Dores e dissabores depois do câncer

 

Há dimensões dolorosas e ocultas, porque pouco discutidas, do câncer. Creio que, na nossa cultura, quando a vida está em risco, as demais questões ficam pequenas ou desaparecem dos nossos pensamentos. Não é assim em todas as culturas; algumas emprestam relevância maior a questões que, diretamente, não tem a ver com vida e saúde. Não obstante, indiretamente afetam ambas.

Várias questões, impensáveis na mesa de cirurgia, são muito relevantes para os que formulam políticas públicas. Pesquisei um pouco para escrever essas linhas.

Os Estados Unidos são o país dos paradoxos no que tange a saúde. Há décadas tem uma esperança de vida ao nascer mais baixa do que seria de esperar a partir do seu produto bruto e da sua renda per capita. Está vários pontos abaixo da curva no que concerne a medicina preventiva. Em contraposição, ostenta a melhor medicina curativa do planeta e vários dos seus hospitais estão entre os dez mais conceituados do planeta para tratar muitas enfermidades e deficiências. Lidera, de longe, na pesquisa médica na maioria dos campos de aplicação.

É “feio” discutir questões financeiras na frente do paciente, particularmente quando ainda está no hospital. Não obstante, fora do ouvido dele, ou, às vezes, nem totalmente fora do ouvido dele, vários parentes, e até amigos, discutem problemas práticos que incluem o pagamento das contas, quem fica de plantão com o paciente, quem leva para casa, quem isso, quem aquilo. É nesse momento que o melhor e o pior das pessoas aflora, vem à tona.

Fora do quarto do paciente, ou ao voltar para casa, os problemas “menores”, sanitariamente mantidos à distância, passam a ser discutidos. É nesse momento que muitas fissuras aparecem na família e que muitas “famílias” mostram que não eram mais do que aglomerados de pessoas com pouco mais do que uma vinculação genética ou uma tênue vinculação legal… As doenças letais não destroem apenas os pacientes, mas destroem as famílias também, ou mostram que elas eram mais ficção do que realidade.

Nos Estados Unidos, um país que valoriza muito a responsabilidade individual, muitas das questões discutidas no corredor em outros países, não dizem respeito à família, nem ao Estado (leia-se: às pessoas que pagam impostos, direta e indiretamente, feitas responsáveis pelo que acontece com os indivíduos). São vistas, em grande parte, como responsabilidade do indivíduo.

É nessa moldura de referência cultural e institucional que penso os dados que vou apresentar.

Tomemos um câncer – o câncer do cólon e do reto. Os que sobrevivem enfrentam outros problemas depois de curados: a American Cancer Society, limitando sua análise aos jovens em condições de trabalhar, estima que os gastos médicos não cobertos e outras perdas são da ordem de US$ 8.500,00 anualmente. Além dos gastos médicos, perdem mais dias de trabalho, produzem menos no trabalho, o que se traduz numa perda de competitividade com pessoas em tudo semelhantes, mas que não tiveram câncer. Pode se refletir em maior vulnerabilidade do emprego.

Claro, há países em que tudo isso vai parar na conta do Estado que, numa população cada vez mais velha, faliu e sacrifica outros setores para atender esses gastos e vários outros associados com a doença e com sua correlata, a idade.

Surabhi Dangi-Garimella, que escreveu um artigo que me inspirou, menciona a estimativa de 18 milhões de sobreviventes de câncer em mais cinco ou seis anos, em 2022, somente nos Estados Unidos. Não sei quantos serão no Brasil, mas serão muitos e em número crescente. A American Cancer Society, mencionada acima, levantou esses problemas e calculou esses custos, publicando-os no Journal of the National Cancer Institute.

O impacto foi, como esperado, maior entre os mais jovens entre os quais há menos aposentados e mais que trabalham horários completos ou que tem, até, mais de um emprego. As consequências do câncer e os efeitos colaterais permanentes dos tratamentos, assim como a idade modal dos pacientes, faz com que os custos variem muito de câncer para câncer.

 

OS CUSTOS DO CÂNCER DEPOIS DO CÂNCER (custos anuais)

CÂNCER DO CÓLON E DO RETO

$ 8.647,00

CÂNCER DA MAMA

$ 5.119,00

CÂNCER DA PRÓSTATA

$ 3.586,00

 

O número de dias perdidos por ano também varia de câncer para câncer: no caso dos canceres coloretais 14% tiveram consequências permanentes que os impediram de trabalhar, bem mais do que os casos de câncer da mama (5%). Os sobreviventes de canceres coloretais perdem 7,2 dias de trabalho ao ano, na média; os com câncer da mama perdem 3,3 dias.

Claro está que, em países onde a responsabilidade por um indivíduo é daquele indivíduo, surge a necessidade de lidar com essas perdas. A sobre preocupação com a sobrevivência pode levar muitos a minimizar a qualidade da vida depois do câncer – não se preparam para a vida pós-câncer, não fazem seguros para as perdas que virão.

Se este artigo evitar dores e dissabores a um paciente, terá cumprido seu objetivo; se alguém se preparar para esses problemas, também. Os leitores podem alertar, no seu devido momento, pacientes, amigos e familiares sobre o fato de que o fim do câncer não significa o fim dos problemas.

Gláucio Soares  

IESP-UERJ

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Homens negros devem tomar mais cuidado com a terapia hormonal

A terapia hormonal (ADT) que aumenta sobrevivência, associada com a braquiterapia do câncer da próstata, pode aumentar o risco de morte entre homens negros, em comparação com homens brancos.

Uma pesquisa acompanhou 7.252 homens que fizeram braquiterapia com ou sem tratamento hormonal neoadjuvante. Eram pacientes com baixo risco de morte. A ADT, também chamada de terapia hormonal, reduz muito os níveis de andrógenos no corpo humano por vários caminhos, como a redução dos sinais para a sua produção. Esses pacientes receberam ADT para encolher a próstata, facilitando a braquiterapia.

Qual o problema?

Entre os negros que receberam ADT houve um aumento de 77% no risco de morte por toda e qualquer causa, e um aumento de 86% no risco de morte por outras causas, ou seja, causas diferentes do câncer da próstata.

A pesquisa foi dirigida por Konstantin A. Kovtun, do Brigham and Women’s Hospital-Dana-Farber Cancer Institute em Boston, e foi publicado pela revista Cancer, versão eletrônica.

Não encontraram diferenças entre brancos e negros em relação às mortes por câncer da próstata, nem encontraram diferenças entre as raças entre pacientes que não fizeram o tratamento hormonal.

Há algum tempo que várias pesquisas revelaram que a terapia hormonal reduz a qualidade da vida e aumenta a mortalidade por outras causas. Não obstante, a redução na mortalidade pelo câncer da próstata, segundo alguns (inclusive eu) mais do que compensa o aumento nas mortes. Além disso, pode ser uma troca que alguns fazem conscientemente: não morrer devido ao câncer da próstata (muitas mortes são por metástases ósseas, longas e dolorosas) e morrer “do coração”.

Os pacientes deste câncer, particularmente os negros, devem discutir suas opções de tratamento com os médicos. Peçam detalhes, informações sobre ganhos e perdas, custos e benefícios. Esse pedido é dirigido também a parentes e amigos porque os homens apresentam muita resistência a falar sobre esse tipo de câncer. Ajude as pessoas com câncer buscando informações confiáveis, consultando oncologistas. Você  poderá salvar uma vida; você poderá evitar muito sofrimentos dessas pessoas.

 

GLÁUCIO SOARES

IESP-UERJ

Religiosidade, espiritualidade e o bem-estar dos pacientes do câncer da próstata

Religiosidade, espiritualidade e o bem-estar dos pacientes do câncer da próstata

Há uma relevante pesquisa sobre o papel da espiritualidade num das situações mais difíceis da vida, enfrentar um câncer.[i] Nelson et al estudam a depressão em pacientes de canceres. Abrem o artigo citando a estimativa de que há no mundo mais de trezentos milhões de pessoas com depressão, mais comum entre mulheres (5% a 12%) do que em homens (2% a 3%) – dados americanos. Naquele país, uma em cada seis pessoas sofrerá de depressão na sua vida. Pior: nada menos do que 6% da população terá, pelo menos, um episódio depressivo que durará seis meses ou mais. Não é pouco. A depressão é um mal em si, baixa a qualidade da vida, mas também contribui para outros males e reduz a expectativa de vida.

Um câncer piora todas essas estatísticas. A depressão é ainda mais frequente, seus sintomas são mais pesados e duram mais. Uma estimativa coloca em 38% a prevalência de depressão séria e em 58% a dos que apresentam uma síndrome de depressão ao longo de todo o espectro dessa doença.

O câncer da próstata é o mais frequente câncer que afeta os homens, com cerca de 230 mil novos diagnósticos todos os anos. É o segundo que mais mata, atrás, apenas, do câncer do pulmão. Está associado com a depressão e perto de um terço dos pacientes recebem dos seus médicos a recomendação de fazer uma avaliação e um possível tratamento psiquiátrico. Esses dados se referem somente nos Estados Unidos.

As estatísticas brasileiras são inadequadas e o recurso a um psiquiatra muito menos comum. Sem atendimento, uma percentagem maior dos pacientes “fica sofrendo”.

O artigo de Nelson et al avança o conhecimento acadêmico, mas tem importantes implicações práticas.[1] Ao trabalhar as relações entre espiritualidade, religião e depressão entre cancerosos, abre caminho para o uso de estratégias de enfrentamento da depressão muito mais baratas, mais factíveis (há mais padres, pastores etc. do que psiquiatras) e, possivelmente, mais fácil de ser aceita pelos pacientes.

Religiosidade e espiritualidade não são a mesma coisa. A religiosidade é mais precisa, tem limites mais claros do que a espiritualidade, que é definida pelos autores como algo que ajuda a encontrar propósito, razão e significado na vida. Os autores definem a espiritualidade como mais ampla do que a religiosidade, mas relacionada com ela.[ii] Essa associação não impede que haja pessoas com alta espiritualidade, mas não religiosas, sem religião nem religiosidade, e vice-versa. Conceitos associados, mas não iguais.

Por sua vez, religião e religiosidade não são idênticas. A religiosidade é interna, subjetiva, embora possa incluir, empiricamente, medidas de participação em rituais; a religião abrange “um sistema organizado de crenças, práticas e maneiras de rezar, [adorar, seguir o culto, ] e provê um canal para orientar a expressão da espiritualidade”. Eu acrescento e enfatizo as dimensões institucionais e organizacionais desse conceito multifacetado.

Nelson et al mencionam duas pesquisas que mostram um efeito positivo da espiritualidade sobre dois tipos de pacientes terminais[iii]

Há uma importante especificação nos pacientes de câncer da próstata: usualmente são idosos e os idosos tendem a ignorar ou subutilizar os serviços relacionados com a saúde mental. Na ausência de outros recursos, cresce o potencial da espiritualidade na redução do estresse, da tristeza e da depressão.

Funciona? Há dúvidas.

Smith, McCullough e Poll fizeram uma meta-análise de 147 pesquisas, chegando a uma pequena correlação na direção esperada (r = −0,096).[iv] Comentando essa pesquisa, Nelson et al fizeram uma crítica metodológica a muitas das pesquisas analisadas por Smith et al. A medida de religião ou de religiosidade é simples demais. Segundo eles, estudos que usaram baterias mais completas de perguntas chegaram a melhores resultados em análises univariadas. Larson encontrou correlações mais altas entre religiosidade e depressão (r = −0,20), mas em análises multivariadas as correlações baixaram. Não descarto a hipótese de que boa parte dessa redução se deva à ação interveniente de algumas dessas variáveis, ou seja, a religiosidade contribui para aliviar a depressão por diversos caminhos, inclusive através dessas variáveis, como a existência e a estabilidade de um casamento.

O efeito da espiritualidade sobre a depressão parece ser mais forte do que o da religiosidade. Níveis mais altos de espiritualidade estão associados a níveis mais baixos de depressão. Parte da diferença pode resultar de mensuração mais precisa da espiritualidade. Nelson et al. em 2002 encontraram uma significativa correlação negativa (r = −0,40).[v] Os autores usaram escalas bem testadas, a FACIT, que mede o bem-estar espiritual, e a Hamilton Depression Rating Scale (HDRS).[2] A qualidade da vida é uma dimensão essencial do tratamento, inclusive paliativo, de cancerosos. Os autores usaram a FACT-G, uma extensa escala com 27 itens, tipo Likert.[vi] De 0 (nada) a 4 (muito).[vii] Além disso, os pacientes preencheram outra sub-escala, a FACT-P que trata dos sintomas do câncer e do tratamento.

Os autores levantam a possibilidade de que a relação entre religiosidade e depressão seja mediada pela espiritualidade. Como as pessoas interpretam as dificuldades da vida, inclusive doenças, influencia os seus efeitos. A espiritualidade permitiria isso. A espiritualidade provê uma benigna moldura que permitiria o auto entendimento e meios para enfrentar e lidar com situações existenciais pesadas, particularmente a morte, sem ficarem deprimidas. Algumas situações, como um câncer terminal, limitam muito as opções dos pacientes. Reitero que, nesse vácuo, cresce o potencial da espiritualidade.

Um olhar que ressurgiu vê a espiritualidade como uma ligação entre a religiosidade e a depressão. Nessa ótica, a religião e/ou a religiosidade afetaria a depressão através da espiritualidade, promovendo ou não os aspectos da espiritualidade que ajudam a reduzir a depressão. Esse senão ajudaria a explicar a inconsistência dos resultados de pesquisas relacionando religião e depressão. É uma hipótese interessante, que precisa sair do quadro negro.

Nelson et al aceitam a proposta de Allport de que a religiosidade pode assumir duas formas, intrínseca e extrínseca e defendem a ideia de que a espiritualidade também pode ser dividida em significado (ou sentido) e paz, por um lado, e fé, pelo outro. Propõem que a religiosidade intrínseca tem uma associação intima com a espiritualidade e, também, que ambas se associam negativamente à depressão. Finalmente, a espiritualidade na sua dimensão significado (ou sentido) e paz, mediaria a relação entre religiosidade e depressão.

Os dados desse artigo proveem de pesquisa com pacientes com câncer da próstata tratados no Memorial Sloan-Kettering Cancer Center em Nova Iorque, onde eu me trato. Só descobri isso agora…

Mensurações

Consistentemente com suas hipóteses, os pesquisadores usaram uma escala que distingue entre religiosidade intrínseca e extrínseca. É uma escala de doze itens em formato Likert de cinco pontos.[viii] A espiritualidade foi medida por uma escala validada de bem-estar espiritual, a FACIT.[ix] Ela inclui dois fatores que, segundo os autores, correspondem aos dois tipos de espiritualidade, a fé e a “meaning/Peace”.

E a depressão? A depressão e a ansiedade também foram medidas por uma escala, a Hospital Anxiety and Depression Scale (HADS). É uma escala conhecida, usada há mais de trinta anos.[x] Ela tem sub-escalas, ansiedade e depressão.

Essa cuidadosa pesquisa teve menos pacientes do que eu gostaria, 367, que foram divididos em duas categorias, de acordo com o avanço da doença: 45% nos estágios iniciais e 55% nos estágios avançados.[3]

Como se relacionam as escalas de religiosidade e de espiritualidade? As duas sub-escalas de religiosidade, intrínseca e extrínseca, estão associadas como demonstra o coeficiente de 0,63 (p < 0,01), como estão as sub-escalas de espiritualidade (0,47 p < 0,01). Mostra que as duas sub-escalas de cada conceito são, efetivamente, diferentes. Se aceitarmos as mensurações, não são iguais, sugerindo que cada um dos conceitos tem mais de uma dimensão. Os autores trabalharam com duas, mas pode haver outras.

Como se relacionam com o nível de depressão (medido pela escala HADS Dep) com a religiosidade e a espiritualidade? As correlações apontam na direção prevista pelos autores: as correlações com as duas sub-escalas de espiritualidade são mais altas (-0,64 e -0,35) do que com as duas sub-escalas de religiosidade (-0,23 e -0,07 – esta última não é estatisticamente significativa).

Nesse nível bivariado, as duas sub-escalas de espiritualidade, sobretudo a de “Meaning/Peace”, estão mais intimamente associadas com a depressão do que as duas de religiosidade.

Os autores submeteram essas relações e um teste mais rigoroso, multivariado. Vasculharam a literatura sobre a depressão e a ansiedade para verificar quais as variáveis que se relacionavam com elas, particularmente as de pesquisas que usaram as mesmas escalas. Quais são essas variáveis? Idade; estado civil (com ou sem parceira); variáveis associadas com o câncer da próstata (estágio inicial vs avançado), tempo transcorrido desde que o paciente foi diagnosticado, uso ou não de terapia hormonal. As variáveis psicossociais foram as duas medidas de qualidade da vida (escores nas escalas FACT-G e FACT-P) e a medida de ansiedade (escores na sub-escala da HADS).

A medida de religiosidade extrínseca ficou de fora devido à combinação dos resultados da análise bivariada e o encontrado por outras pesquisas acadêmicas. O modelo como um todo é robusto (F=50,31, p<0,01), e explica 60% da variância nos escores de depressão. A religiosidade intrínseca contribuiu para esse resultado (beta = −0,08, p = 0,03).

Na interpretação desses resultados e na sua inserção teórica, é indispensável lembrar, sempre, que eles se limitam às associações entre mensurações, usualmente em forma de escalas, dos conceitos. Se essas mensurações não expressam esses conceitos, na sua opinião, as associações encontradas não se aplicam aos conceitos. As mensurações apresentadas são definições operacionais e as associações são entre essas definições. As escalas que pretendem medir a depressão, a ansiedade, a qualidade da vida e várias outras tão pouco são as únicas, e há debates acadêmicos sobre qual mede melhor o conceito em questão. Não obstante, essas escalas foram usadas em muitos estudos e foram adequadamente validadas.

Comentários finais

As relações entre religiosidade e espiritualidade não são simples. São fenômenos associados, tanto em muitas teorias, quanto em muitos estudos empíricos que usam mensurações diferentes. Associados não significa iguais. O aumento dos trabalhos sobre esses temas mostrou, como era de esperar, uma crescente complexidade. A separação entre religião e religiosidade foi um dos primeiros passos. O trabalho teórico e empírico da religiosidade também revelou maior complexidade e dimensões – relacionadas, mas não iguais. O artigo trabalha uma separação da religiosidade em dois tipos, intrínseca e extrínseca. O coeficiente de 0,63 nos diz que cerca de 60% da sua variância é comum, mas 40% não é. Já as duas sub-escalas de espiritualidade são mais independentes: 22% da variância é comum; 78% não é, colocando-se a questão de se devemos ou não conceptualiza-las como dimensões de um mesmo fenômeno ou como dois fenômenos independentes.

Para mim, a contribuição mais importante não é a que salientam os autores e corresponde a um momento anterior da história desses conceitos. Está carregada pela dinâmica do olhar de um paciente. O bem estar dos pacientes é muito relevante e não depende, apenas, de variáveis “médicas”, diretamente relacionadas com a doença e o tratamento. A religiosidade e a espiritualidade podem ajudar a que nos sintamos melhor, a que vivamos mais felizes a despeito da doença.

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ


[1] Esse artigo é a base a partir da qual fiz um “crawling” parcial, repensando os conceitos, pensando as relações e seguindo, muito seletivamente, a bibliografia.

[2] A relação continuou significativa (beta = −0,30) num modelo multivariado que controlou a religiosidade, o número de sintomas físicos, o apoio social recebido e o nível de funcionamento do paciente.

[3] A maioria branca (89%), casada (84%) e com educação universitária completa ou mais (74%). Certamente uma amostra não representativa da população de homens americanos.


[i] Christian J. Nelson, Colleen M. Jacobson, Mark I. Weinberger, Vidhya Bhaskaran, Barry Rosenfeld, William Breitbart, e Andrew Roth, “The role of spirituality in the relationship between religiosity and depression in prostate cancer patients”, em Ann Behav Med. 2009 Oct; 38(2): 105–114. doi: 10.1007/s12160-009-9139-y

[ii] Ver Vaughan R., Wittine B. e Walsh R., “Transpersonal Psychology and the Religious Person” em Shafranske E.P., org. Religion and the Clinical Practice of Psychology. Washington D.C.: American Psychological Association; 1988. págs. 483–509 e Ellerhorst-Ryan J.M. “Measuring Aspects of Spirituality” em Frank-Stromborg M., org. Instruments for Clinical Nursing Research. Norwalk, CT: Appleton and Lange; 1988. págs. 141–149.

[iii] McClain C.S., Rosenfeld B. e Breitbart W. Effect of spiritual well-being on end-of-life despair in terminally-ill cancer patients. Lancet. 2003; 361:1603–1607, e Nelson C.J., Rosenfeld B., Breitbart W. e Galietta M., Spirituality, religion, and depression in the terminally ill. Psychosomatics. 2002;43:213–220.

[iv] Religiousness and depression: evidence for a main effect and the moderating influence of stressful life events. Psychol Bull. 2003;129:614–636.

[v] Nelson C.J., Rosenfeld B., Breitbart W. e Galietta M. Spirituality, religion, and depression in the terminally ill. Psychosomatics. 2002;43:213–220.

[vi] Cella D.F., Tulsky D.S., Gray G., Sarafian B., Linn E., Bonomi A., Silberman M., Yellen S.B., Winicour P., Brannon J., et al., The Functional Assessment of Cancer Therapy scale: development and validation of the general measure. J Clin Oncol. 1993 Mar;11(3):570-9.

[vii] Esper P.P., Mo F.F., Chodak G.G., et al. Measuring quality of life in men with prostate cancer using the functional assessment of cancer therapy-prostate instrument. Urology. 1997;50:920.

[viii] Maltby J. The internal structure of a derived, revised, and amended measure of the Religious Orientation Scale: The ‘Age-Universal’ I-E Scale-12. Social Behavior and Personality. 1999; 27:407–412.

[ix] Brady MJ, Peterman AH, Fitchett G, Mo M, Cella D. A case for including spirituality in quality of life measurement in oncology. Psychooncology. 1999; 8:417–428.

[x] Zigmond AS, Snaith RP. The hospital anxiety and depression scale. Acta Psychiatr Scand. 1983; 67:361–370.

Quantos anos viveríamos sem tratamento?

Uma das principais preocupações de pacientes de câncer é com o tempo de sobrevivência. É compreensível. Todos nós, pacientes, tomamos muitas decisões com relação ao tratamento, que afetam tanto a qualidade de vida quanto a sobrevivência, mas raramente temos a informação adequada para tomar as decisões.

Muitos pacientes com um câncer avançado atingem um nível em que o câncer não responde mais ao tratamento. Nesse momento, seu câncer recebe um nome novo: metastatic castrate-resistant prostate cancer (mCRPC), que significa que o câncer já tem metástase e não responde mais ao tratamento hormonal equivalente à castração.

Nesse momento há uma decisão a tomar: seguir com o tratamento – um número crescente de médicos sugere que sim, porque o câncer crescerá mais rapidamente sem o tratamento, mas outros aconselham o fim desse tratamento devido aos efeitos colaterais sobre a qualidade da vida. Qualquer que seja a decisão tomada nesse ponto (continuar ou não) há mais decisões: começar outro tratamento ou não. A escolha parece, mas não é óbvia: muitos pacientes acham que é muito sacrifício para pouco ganho. Infelizmente, no Brasil, temos um número que, eu suspeito, é grande, de pacientes que não sabem que há outros tratamentos e, ainda, dos que sabem da existência do tratamento mas não tem recursos para tratá-los.

Por qualquer uma dessas razões, muitos param o tratamento nesse ponto.

Quanto tempo vivem? Quais as características dos que vivem mais em relação aos que vivem menos?

Há uma pesquisa feita entre 2000 e 2005 que responde essas perguntas.

Sem tratamento, a mediana de sobrevivência foi 12,3 meses (mediana: metade viveu mais do que isso, metade menos). A variância foi muito grande: de dias até 108 meses (9 anos). 17% estavam vivos três anos depois e dois pacientes estavam vivos no fim da pesquisa.

O que se correlaciona com viver mais ou viver menos?

O nível mais baixo atingido pelo PSA  durante o tratamento hormonal é um dos indicadores mais favoráveis. Em comparação com os que não desceram abaixo de 11 μg/l durante o tratamento, os que baixaram a menos de 1 μg/l reduziram o risco de morte em 71%. Uma diferença grande. Do lado oposto, negativo, o crescimento do PSA durante o período logo depois de não baixar mais também conta: quanto mais devagar ele cresceu, mais vida, mais sobrevivência. Se ele dobrar em menos de 1,6 meses, o risco de morte é três vezes maior do que se ele dobrar em mais de três meses.

Há dois outros indicadores que também contam : se a fosfatase alcalina e a hemoglobina permanecerem em níveis normais, melhor.

Esses são os fatores que os pesquisadores noruegueses encontraram e que dizem quanto tempo alguns de nós viveremos depois de uma das decisões difíceis que temos que tomar.

Para saber mais, leia o artigo de Sven Löffeler, Harald Weedon-Fekjaer, Marte Sofie Wang-Hansen, Karin Sebakk, Hanne Hamre, Erik S Haug, Sophie D Fosså, em Scandinavian journal of urology. 2015 Jul 03 [Epub ahead of print].

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ

Cabazitaxel funciona mesmo em AR-V7-positivos

Há poucos meses foi descoberta a importância de uma variante de um receptor de andrógenos chamada (AR-V7). A presença desse receptor em células cancerosas (CTCs) circulando no paciente desestimula o uso de abiraterona e da enzalutamida, medicamentos recentes aos que recorremos nos casos de canceres muito avançados. Esses pacientes ficavam quase sem opções. Não obstante, um estudo recente mostrou que um medicamento chamado Cabazitaxel (nome comercial Jevtana, mas não sei se já chegou no Brasil) é eficaz mesmo em pacientes que são AR-V7-positivos. Uma esperança de meses a mais de vida, com qualidade melhor dessa vida.

Como foi feita a pesquisa: Quais os dados?

Todos os pacientes portavam canceres avançados que não respondiam mais à terapia hormonal, chamados de mCRPC. É uma pesquisa Fase II, com poucos pacientes, que deve preceder a pesquisa maior, Fase III. Dividiram os pacientes de acordo com o número de células cancerosas (CTCs).

O primeiro objetivo da pesquisa foi ver se havia uma associação entre o status do AR-V7 e o efeito sobre as células cancerosas (CTCs) – redução para menos de cinco em 7,5ml de sangue.

Outros objetivos eram o tempo até que a doença voltasse a avançar e a sobrevivência total.

A resposta ao cabazitaxel, segundo a pesquisa, é independente do paciente ser AR-V7-positivo, o que alivia o sufoco em que se encontravam esses pacientes – com poucas alternativas.

Converse com seu urólogo ou oncólogo.

Saiba mais: “Efficacy of Cabazitaxel in Castration-resistant Prostate Cancer Is Independent of the Presence of AR-V7 in Circulating Tumor Cells.” Em European urology. 2015 Jul 15 [Epub ahead of print].

GLÁUCIO SOARES IESP/UERJ

O TRATAMENTO COMBINADO PODE AUMENTAR MUITO A SOBREVIVENCIA

A boa notícia foi divulgada em vários informativos eletrônicos. Usei um dos que considero mais confiáveis, o WebMD.

Qual o cerne da mensagem? É que antecipar a quimioterapia, que atualmente se utiliza somente após o paciente deixa de responder à terapia hormonal, adiciona, na mediana[1], aumenta a sobrevivência em 14 meses. Esses pacientes, com metástases do câncer, receberam a quimioterapia no início da terapia hormonal. Esses pacientes foram acompanhados durante 29 meses. Os homens que só receberam terapia hormonal sobreviveram na mediana 44 meses, ao passo que os que, além da terapia hormonal, fizeram também a quimioterapia, sobreviveram 58 meses – 14 meses a mais. O pesquisador principal, Christopher Sweeney, da Harvard Medical School, aconselha os pacientes a buscar mais informações e conversar a respeito com seus médicos. Espero que sejam oncólogos ou urólogos especializados, que acompanham as notícias sobre pesquisas médicas. Segundo ele, durante mais de meio século, a terapia hormonal foi o padrão, mas adicionar a químio aumenta a sobrevivência e melhora a qualidade da vida.

Não é uma cura. Ainda não há cura para o câncer da próstata que não foi curado no início, com os tratamentos padronizados (como prostatectomia, radioterapia, etc.).

A pesquisa foi financiada pelo U.S. National Cancer Institute, e foi publicada no prestigioso New England Journal of Medicine.

O que fizeram?

Dividiram 790 pacientes com câncer em dois grupos, um que fez terapia hormonal e outro que fez as duas.

Além de viver mais, o câncer dos que receberam a terapia combinada ficou sem avançar durante mais tempo, vinte meses, em comparação com doze meses apenas, entre os que só receberam a terapia hormonal.

Há efeitos colaterais: fadiga pesada, baixa nas células brancas e aumento das infecções, entre outros.

Um dos pacientes morreu de causa desconhecida e Sweeney afirmou que ele não deveria ter recebido a terapia combinada. É muito importante saber que nem todos os pacientes podem receber a químio. Os que têm doenças renais ou no fígado devem evitá-la.

Os pacientes que mais se beneficiaram foram os que tinham um câncer mais avançado, com quatro tumores ou mais fora da próstata.

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ


[1] Ordenando os pacientes de acordo com a sobrevivência, a mediana os divide em duas metades: acima e abaixo do valor do paciente que está exatamente no meio.

AS ESTATINAS AJUDAM A PROTELAR O AVANÇO DO CÂNCER

Pesquisadores descobriram que tomar estatinas (com receita e acompanhamento médico) enquanto estiver sendo tratando com terapia hormonal aumenta o tempo até que a doença volte a avançar. O grupo está associado com o Dana-Farber Cancer Institute.

Analisaram dados relativos a 926 pacientes e relataram que os que também tomavam estatinas durante a terapia hormonal (ADT) levaram dez meses a mais até que o câncer avançasse – isso na mediana, 27,5 meses vs. 17,4 meses entre os que não tomavam estatinas.

Os pacientes receberam o tratamento hormonal devido à “volta” do PSA, ou fracasso bioquímico, ou, até mesmo, nova metástase. No laboratório, as estatinas reduziram o crescimento das células cancerosas.

 

 

GLÁUCIO SOARES      IESP-UERJ