Os Paradoxos da Felicidade

Existe uma área nova de pesquisas – sobre a felicidade. Considerada uma das condições mais importantes da humanidade, a felicidade quase não era seriamente estudada – até pouco tempo. Isso mudou: Ruut Veenhoven nos apresenta uma enorme bibliografia e um bem cuidado data base.

Os americanos, e não somente eles, distinguem entre dois tipos de felicidade:

  1. Felicidade através de pessoas
  2. Felicidade  através de coisas

Creio que poderíamos acrescentar uma terceira via, a felicidade através do espírito.

Como trabalhar cientificamente com um conceito tão difícil quanto a felicidade? Não há medida exata, critérios unânimes. Mas a existência de pessoas “que têm tudo para serem felizes e não o são” mostra a importância de tratar o conceito subjetivamente. Feliz é quem se considera feliz!

A auto-definição da felicidade, que pode incluir graus (muito, bastante, pouco etc.), havendo os que tentaram medí-la de maneira mais exata, com escalas de intervalo, passou a ser o conceito operacionalizável dominante. Com base nesse conceito e em medidas baseadas nele, muitas pesquisas foram realizadas nas últimas décadas.

Economistas clássicos, neo-liberais e marxistas pensam a felicidade com alguma semelhança, a partir da riqueza e dos bens à disposição de cada um. A primazia, que não se discute, é dos fatores econômicos. As brigas são internas, um grupo contra o outro.

E os dados? O que dizem os dados? Comparando países o resultado é claro para os que usam o World Value Survey: os habitantes dos países mais ricos, na média, são mais felizes e, dentro dos países, os com mais recursos também tendem a ser mais felizes. Quando comparamos um conjunto maior de países, chegamos aos mesmos resultados: há uma correlação entre a renda per capita dos países e a satisfação com a vida, por um lado, e a auto-avaliação da felicidade, pelo outro – quanto maior a renda per capita (PPP), maior a satisfação e a felicidade –  mas as correlações não são muito altas, permitindo muitos desvios.

Há problemas para generalizar:  se, tomando o mundo como um todo, a associação é válida, há regiões nas quais a associação é nula ou quase nula. A América Latina é uma delas. Entre países latino-americanos, a Argentina, com 12,704.0, tinha a renda mais elevada na época do survey; não obstante, os argentinos avaliavam a sua felicidade abaixo de sete países com renda per capita mais baixa, inclusive a Guatemala que tinha uma renda três vezes menor.

O paradoxo é ainda maior quando consideramos o crescimento econômico recente. Tomando, de cada vez, grupos de países com níveis semelhantes de renda, os que mais tinham crescido eram os que tinham populações menos satisfeitas com a própria vida. Talvez a poupança obrigatória e outros sacrifícios necessários para crescer rapidamente onerem uma parte considerável da população.

Há tetos e há mínimos: a fome conta, na direção intuitiva. Porém, a partir de um consumo mínimo de calorias e de segurança física, doses adicionais de bens materiais não aumentam muito a felicidade das pessoas.

E a duração? Quanto dura a felicidade? Larsen e McKibban concluíram que as pessoas se acostumam com os bens materiais que possuem e que, uma vez adquiridos, eles influenciam cada vez menos a felicidade. Quem quer e adquire, é feliz por pouco tempo; quem quer e não pode adquirir continua infeliz. Evidentemente, quem não quer não é infeliz…

A avaliação da felicidade varia muito menos do que a renda per capita (PPP), o que gera alguns problemas. São escalas diferentes. A renda varia muito mais do que as avaliações dos países e da própria felicidade.

O paradoxo também se aplica a áreas específicas: os mais educados, usualmente, são os mais críticos e menos satisfeitos com a qualidade da educação no país.

A distância entre os dados objetivos e as percepções subjetivas não se limitam à felicidade:  o mesmo acontece em muitas outras áreas. Vejamos a segurança: O Uruguai, o Chile, a Costa Rica e a Argentina eram os países latino-americanos com taxas mais baixas de homicídio de acordo com a pesquisa. Não obstante, suas populações estavam entre as mais insatisfeitas com o nível de segurança, crime e violência nos seus respectivos países – mais de 60% no caso da Argentina e do Uruguai.

Há, portanto, exceções, e muitas, separando os dados “objetivos” das sensações e percepções.

Problema resolvido? Longe disso. Além das muitas exceções, há outros tipos de dados que chamam a atenção para o papel de outras variáveis. Os pesquisadores irlandeses Doherty e Kelly mostram, além de uma grande variação entre os países europeus, que os jovens se consideram mais felizes, os que estão satisfeitos com sua renda estão mais felizes (há muitos com renda alta, mas que querem mais e se consideram infelizes e há muitos com renda baixa, satisfeitos com o que têm, que se consideram felizes), o desemprego também diminui a felicidade (a despeito da proteção social em muitos países europeus). A confiança nos demais e na sociedade em que vivem aumenta a felicidade e ter crenças religiosas também aumenta a felicidade, o que coloca a felicidade individual num contexto maior, social e nacional. Mas a felicidade continua sendo em boa medida, inexplicada: apenas entre uma quinta e uma quarta parte na variância entre as pessoas está explicada. E o resto? E a maior parte da variância?

Não sabemos, e não adianta chutar.

Analisando os dados de vários anos desse mesmo survey, usando uma estratégia chamada de tree analysis, surgiram coisas novas: a saúde, tal qual avaliada pelo indivíduo, era o primeiro determinante da felicidade.  Talvez muitas das influências sobre a felicidade passem pela saúde. Os idosos, com menos saúde do que os jovens, se consideram menos felizes. Definida a saúde como variável primordial, surgem duas outras, a família e a religião, que trocam de lugar na hieraquia explicativa de acordo com a saúde.

Religião? É. A grande maioria das pesquisas concluir que os religiosos são mais felizes e enfrentam melhor as agruras da vida, mas a pesquisadora canadense Sandy L. Anger. Primeiro, concluiu que a maioria da população canadense se considera “algo feliz”, “mais ou menos feliz” – não muito feliz, nem infeliz, muito ou pouco.  Uma supresa: no Canadá, as pessoas não religiosas tendem a ser um pouco mais felizes do que as religiosas, mas os religiosos praticantes são mais felizes. Isso dificulta, mas não contradiz, a explicação baseada na endogenia: as pessoas doentes e infelizes procurariam a religião. Se aceitarmos essa explicação, teremos que aceitar que as que efetivamente se integram a uma igreja e participam mais das suas atividades
mudam o seu nível de felicidade para cima. Quem frequenta mais é mais feliz. A explicação laica para esse fato se baseia no apoio social, inter-pessoal e no combate à solidão.

O estudo da felicidade é área recente, cheia de promessas e de resultados contraditórios. Uma pesquisa patrocinada pelo BID mostra uma relação entre a avaliação que a cidadania faz do país e a avaliação que ela faz de si mesma. Essa é uma área promissora de expansão: a relação entre indivíduo e sociedade, entre indivíduo e estado. Afinal, vivemos em sociedade, gerenciados, bem ou mal, por um estado.

 Gláucio Ary Dillon Soares    IESP-UERJ

 

Se quiser saber mais sobre segurança pública, crimes e violência, visite os seguintes blogs:

http://conjunturacriminal.blogspot.com/

http://conjunturacriminal.wordpress.com/wp-admin/


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Religião e resistências ao exame do toque retal entre negros americanos

Há populações que, por razões culturais e psicológicas, se resistem a fazer esse ou aquele teste. O exame da próstata inclui um exame retal. Muitos homens preferem arriscar ter o câncer do que se submeter ao exame “do dedo”. Usualmente, atitudes conservadoras nessa área são atribuídas a fatores culturais tradicionais, inclusive à religião. Nos Estados Unidos existe a crença de que mais homens negros se negam ao exame digital retal do que os brancos. Por isso, eles têm sido alvo de pesquisas específicas.
Recentemente, uma pesquisa feita pela University of Alabama e publicado no American Journal of Men’s Health, produziu dados inesperados. Negros americanos que apresentam um comportamento religioso, ainda que não tenham crenças religiosas, tinham o dobro da probabilidade de ter feito esse exame. Os exames preventivos são particularmente importantes para a população negra nos Estados Unidos porque ela tem o dobro do risco de morrer de câncer da próstata em relação aos homens brancos. Aproximadamente duzentos homens negros foram estudados. A participação em atividades e serviços religiosas foram uma das variáveis usadas; ter uma relação com Deus ou rezar foram as crenças religiosas consideradas.
Negros que tinham comportamentos religiosos tinham uma probabilidade 1,7 vezes mais alta de ter feito o exame do toque retal no ano anterior. Os que tinham comportamentos religiosos tinham uma probabilidade sete vezes mais elevada de dizer que tinham uma consulta para fazer esse exame nos seis meses seguintes.
A significação dessas associações fica mais relevante porque nem comportamento nem crenças religiosas tinham uma associação estatisticamente significativa com fazer/não fazer um exame de PSA.

Religião e resistências ao exame do toque retal entre negros americanos

Há populações que, por razões culturais e psicológicas, se resistem a fazer esse ou aquele teste. O exame da próstata inclui um exame retal. Muitos homens preferem arriscar ter o câncer do que se submeter ao exame “do dedo”. Usualmente, atitudes conservadoras nessa área são atribuídas a fatores culturais tradicionais, inclusive à religião. Nos Estados Unidos existe a crença de que mais homens negros se negam ao exame digital retal do que os brancos. Por isso, eles têm sido alvo de pesquisas específicas.

Recentemente, uma pesquisa feita pela University of Alabama e publicado no American Journal of Men’s Health, produziu dados inesperados. Negros americanos que apresentam um comportamento religioso, ainda que não tenham crenças religiosas, tinham o dobro da probabilidade de ter feito esse exame. Os exames preventivos são particularmente importantes para a população negra nos Estados Unidos porque ela tem o dobro do risco de morrer de câncer da próstata em relação aos homens brancos. Aproximadamente duzentos homens negros foram estudados. A participação em atividades e serviços religiosas foram uma das variáveis usadas; ter uma relação com Deus ou rezar foram as crenças religiosas consideradas.

Negros que tinham comportamentos religiosos tinham uma probabilidade 1,7 vezes mais alta de ter feito o exame do toque retal no ano anterior. Os que tinham comportamentos religiosos tinham uma probabilidade sete vezes mais elevada de dizer que tinham uma consulta para fazer esse exame nos seis meses seguintes.

A significação dessas associações fica mais relevante porque nem comportamento nem crenças religiosas tinham uma associação estatisticamente significativa com fazer/não fazer um exame de PSA.

Resultados de exames e decisoes difíceis

Este ano, no dia 13 de agosto, completarei 14 anos do diagnóstico de câncer da próstata. Era avançado, Gleason 7 (4+3, que é bem pior do que 3+4) e uma perfuraçao da cápsula, mas nao era desesperador. Quatorze anos depois estou aqui, escrevendo para vocês. Como meu conhecimento era quase zero tomei algumas decisoes erradas e tive medos e receios desnecessários. Muitas ansiedades que poderiam ser evitadas com uma conversa mais demorada com o médico ou através de leitura. Por isso, passei a ler e muito sobre essa doença. Senti, em conversa com outros pacientes que sabiam pouco, tinham muitas dúvidas e, o que é pior, a comunicacao com o médico era péssima! Quem vive nos Estados Unidos tem muitas facilidades para localizar, ingressar e participar de redes de apoio, mas no nosso Brasil, na minha opiniao, fomos treinados a depender muito do estado e pouco de nós mesmos.  Com isso, somos vítimas fáceis de autoritarismos, inclusive de médicos. Por isso, criei esse blog, inspirado em outro, criado pela esposa de um paciente (depois viúva dele) de câncer avançado, chamado PSA Rising.

Cinco anos depois da prostatectomia seguida de radioterapia neo-adjuvante (logo depois), o PSA voltou. Eu nao estava curado! Entrei em nova etapa e fui aprendendo que o PSADT (o tempo que o PSA leva para dobrar) era um indicador muito importante de se e quando haveria metástase e de se (e quando) eu morrería da doença. Meu PSA dobrava cada onze meses. Mudei a dieta e o estilo de vida e o tempo foi aumentando, o que é bom. Em duas crises pessoais, o PSADT baixou, o que é ruim. Hummmmm. Ninguém me convence de que nao há relaçao entre crises existenciais, baixas no sistema imune e aumento no risco de desenvolver um câncer.

No meu nível de tratamento, os pacientes se dividem em dois grandes grupos: os que querem fazer logo a terapia hormonal e os que nao querem porque nao gostam nada dos efeitos colaterais e nao estao convencidos dos benefícios de começá-la cedo. Infelizmente, há um terceiro grupo, o maior de todos, que faz o que aquele médico manda e nao participa de decisoes que afetam sua vida e sua qualidade de vida.

O meu PSADT andou baixando nos últimos dois/três anos, o que nao é bom. Andou em mais de dois anos acima de 24 meses e baixou para 15-16 meses, mas os resultados mais recentes colocam o meu PSADT em 19 meses. Esses foram ganhos muito recentes, a partir de uma experiência linda com uma novena a Santa Terezinha do Menino Jesus. Recebi um bouquet de rosas de pessoa que trabalha em casa no meio da novena….e o PSADT que estava baixando aumentou, para 23 meses. Está em 1,9, numa série mais longa.

Decidi esperar mais antes de iniciar a terapia hormonal. Há outras razoes, sendo uma a de que tenho outros problemas de saúde, inclusive uma fibrilaçao atrial muito pesada. Talvez tenha que fazer uma ablaçao cardíaca. O tratamento hormonal äs vezes piora os problemas circulatórios. Saberei se convém ou nao fazer a ablaçao em uma semana.

É isso. Tudo o que pretendo é retomar minha vida, voltar a escrever meus artigos, fazer minhas pesquisas (uma cachaça!), orientar meus pobres alunos,  e fazer o bem e a vontade de Deus.

Esse blog é consultado por pouco mais de 300 pessoas diariamente. Atingiu mais de 500 quando surgiram as notícias sobre a abiraterona. A todas, peço uma oraçao.

um abraço

Gláucio

Cartas sobre religião

Temos um grupo pensado para trocar idéias e experiências sobre câncer de próstata, o
Cancer-de-prostata-pacientes@googlegroups.com

Minha esperança foi e é que esse grupo fosse ativo (é pouco), de ajuda-mútua. Devido à experiência única que é ter ou ter tido um câncer, muitas amizades nascem em grupos de ajuda mútua deste ou daquele câncer.
Algumas das cartas recentes tratam de religião. Eu, como moderador do grupo, tenho uma política de total liberdade a respeito da publicação de artigos com conteúdo religioso relacionado com nosso tema, o câncer.
Por que?
Porque há muita evidência empírica demonstrando que pessoas religiosas enfrentam melhor as doenças, ficam menos tempo nos hospitais, nas UTIs, tem maior sobrevivência e ficam menos doentes.
Só não aceito expressões desabonadoras sobre outras religiões, ateus, etc.
Eu sou católico, minha companheira é espírita kardecista, estou escrevendo um livro com um colega judeu e meu principal assistente é evangélico. Esse é a tolerância que gostaria de ver entre todos.
um abraço

Gláucio Soares

RELIGIÃO, CIÊNCIA E SAÚDE

RELIGIÃO, CIÊNCIA E SAÚDE


  • RELIGIÃO, CIÊNCIA E SAÚDE

             Na sala de anestesia, momentos antes da cirurgia, o Dr. Zev Wajsman, disse para mim: "Pray. It helps."Reze: ajuda!” – sem indicar nem que reza, nem como, nem que religião. Dr. Wajsman, o oncólogo das estatísticas duras, capaz de informar sem pestanejar a um paciente qual a sua probabilidade de morrer dentro de tantas semanas, meses ou anos, recomendava que rezássemos porque "ajuda". Comecei logo a pensar sobre como eu pesquisaria um possível efeito da religião e da reza sobre a saúde quando a anestesia fez efeito e tudo apagou. Parece que ajudou: afinal, estou aqui, vivo, escrevendo para vocês. Posteriormente, decidi olhar seriamente para as relações entre religião e saúde. Estudos deste tipo começam com uma revisão das pesquisas feitas.  No caminho desta revisão encontrei algumas surpresas: a primeira – positiva – há um número relativamente grande de pesquisas científicas tentando verificar qual o efeito da religião sobre a saúde. Levin e Schiller, numa revisão publicada em 1987, encontraram perto de 250 pesquisas. De lá para cá, muitas mais foram publicadas. A segunda foi negativa: logo de saída, ficou claro que o estudo científico destas relações tem dois grandes inimigos: um grupo de religiosos fanáticos, que não querem pesquisar e sim convencer, e um grupo de "cientistas", cuja rejeição à religião os tornou tão fanáticos quanto os religiosos mais fanáticos. Atrás dos dois grupos, o dogmatismo.

             A revisão das pesquisas permite uma conclusão, que se impõe: as pessoas religiosas vivem mais, adoecem menos e lidam melhor com a doença e a morte. A religiosidade, nestas pesquisas, foi medida por quatro indicadores empíricos: a filiação nominal, de menor relevância, que é a religião que as pessoas declaram ter ao preencher um formulário; a freqüência com que as pessoas participam de ritos religiosos, como a missa, vão ao templo, à mesquita, à sinagoga, ou com que rezam, comungam etc.; a auto-avaliação, que nos diz quão religiosas as pessoas se consideram, e a estrutura das crenças – na alma, em Deus ou Ser Supremo, vida eterna etc. A religiosidade, assim definida, se relaciona negativamente com a morbidade e a mortalidade. Esta relação não é específica: ela não se aplica apenas a uma doença, mas a um amplo conjunto de doenças. Um estudo de Levin e Vanderpool concluiu que grupos muito religiosos – judeus safarditas, frades beneditinos, adventistas, mórmons, monges budistas e outros – têm taxas muito baixas de hipertensão arterial e que quanto mais religiosos mais baixa a pressão. Sherrill e Larson, analisando 27 estudos dos efeitos da freqüência religiosa sobre a saúde, descobriram que 22 deles demonstraram efeitos positivos que eram estatisticamente significativos. David e Susan Larson fizeram um exame das pesquisas publicadas em dois jornais sobre o impacto da religião sobre a saúde mental: 92% demonstram benefícios; em 4% não houve efeitos significativos e em 4% houve efeitos negativos. Em 1990, Craigie e associados reviram as pesquisas sobre o impacto da religião sobre a saúde física publicados ao longo de 10 anos no Journal of Family Practice. As conclusões: 83% demonstraram efeitos benéficos; 17% não demonstraram efeitos e nenhum demonstrou efeitos negativos.

              Ainda que o grosso das pesquisas mostre o efeito positivo da religiosidade sobre a saúde, o desenho incompleto de algumas delas limita as conclusões: não se pode simplesmente supor que a maior freqüência religiosa conduz à melhor saúde. Entre as pessoas com pior saúde

             Vários estudos se concentraram na recuperação de doenças e acidentes. Um deles se concentrou em mulheres idosas com fraturas da bacia. Um Índice de Religiosidade foi correlacionado com três variáveis: a) um escore no índice de depressão inicial (correlação negativa de -0,30); b) o mesmo escore quando os pacientes tiveram alta (-0,61) e c) com o número de metros que os pacientes andaram quando tiveram alta (+0,45). As mulheres mais religiosas se sentiam menos deprimidas quando entraram no hospital do que as menos religiosas e estas diferenças aumentaram até a alta. Claro está que estes efeitos são subjetivos, se referem a como elas se sentiam. Há explicações alternativas, que a prudência científica não pode descartar: as mais religiosas seriam, simplesmente, mais otimistas, sem outras implicações ou conseqüências; as mais religiosas teriam fraturas menos graves. A primeira possibilidade não fica totalmente eliminada, mas fica consideravelmente menos provável devido ao fato de que as mais religiosas conseguiram andar mais na alta. Claro, poder-se-ia argumentar que elas andaram mais exatamente porque estavam menos deprimidas; porém, a religiosidade aumentou o número de metros caminhados depois que se eliminou o efeito da depressão. Dentro de cada nível de depressão, as religiosas caminharam mais. Este não foi um efeito que se explicaria pela menor gravidade das fraturas das mais religiosas: neutralizando o nível de gravidade das fraturas, as mais religiosas estavam menos deprimidas e caminharam mais. Evidentemente, esses estudos não provam que houve intercessão divina. Nem que não houve. Os religiosos tendem a ter hábitos mais saudáveis (fumam menos, bebem menos álcool e se drogam muito menos), o que influencia a morbimortalidade. Há muitos dados que mostram que o astral dos religiosos é melhor face à adversidade, às doenças e à possibilidade de morte. Neste sentido, os caminhos através dos quais a religiosidade afeta a saúde e os resultados clínicos não são necessariamente metafísicos. Mas, independentemente dos caminhos, os resultados estão lá.

             A relação entre religião e saúde tem implicações financeiras e políticas. Um pesquisador de renome na área médica analisou as pesquisas feitas e concluiu que se a religião fosse um remédio ou uma terapia, seria considerada como uma grande descoberta, como um grande avanço. Na pior das hipóteses, seria uma analgésico, que não cura a doença, mas acaba com o mal-estar; na melhor das hipóteses, ajuda – e muito – a curar. Há um aspecto econômico que não pode ser desprezado: a saúde é cara e a religião é fonte de economias, públicas e privadas, porque os religiosos adoecem menos e a sua permanência nos hospitais é menor. Porém, a maioria dos estados modernos separa – a meu ver, acertadamente – a Igreja do estado. Mas, se é para o bem do paciente, e as pesquisas assim o demonstram, e para reduzir os gastos com a saúde, talvez a equipe econômica devesse recomendar aos brasileiros nessa época de crise: "Rezem. Ajuda. Vocês… e a economia!".

     

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RELIGIÃO, CIÊNCIA E SAÚDE

RELIGIÃO, CIÊNCIA E SAÚDE


  • RELIGIÃO, CIÊNCIA E SAÚDE

             Na sala de anestesia, momentos antes da cirurgia, o Dr. Zev Wajsman, disse para mim: "Pray. It helps."Reze: ajuda!” – sem indicar nem que reza, nem como, nem que religião. Dr. Wajsman, o oncólogo das estatísticas duras, capaz de informar sem pestanejar a um paciente qual a sua probabilidade de morrer dentro de tantas semanas, meses ou anos, recomendava que rezássemos porque "ajuda". Comecei logo a pensar sobre como eu pesquisaria um possível efeito da religião e da reza sobre a saúde quando a anestesia fez efeito e tudo apagou. Parece que ajudou: afinal, estou aqui, vivo, escrevendo para vocês. Posteriormente, decidi olhar seriamente para as relações entre religião e saúde. Estudos deste tipo começam com uma revisão das pesquisas feitas.  No caminho desta revisão encontrei algumas surpresas: a primeira – positiva – há um número relativamente grande de pesquisas científicas tentando verificar qual o efeito da religião sobre a saúde. Levin e Schiller, numa revisão publicada em 1987, encontraram perto de 250 pesquisas. De lá para cá, muitas mais foram publicadas. A segunda foi negativa: logo de saída, ficou claro que o estudo científico destas relações tem dois grandes inimigos: um grupo de religiosos fanáticos, que não querem pesquisar e sim convencer, e um grupo de "cientistas", cuja rejeição à religião os tornou tão fanáticos quanto os religiosos mais fanáticos. Atrás dos dois grupos, o dogmatismo.

             A revisão das pesquisas permite uma conclusão, que se impõe: as pessoas religiosas vivem mais, adoecem menos e lidam melhor com a doença e a morte. A religiosidade, nestas pesquisas, foi medida por quatro indicadores empíricos: a filiação nominal, de menor relevância, que é a religião que as pessoas declaram ter ao preencher um formulário; a freqüência com que as pessoas participam de ritos religiosos, como a missa, vão ao templo, à mesquita, à sinagoga, ou com que rezam, comungam etc.; a auto-avaliação, que nos diz quão religiosas as pessoas se consideram, e a estrutura das crenças – na alma, em Deus ou Ser Supremo, vida eterna etc. A religiosidade, assim definida, se relaciona negativamente com a morbidade e a mortalidade. Esta relação não é específica: ela não se aplica apenas a uma doença, mas a um amplo conjunto de doenças. Um estudo de Levin e Vanderpool concluiu que grupos muito religiosos – judeus safarditas, frades beneditinos, adventistas, mórmons, monges budistas e outros – têm taxas muito baixas de hipertensão arterial e que quanto mais religiosos mais baixa a pressão. Sherrill e Larson, analisando 27 estudos dos efeitos da freqüência religiosa sobre a saúde, descobriram que 22 deles demonstraram efeitos positivos que eram estatisticamente significativos. David e Susan Larson fizeram um exame das pesquisas publicadas em dois jornais sobre o impacto da religião sobre a saúde mental: 92% demonstram benefícios; em 4% não houve efeitos significativos e em 4% houve efeitos negativos. Em 1990, Craigie e associados reviram as pesquisas sobre o impacto da religião sobre a saúde física publicados ao longo de 10 anos no Journal of Family Practice. As conclusões: 83% demonstraram efeitos benéficos; 17% não demonstraram efeitos e nenhum demonstrou efeitos negativos.

              Ainda que o grosso das pesquisas mostre o efeito positivo da religiosidade sobre a saúde, o desenho incompleto de algumas delas limita as conclusões: não se pode simplesmente supor que a maior freqüência religiosa conduz à melhor saúde. Entre as pessoas com pior saúde

             Vários estudos se concentraram na recuperação de doenças e acidentes. Um deles se concentrou em mulheres idosas com fraturas da bacia. Um Índice de Religiosidade foi correlacionado com três variáveis: a) um escore no índice de depressão inicial (correlação negativa de -0,30); b) o mesmo escore quando os pacientes tiveram alta (-0,61) e c) com o número de metros que os pacientes andaram quando tiveram alta (+0,45). As mulheres mais religiosas se sentiam menos deprimidas quando entraram no hospital do que as menos religiosas e estas diferenças aumentaram até a alta. Claro está que estes efeitos são subjetivos, se referem a como elas se sentiam. Há explicações alternativas, que a prudência científica não pode descartar: as mais religiosas seriam, simplesmente, mais otimistas, sem outras implicações ou conseqüências; as mais religiosas teriam fraturas menos graves. A primeira possibilidade não fica totalmente eliminada, mas fica consideravelmente menos provável devido ao fato de que as mais religiosas conseguiram andar mais na alta. Claro, poder-se-ia argumentar que elas andaram mais exatamente porque estavam menos deprimidas; porém, a religiosidade aumentou o número de metros caminhados depois que se eliminou o efeito da depressão. Dentro de cada nível de depressão, as religiosas caminharam mais. Este não foi um efeito que se explicaria pela menor gravidade das fraturas das mais religiosas: neutralizando o nível de gravidade das fraturas, as mais religiosas estavam menos deprimidas e caminharam mais. Evidentemente, esses estudos não provam que houve intercessão divina. Nem que não houve. Os religiosos tendem a ter hábitos mais saudáveis (fumam menos, bebem menos álcool e se drogam muito menos), o que influencia a morbimortalidade. Há muitos dados que mostram que o astral dos religiosos é melhor face à adversidade, às doenças e à possibilidade de morte. Neste sentido, os caminhos através dos quais a religiosidade afeta a saúde e os resultados clínicos não são necessariamente metafísicos. Mas, independentemente dos caminhos, os resultados estão lá.

             A relação entre religião e saúde tem implicações financeiras e políticas. Um pesquisador de renome na área médica analisou as pesquisas feitas e concluiu que se a religião fosse um remédio ou uma terapia, seria considerada como uma grande descoberta, como um grande avanço. Na pior das hipóteses, seria uma analgésico, que não cura a doença, mas acaba com o mal-estar; na melhor das hipóteses, ajuda – e muito – a curar. Há um aspecto econômico que não pode ser desprezado: a saúde é cara e a religião é fonte de economias, públicas e privadas, porque os religiosos adoecem menos e a sua permanência nos hospitais é menor. Porém, a maioria dos estados modernos separa – a meu ver, acertadamente – a Igreja do estado. Mas, se é para o bem do paciente, e as pesquisas assim o demonstram, e para reduzir os gastos com a saúde, talvez a equipe econômica devesse recomendar aos brasileiros nessa época de crise: "Rezem. Ajuda. Vocês… e a economia!".

     

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