Uma oração por Irene

 

Irene, amiga desde 1962, faleceu vítima de dois canceres (diferentes) no pulmão.  Aos que acreditam, peço uma oração; aos que não acreditam, um pensamento positivo.

Obrigado

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Avanços na sobrevivência de cânceres

As notícias vindas do Reino Unido são boas, mas não ótimas. Houve um avanço considerável na sobrevivência (dez anos depois do diagnóstico) dos adultos em alguns cânceres nos quarenta anos de 1971-2 a 2010-11, melhorias em outros e quase estagnação em alguns nos quais a ciência ainda não encontrou o caminho, particularmente os do pulmão e do pâncreas. Houve pouco progresso no tratamento de cânceres do esôfago, do estomago e do cérebro. Do lado bom da escala, a sobrevivência do câncer dos testículos está próxima de cem por cento (98%), um avanço bem-vindo desde os 69% de quatro décadas atrás. O temível melanoma está sendo domado: a sobrevivência aos dez anos deu um salto, de 46% para 89%.

No conjunto, metade dos cancerosos sobrevive dez anos ou mais. Dez anos depois do diagnóstico, metade está viva. É um avanço: na média, entre os que foram diagnosticados no início da década de 70, somente um quarto estava viva depois. Um câncer que obteve um aumento substancial na sobrevivência foi o de mama, graças em parte considerável à mobilização e à politização das mulheres: de 40% para 78%. Aliás, as mulheres se beneficiaram mais das melhorias do que os homens: das diagnosticadas (de todos os cânceres) recentemente, 54% devem sobreviver, pelo menos, dez anos, bem mais do que os 46% dos homens. Parte da diferença se explica pelo fato de que os homens continuam a fumar e beber mais do que as mulheres. Em 1974, 51% dos homens adultos britânicos fumavam, dez por cento a mais do que as mulheres adultas. Em 2012, essas percentagens eram de 22 e 19, respectivamente (Fonte: http://www.ash.org.uk). Não tenho dúvidas de que a redução no fumo contribuiu muito para a redução da mortalidade por câncer. Infelizmente, o quadro do consumo de bebidas alcoólicas não é positivo: aumentou de 1974 a 2013, a despeito de uma redução a partir de 2004. Tomando a Inglaterra em separado, pesquisa feita em 2011 revelou que 39% dos homens e 28% das mulheres tinham bebido mais do que o nível máximo recomendado. Esse nível é mais alto no caso dos homens, o que significa que as diferenças absolutas no consumo de álcool entre os sexos é ainda maior. Há vários cânceres com relações com o consumo excessivo de álcool.

E o câncer da próstata? Os dados mostram que 94% estavam vivos um ano depois do diagnóstico, 85% cinco anos depois e 84% dez anos depois. Avançou muito em relação a outros cânceres: entre os diagnosticados no início da década de setenta, havia seis cânceres com melhor sobrevivência (entre os individualizados no gráfico abaixo), mas a projeção a respeito dos diagnosticados quarenta anos depois é que somente os diagnosticados com câncer testicular e com melanoma terão sobrevivência maior aos dez anos.
Esses são os dados britânicos. A sobrevivência é mais alta nos Estados Unidos e deve
[i] ser muito mais baixa no Brasil. Nossa saúde pública deixa muitíssimo a desejar.

O objetivo de todo departamento da ciência médica é, claro, a cura. Até agora, temos tido avanços graduais e cumulativos, como é o caso do câncer da próstata, ou grandes avanços devido a inovações no tratamento.

 

 

 

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Ver: Adult 10-year net survival, England & Wales Credit: Cancer Research UK


[i] Os dados brasileiros são pouco confiáveis.

A SOBREVIVÊNCIA ESTÁ AUMENTANDO!!!

Dados recentes mostram que a sobrevivência a partir do diagnóstico de câncer aumentou desde que o teste do PSA foi adotado nos Estados Unidos.
Há teorias que competem para explicar essa bem-vinda mudança. Por um lado, o aumento da sobrevivência se nota em muitos outros cânceres. Na média, cada ano, aproximadamente 1% a mais dos diagnosticados chegam vivos a marcadores temporais: cinco anos, dez anos etc. É instintiva a hipótese de que essa melhoria se deve a melhorias no sistema, incluindo melhorias nos medicamentos e novos tratamentos, melhorias nos hospitais, inclusive nos diagnósticos, e ampliação dos serviços médicos a grupos previamente excluídos, o que aumenta muito a sobrevivência desses grupos e um pouco a sobrevivência média de todos os cancerosos.
Assim, a entrada do PSA no arsenal do diagnóstico do câncer da próstata se faz num mundo médico-hospitalar em mudança, e não num mundo estático.
É igualmente esperado, com base na experiência do tratamento de, praticamente, todos os cânceres, que diagnosticar cedo – qualquer que seja o câncer – aumenta as chances de cura. Sabemos que, desde a introdução do PSA, aumentaram os casos diagnosticados e aumentou a sobrevivência pós-diagnóstico. Esses dados se encaixam bem na hipótese de que muitos dos cânceres detectados cedo seriam detectados tarde, quando já estivessem avançados. Consequentemente, a sobrevivência seria menor. Os dados mais recentes foram publicados online há dias no Journal of Urology. Um dos dados socialmente mais significativos é que a sobrevivência pós-diagnóstico dos negros atualmente é semelhante à dos brancos.       
Uma notícia muito boa para nós é o aumento da sobrevivência mediana mesmo nos casos  avançados: em um estudo feito em 1985-86, a sobrevivência mediana de pacientes depois da terapia anti-hormonal era de 30 meses (dois anos e meio); melhorou para 33 meses em outra pesquisa com pacientes nessa condição alguns anos mais tarde (1989 a 1994), atingindo 48 meses (quatro anos) em outro trial feito com pacientes que atingiram esse estágio de 1995 a 2009. Um ano e meio a mais de vida com um câncer num estágio considerado avançado.
Importa saber de onde veio esse benefício? Importa. Se está ligado a efeitos mais distantes do diagnóstico precoce, é um fortíssimo argumento em defesa do teste regular do PSA.
Tudo isso remete à questão: testar ou não testar? A American Society of Clinical Oncology recomenda que pessoas com uma expectativa de vida de dez anos ou mais não descartem o teste de PSA e conversem com um urólogo sobre isso. A expectativa é uma estimativa, apenas, baseada na idade do paciente e na sua condição física e de saúde.
Uma controvérsia, uma boa notícia.
GLÁUCIO SOARES          IESP/UERJ

A SOBREVIVÊNCIA ESTÁ AUMENTANDO!!!

Dados recentes mostram que a sobrevivência a partir do diagnóstico de câncer aumentou desde que o teste do PSA foi adotado nos Estados Unidos.
Há teorias que competem para explicar essa bem-vinda mudança. Por um lado, o aumento da sobrevivência se nota em muitos outros cânceres. Na média, cada ano, aproximadamente 1% a mais dos diagnosticados chegam vivos a marcadores temporais: cinco anos, dez anos etc. É instintiva a hipótese de que essa melhoria se deve a melhorias no sistema, incluindo melhorias nos medicamentos e novos tratamentos, melhorias nos hospitais, inclusive nos diagnósticos, e ampliação dos serviços médicos a grupos previamente excluídos, o que aumenta muito a sobrevivência desses grupos e um pouco a sobrevivência média de todos os cancerosos.
Assim, a entrada do PSA no arsenal do diagnóstico do câncer da próstata se faz num mundo médico-hospitalar em mudança, e não num mundo estático.
É igualmente esperado, com base na experiência do tratamento de, praticamente, todos os cânceres, que diagnosticar cedo – qualquer que seja o câncer – aumenta as chances de cura. Sabemos que, desde a introdução do PSA, aumentaram os casos diagnosticados e aumentou a sobrevivência pós-diagnóstico. Esses dados se encaixam bem na hipótese de que muitos dos cânceres detectados cedo seriam detectados tarde, quando já estivessem avançados. Consequentemente, a sobrevivência seria menor. Os dados mais recentes foram publicados online há dias no Journal of Urology. Um dos dados socialmente mais significativos é que a sobrevivência pós-diagnóstico dos negros atualmente é semelhante à dos brancos.       
Uma notícia muito boa para nós é o aumento da sobrevivência mediana mesmo nos casos  avançados: em um estudo feito em 1985-86, a sobrevivência mediana de pacientes depois da terapia anti-hormonal era de 30 meses (dois anos e meio); melhorou para 33 meses em outra pesquisa com pacientes nessa condição alguns anos mais tarde (1989 a 1994), atingindo 48 meses (quatro anos) em outro trial feito com pacientes que atingiram esse estágio de 1995 a 2009. Um ano e meio a mais de vida com um câncer num estágio considerado avançado.
Importa saber de onde veio esse benefício? Importa. Se está ligado a efeitos mais distantes do diagnóstico precoce, é um fortíssimo argumento em defesa do teste regular do PSA.
Tudo isso remete à questão: testar ou não testar? A American Society of Clinical Oncology recomenda que pessoas com uma expectativa de vida de dez anos ou mais não descartem o teste de PSA e conversem com um urólogo sobre isso. A expectativa é uma estimativa, apenas, baseada na idade do paciente e na sua condição física e de saúde.
Uma controvérsia, uma boa notícia.
GLÁUCIO SOARES          IESP/UERJ

Quanto avançamos depois do teste de PSA?

Nossas melhorias foram várias, mas pequenas: três meses a mais de vida com esse medicamento, cinco com aquele, etc. E não é tão simples como somar os benefícios e concluir que adicionamos vários anos à sobrevivência mediana.

Não obstante, se olharmos a evolução hoje em relação a que existia antes do uso generalizado do PSA, vemos que a sobrevivência hoje é ao redor de 97% dez anos depois do diagnóstico; quando eu fui diagnosticado, a meados da década de noventa, a percentagem semelhante era 50%.
Ser diagnosticado mais cedo na evolução da doença tem salvado muitas vidas e somado muitos, muitos anos de vida à maioria.
É preciso melhorar os testes, mas não podemos abolir o de PSA enquanto outros, muito melhores, não o substituírem.
GLÁUCIO SOARES            IESP/UERJ

Onde o câncer da próstata mata mais?


Há uma polêmica entre médicos e entre associações nacionais de medicina de diferentes países. Essa polêmica vinha crescendo, mas teve um incremento extraordinário com a publicação, na Grã-Bretanha, de um trabalho afirmando que uma percentagem bem elevada dos ingleses que são diagnosticados com câncer da próstata acabam morrendo deste câncer, exatamente o contrário do que afirma a medicina dominante nos Estados Unidos, segundo a qual “muitos viveriam com câncer da próstata, mas poucos morreriam dele”


Os americanos são acusados de usar e abusar dos exames de PSA e de tratarem mais pacientes do que é necessário. Com isso, provocariam efeitos secundários sérios, como uma percentagem alta de impotência, outra de incontinência (menos freqüente e duradoura) etc. Os médicos americanos da “linha dura” não querem arriscar a ter mais pacientes mortos além daqueles que não conseguem mesmo salvar.

Uma lembrança aritmética: a percentagem aumenta se aumentarmos o numerador e também aumenta se diminuirmos o denominador. Os americanos afirmam que a taxa deles é mais baixa porque tratam mais e de maneira mais radical e muito europeus dizem que isso é falacioso, que as taxas americanas são artificialmente mais baixas do que as européias porque há muitos casos que, na Europa, não entrariam na estatística dos que tinham câncer (o denominador) e que nos Estados Unidos entram. Exemplo: um idoso de mais de 75, com um PSA na área cinza e nenhum outro indicador não seria biopsiado e não entraria nas estatísticas européias; nos Estados Unidos seria biopsiado e se algum câncer fosse encontrado seria tratado e entraria nas estatísticas dos “salvos”.

Os perigos são claros:

  1. tratar quem não precisa e vai morrer de outras causas devido à idade avançada e/ou a co-morbidades (outras doenças), criando medo e ansiedade, reduzindo a qualidade da vida, desnecessariamente, ou, do outro lado,
  2. não tratar, aconselhar ao “watchful waiting”, que muitos pacientes redefinem como “não são cancerosos”, deixando de tratar e curar ou postergar a morte por muitos anos de muitos pacientes.

As estatísticas brasileiras nos dão números que geram uma taxa de mortalidade de 38%, melhor que a da Europa do Sul e a da Europa do Norte. Mas nossas estatísticas – tanto de quem tem o câncer quanto de quem morre dele – são muito, mas muito deficientes. Eu não levo em consideração as estimativas para o Brasil.

GLÁUCIO SOARES

IESP/UERJ 

Onde os pacientes morrem mais?


Há uma polêmica entre médicos e entre associações nacionais de medicina de diferentes países. Essa polêmica vinha crescendo, mas teve um incremento extraordinário com a publicação, na Grã-Bretanha, de um trabalho afirmando que uma percentagem bem elevada dos ingleses que são diagnosticados com câncer da próstata acabam morrendo deste câncer, exatamente o contrário do que afirma a medicina dominante nos Estados Unidos, segundo a qual “muitos viveriam com câncer da próstata, mas poucos morreriam dele”

Os americanos são acusados de usar e abusar dos exames de PSA e de tratarem mais pacientes do que é necessário. Com isso, provocariam efeitos secundários sérios, como uma percentagem alta de impotência, outra de incontinência (menos freqüente e duradoura) etc. Os médicos americanos da “linha dura” não querem arriscar a ter mais pacientes mortos além daqueles que não conseguem mesmo salvar.

Uma lembrança aritmética: a percentagem aumenta se aumentarmos o numerador e também aumenta se diminuirmos o denominador. Os americanos afirmam que a taxa deles é mais baixa porque tratam mais e de maneira mais radical e muito europeus dizem que isso é falacioso, que as taxas americanas são artificialmente mais baixas do que as européias porque há muitos casos que, na Europa, não entrariam na estatística dos que tinham câncer (o denominador) e que nos Estados Unidos entram. Exemplo: um idoso de mais de 75, com um PSA na área cinza e nenhum outro indicador não seria biopsiado e não entraria nas estatísticas européias; nos Estados Unidos seria biopsiado e se algum câncer fosse encontrado seria tratado e entraria nas estatísticas dos “salvos”.

Os perigos são claros:

  1. tratar quem não precisa e vai morrer de outras causas devido à idade avançada e/ou a co-morbidades (outras doenças), criando medo e ansiedade, reduzindo a qualidade da vida, desnecessariamente, ou, do outro lado,
  2. não tratar, aconselhar ao “watchful waiting”, que muitos pacientes redefinem como “não são cancerosos”, deixando de tratar e curar ou postergar a morte por muitos anos de muitos pacientes.

As estatísticas brasileiras nos dão números que geram uma taxa de mortalidade de 38%, melhor que a da Europa do Sul e a da Europa do Norte. Mas nossas estatísticas – tanto de quem tem o câncer quanto de quem morre dele – são muito, mas muito deficientes. Eu não levo em consideração as estimativas para o Brasil.


 

GLÁUCIO SOARES

IESP/UERJ