirurgia, radiação nem terapia hormonal. Simplesmente acompanhar o paciente. Quem entra nessa categoria? Usualmente pacientes com Gleason baixo e PSA também baixo e crescendo lentamente. Feitos os cálculos, se for provável que o paciente morra antes de outra causa, tratamentos invasivos e/ou com efeitos colaterais pesados são temporariamente descartados. Não obstante, o acompanhamento é necessário porque os canceres mudam, alguns ficam mais agressivos, o que pode levar o médico a recomendar um tratamento mais radical. Quando o Gleason tem um valor de 8, 9 ou 10 (que é o mais alto possível), usualmente o médico recomenda um tratamento mais pesado. Como sempre, as organizações de defesa dos pacientes recomendam ter mais de uma opinião medica, sendo importante que os dois sejam competentes, independentes um do outro, e de consultórios ou clinicas diferentes.

Como apareceu o Gleason? Foi desenvolvido por um patologista na década de 60 e meio século mais tarde continua a ser usado.  Continua a ajudar a prever como o câncer vai se comportar. O patologista olha a amostra do tecido canceroso através de um microscópio de baixa magnificação. Ele observa o padrão das células cancerosas.  Usualmente elas recebem uma nota, um valor, de 3 a 5. O padrão maior, que ocupa mais espaço na amostra examinada, recebe o primeiro valor. O segundo mais frequente recebe o segundo valor.  Um Gleason, usualmente, sete pode ser 4+3 (pior) ou 3+4 (melhor).  E se só houver um padrão? O patologista dobra o valor do padrão (exemplos: 3+3; 4+4 ou 5+5).

Gleason 2+2:

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Usualmente, o patologista usa várias amostras do tecido canceroso. Quando eu fiz a primeira biópsia, eram quatro agulhas, mas na segunda eram seis e o número recomendado aumentou. É uma questão de probabilidade: quanto mais agulhas, maior a probabilidade de encontrar o câncer, se ele existir.  Não é só o número, mas também a distribuição. Há áreas mais fáceis e mais difíceis de fazer a biópsia. Agora, há biópsias “guiadas” com o auxílio de uma técnica de imagem.  Buscam garantir que as áreas suspeitas entrarão nas amostras.  

Gleason 5:

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A biópsia pode revelar a extensão do câncer.  Quanto mais tecido canceroso nas amostras, pior.

Encontrado o câncer, o médico pode sugerir outros exames, como o MTI, tomografias computarizadas ou escanear os ossos. Há considerações de custo. Outros dados são levados em consideração. A idade e a saúde do paciente contam. Talvez não faça sentido propor um tratamento pesado, invasivo, num paciente muito idoso (80 ou 90) e/ou com outra doença grave. O efeito do tratamento sobre o paciente é levado em consideração, assim como a probabilidade de que ele morra por outra causa antes que os piores efeitos do câncer da próstata se façam sentir.

Qualquer decisão sua deve ser tomada a partir das informações e conselhos de seu médico, preferivelmente urólogo ou oncólogo, idealmente os dois.

GLÁUCIO SOARES                                        IESP-UERJ

MELHORES TESTES, MENOS ERROS

O teste de PSA é tradicionalmente usado para detectar o câncer da próstata. Tem muita utilidade: é fácil de coletar e de analisar, os resultados são apurados rapidamente, com margem de erro conhecida. Não obstante, permite erros, falsos positivos (PSA alto, indicativo de que há câncer, mas não há) e falsos negativos (PSA baixo, indicativo de que não há câncer, mas há). Se feito juntamente com o toque retal, a percentagem dos erros diminui consideravelmente. O PSA, durante muito tempo, foi recomendado e usado regularmente, com o objetivo de detectar o câncer cedo, quando ainda é curável. Porém, os falsos positivos geraram outro tipo de problema, biópsias e mais biópsias (mais caras, difíceis e dolorosas, com alguns efeitos colaterais e também suscetíveis a margem cada vez menos aceitável de erro) e às vezes até tratamentos com a intenção de curar um câncer que não existe. Dai, alguns países e médicos terem passado a não recomendar o exame sistemático de PSA, exceto para pessoas de alto risco (como as que tem pai, tio ou irmão com este câncer).Surgiram outros testes que prometiam as vantagens dos anteriores, sem algumas das desvantagens. Há outros marcadores no sangue que podem reduzir muito a margem de erro. Numa das pesquisas, três outros marcadores foram adicionados, reduzindo – muito – a margem de erro. A percentagem de falsos positivos e de falsos negativos foi reduzida de 32 a nove por cento. Uma queda considerável. Kailash Chadha, do Roswell Park Cancer Institute em Buffalo, N.Y., apresentou os resultados.clip_image001

Os três marcadores são proteínas que circulam no sangue chamadas de cytokines, IL-8, TNF-alpha e sTNFR1.

Essa foi uma pesquisa pequena e requer outra, muito maior, Fase III. Esses testes poderão reduzir os erros, evitar biópsias, tratamentos e medicamentos desnecessários, assim como evitar que cânceres perigosos permaneçam mais tempo desapercebidos.

 

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ

Subestimando ou superestimando o câncer da próstata

Às vezes, o câncer da próstata é descoberto por acaso; às vezes, é descoberto quando fazemos exames periódicos e às vezes é porque há sintomas (o que muitas vezes significa que o câncer está avançado). Os primeiros exames específicos para verificar se o paciente tem câncer são o de PSA, que é um exame de sangue barato, e o toque retal.

Um PSA alto e encontrar uma massa sólida no toque retal levantam suspeitas. Até 3 ou 4 ng/ml os clínicos não se preocupam, embora haja falsos negativos; entre esse nível e dez é uma zona cinza, chamada de cinza porque dá de tudo, câncer e não câncer; acima de dez usualmente o médico sugere uma biópsia; se, além do PSA suspeito, o toque retal também revelar uma massa sólida, dura, o médico usualmente faz uma sugestão insistente.

O único erro que meu cirurgião cometeu, que eu saiba, foi afirmar que eu deveria fazer a biópsia “to rule out cancer” – para eliminar a hipótese de câncer. Não elimina. As biópsias são probabilísticas e com certa freqüência produzem falsos negativos. Eu fiz quatro agulhas numa biópsia; depois, como o PSA continuava subindo, mais seis e… nada! Mas, como o PSA continuava subindo, o médico sugeriu mais seis e aí sim, encontraram um adenocarcinoma com um Gleason de 3+3.

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O que é o tal de escore Gleason? As células normais são diferenciadas e diferentes partes da célula fazem tarefas diferentes; com o câncer elas ficam mais homogêneas, mais iguais, dedicadas a crescer e crescer, e mais nada. O escore de uma célula pode variar até cinco, o mais alto. No cinco, elas são absolutamente iguais e só fazem crescer. Numa biópsia, há células de tipo diferentes, umas normais, outras não e mesmo as cancerosas também são diferentes umas das outras. Tem células com escores diferentes. A mais freqüente, que tivermos em maior número na amostra dá a primeira parte do escore Gleason, o primeiro número. A segunda mais freqüente fornece o segundo número. Se a mais freqüente for mais ou menos diferenciada, o escore poderá ser 3; se a segunda mais freqüente for totalmente indiferenciada, toda igual, o escore será 5 e o Gleason vai ser definido como 3+5. As células com valor acima de três são consideradas indicadoras de cânceres avançados e/ou agressivos.

Porém, dar um valor a uma célula tem algo de subjetivo. Para maior exatidão, precisamos de testes melhores que excluam a subjetividade.

O Dr. Richard Matern, urólogo no LDS Hospital, constata, como muitos outros já o fizeram, que quando a próstata é removida e examinada por um patologista, com indesejável freqüência o escore Gleason é mais alto do que na biópsia. Significa que o câncer foi “subclassificado” na biópsia. Ora, o escore Gleason é muito importante na determinação do tratamento a ser seguido. Um Gleason baixo pode justificar o chamado “watchful waiting”, estratégia durante a qual os pacientes são acompanhados, fazem testes periódicos, mas não fazem nenhum tratamento. Um Gleason alto, oito ou mais no total, por exemplo, praticamente empurra médico e paciente para um tratamento mais agressivo e mais cedo.

As biópsias melhoraram desde que as fiz, há 16 anos. Usam mais agulhas – um incômodo – e também procurar chegar aos lugares mais difíceis, reduzindo a margem para erros.

A importância de acertar a agressividade é óbvia: tratar agressivamente um câncer indolente possivelmente significa submeter o paciente a efeitos colaterais pesados, como a impotência e a incontinência; não fazê-lo com um paciente portador de um câncer agressivo aumenta o risco de que ele venha a falecer do câncer, embora a maioria dos portadores de cânceres da próstata acabem morrendo de outras causas. Não obstante, um paciente relativamente jovem com um câncer agressivo e avançado requer um tratamento igualmente agressivo e duro, a despeito dos efeitos colaterais.

Essa é a importância de dividir os cânceres em estágios, de acordo com o risco que eles trazem para os pacientes. Para isso, a correção do escore Gleason continua fundamental.

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ