Solidão, depressão e declínio cognitivo entre idosos

Sabemos que uma das principais preocupações que acompanham a idade avançada é a perda de capacidades cognitivas. Qual a relação entre a solidão e essa perda? A pesquisa, desta vez, foi realizada nos Estados Unidos, analisando 8.382 homens e mulheres com 65 anos ou mais que participaram do US Health and Retirement Study, de 1998 a 2010.

Cada dois anos, a solidão e a depressão foram medidas, juntamente com a memória[1], a capacidade cognitiva, além da saúde, do status socioeconômico e de características demográficas, como sexo, idade etc.

Quais foram os resultados? Os que sofriam com a solidão na primeira pesquisa tiveram um declínio mais acentuado da capacidade cognitiva durante os doze anos seguintes, mesmo controlando as demais variáveis – inclusive as redes interpessoais de amizade, família etc. Esse resultado sublinha a importância da solidão e de seus componentes subjetivos também. A depressão, seja moderada ou alta, também afeta, e muito, a capacidade cognitiva. Ao controlar a depressão, o efeito da solidão sobre o declínio cognitivo diminuiu, o que sugere que parte importante do efeito da solidão sobre a cognição se faz através da depressão.

E quem já tinha deficiências cognitivas na primeira onda da pesquisa? Essas pessoas idosas foram ficando mais e mais sós durante os doze anos de duração da pesquisa, sugerindo, na minha leitura, que as pessoas com deficiências cognitivas se isolam, por um lado, e são abandonadas, pelo outro (RR de 1,3, 95% CI (1,1-1,5) p = 0,005). Não obstante, as limitações na capacidade cognitiva que já estavam presentes no início da pesquisa não aumentam significativamente a solidão quando a depressão é controlada, sugerindo que a depressão é um fator mediador entre as duas.

Agrego observações pessoais. Quando, há quase vinte anos, juntamente com Marilia e Melina Coutinho, visitei algumas vezes uma casa para idosos em Gainesville, na Flórida, uma das reclamações era a solidão, a ausência de visitas e até mesmo telefonemas da parte de amigos e familiares, inclusive de filhos e filhas. As visitas de pessoas “de fora” bem-intencionadas causavam alegria e felicidade. Com boa vontade, temos em nossas mãos o poder de ajudar essa população segregada pelo mundo. Basta um pouco de carinho e atenção.


[1] Para medir a depressão, usaram uma escala com oito perguntas, a Center for Epidemiologic Studies Depression scale.

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