A RAIVA QUE ADOECE

 

Em algumas culturas, ser machão, não levar desaforo para casa, ser agressivo, não fugir de briga etc. são virtudes. Muitos entre elas são, ironicamente, países católicos e protestantes.

Por que ironicamente? Porque colide com o preceito “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”, cuja relevância é clara em Marcos 12:33.

Agressividade, hostilidade, raiva e ódio são conceitos difíceis de separar, com muita sobreposição. São sentimentos usualmente negativos em relação a outro ou outros. Mas, o que esses sentimentos fazem com quem os sente?

Recentemente, Don Colbert divulgou as poderosas relações entre a mente, o espírito e o corpo, em seu popular Deadly Emotions. Não foi o primeiro a fazê-lo, mas teve muita receptividade numa área acadêmica ainda cercada por muita desconfiança.[i]

Howard Kassinove é um especialista em raiva, em ódio. Suas pesquisas indicam que temos pensamentos de vingança em 25% dos casos em que sentimos raiva provocada pela ação ou inação, real ou percebida, de alguém mais. Felizmente, a ampla maioria não chega a agir. Rumina, mas não morde. Não obstante, ruminar raiva não é bom para o estomago de nossos espíritos.

A raiva tem consequências: ela se associa com elevação dos conflitos interpessoais, avaliações negativas das pessoas que lidam com @ raivos@, e aumento do risco de crimes violentos. Há outros comportamentos negativos que são mais frequentes entre pessoas reconhecidamente raivosas: dirigem mal (contra as leis) e agressivamente; uma percentagem menor se ajusta ao ambiente do trabalho; a toma de riscos desnecessários e consequente elevação da taxa de acidentes (em diversas áreas do comportamento humano); a maior prevalência e incidência de usuários de drogas, legais e ilegais, e muito mais.

Há dados demonstrando que a raiva e a hostilidade levam à maior produção e circulação de hormônios associados ao estresse, inclusive adrenalina e cortisol; também foi constatado um aumento nos batimentos cardíacos e na frequência da respiração. Há uma explosão de energia nos momentos de muita raiva, contração dos vasos sanguíneos e elevação da pressão sanguínea. Laura Kubzansky, da Harvard School of Public Health explica que momentos de raiva pequena ou moderada não são o problema e sim os momentos de extrema raiva.

Há três décadas, Booth-Kewley e sua equipe estudaram as pesquisas sobre as associações entre características psicológicas e as doenças cardiovasculares. Mostraram que a depressão, a síndrome raiva/hostilidade/agressão, assim como a ansiedade se relacionam com doenças cardíacas e circulatórias. As relações eram modestas, mas consistentes.[ii]

Foi feita uma ampla pesquisa, chamada MESA (Multi-Ethnic Study of Atherosclerosis) com 6.749 pessoas adultas, com amplo espectro de idade (45 a 84), sem problemas cardiovasculares. Com questionários e escalas validadas foram computados escores de estresse crônico, depressão, raiva e hostilidade. Acompanharam essa população durante 8,5 anos, na mediana, para verificar se tiveram derrames, isquemias, outras formas de AVC e TIAs (que alguns definem como AVCs menores e temporários). Essa pesquisa produziu vários trabalhos de interesse.

Foram constatadas associações estatisticamente significativas (em ordem, de menor para maior e mais íntima) com sintomas de depressão, estresse crônico e hostilidade (P ≤0.02). A razão de risco entre os grupos com mais sintomas e menos sintomas foi de 1,86, 1,59 no caso de estresse crônico e nada menos do que 2,22 no caso de hostilidade. As pessoas mais hostis tinham mais do dobro do risco das menos hostis. Essas associações foram constatadas depois de controlar por idade, outras características demográficas e o lugar das entrevistas.[iii]

Posteriormente, dados da mesma pesquisa foram usados para analisar as relações entre raiva (trait anger) na origem e diabete muitos anos depois. A expressão trait anger revela a preocupação dos pesquisadores em separar sentimentos ocasionais de raiva da raiva persistente, considerada como um traço de personalidade. O acompanhamento, nesse estudo, posterior ao anteriormente citado, foi feito durante mais de onze anos. Comparando os níveis alto e baixo de raiva, vemos que o nível mais alto aumenta em 50% o risco de diabete tipo II (adquirida ao longo da vida).[iv]

A medicina não convencional também adverte sobe os perigos da raiva, da hostilidade e do ódio. O Dr. Joseph Mercola, um médico “naturalista” que defende posições controvertidas (por exemplo: critica vacinas, mas defende a homeopatia), faz um conhecido trabalho de divulgação sobre temas de saúde. Ele nos adverte que a raiva aumenta o risco de dores de cabeça, problemas digestivos, insônia, ansiedade, depressão, pressão alta, ataque do coração, derrame e mais.[v]

Os males causados pela trait anger/hostilidade/agressividade não é, apenas, psicossomática, em se limita aos países anglo-saxões. Menon e sua equipe pesquisaram as relações entre hostilidade, agressividade e impulsividade e a severidade das tentativas de suicídio no sul da Índia. Estudaram 156 casos de tentativa de suicídio, aplicando a todos vários testes psicológicos.[vi] Os resultados mostram que a intenção suicida se correlacionava com a agressão verbal (Pearson r= 0.90, P= 0.030), a hostilidade (Pearson r= 0.316, P< 0.001), e a impulsividade não planejada (r= -0.174, P= 0.049). Um alto nível de hostilidade tinha uma relação íntima com o suicídio.[vii]

Porém, essa pesquisa, ao reduzir a análise a pessoas que já haviam tentado o suicídio, dificultou captar a importância dos fatores explicativos na sua totalidade. O contraste entre os que já tentaram e a população realça esses fatores. Ter tentado o suicídio é o fator que mais explica o suicídio consumado.

Na Dinamarca, uma pesquisa acompanhou um subconjunto de pessoas que haviam tentado o suicídio usando veneno durante dez anos. Nesse período, o risco de suicídio “daqueles” pacientes que tinham dado entrada no sistema hospitalar dez anos antes foi trinta vezes mais elevado do que na população como um todo.[viii] Esse longo artigo, com cerca de 60 páginas, é um manancial de informações sobre um país que conseguiu reduzir significativamente as taxas de suicídio.

Na China, outra cultura e outra pesquisa com muitos entrevistados: Zhang e associados estudaram quase 15 mil estudantes secundários nas áreas urbanas chinesas usando questionários autopreenchidos. Usaram regressões multivariadas para prever comportamentos suicidas. As frequências marginais mostram que um em cada cinco teve ideações suicidas, 9% chegaram a planeja-lo e 4% tentaram durante o ano anterior. A hostilidade e a trait anger tinham associações positivas com as ideações suicidas; em um nível mais perigoso, a hostilidade e a agressão física se relacionavam com planos suicidas, mas somente a hostilidade se relacionava com as tentativas de suicídio. Dados sobre uma cultura, um sistema político, um sistema econômico e uma combinação sui-generis entre os dois apontam na mesma direção encontrada em outras culturas. A hostilidade e conceitos associados aumentam o risco de ideações suicidas, de planos suicidas e das tentativas de suicídio.[ix]

Penso no Brasil de hoje, no nosso Brasil de hoje. Vivemos uma crise política e econômica que rachou a população em campos antagônicos. Em alguns círculos intelectuais e acadêmicos, essa rachadura política e ideológica subsumiu a racionalidade científica. Uma ampla crise ética invadiu a cultura brasileira, de alto a baixo, gerando conflitos, raiva, ódio, ressentimentos. Crimes grandes e dos grandes e, também, crimes dos pequenos. As fantasias de vingança e de justiça extrema e violenta se multiplicam. Pululam os impulsos homicidas.

Poucos encontram canais saudáveis para expressar discordância: alguns batem para fora; a maioria bate para dentro. E o Brasil adoece.

Esquecemos Mateus 5:5 “Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra”.

GLÁUCIO SOARES IESP/UERJ



[i] Deadly Emotions: Understand the Mind-Body-Spirit Connection That Can Heal or Destroy You. Paperback – May 8, 2006.

[ii] Booth-Kewley, Stephanie e Friedman, Howard S., Psychological predictors of heart disease, em Psychological Bulletin, Vol 101(3), May 1987, 343-362.http://dx.doi.org/10.1037/0033-2909.101.3.343

[iii] Everson-Rose SA, Roetker NS, Lutsey PL, Kershaw KN, Longstreth WT Jr, Sacco RL, Diez Roux AV e Alonso A. Chronic stress, depressive symptoms, anger, hostility, and risk of stroke and transient ischemic attack in the multi-ethnic study of atherosclerosis, em Stroke. 2014 Aug;45(8):2318-23. doi: 10.1161/STROKEAHA.114.004815. Epub 10 de Julho de 2014.

[iv] Abraham S, Shah NG, Diez Roux A, Hill-Briggs F, Seeman T, Szklo M, Schreiner PJ, Golden SH., Trait anger but not anxiety predicts incident type 2 diabetes: The Multi-Ethnic Study of Atherosclerosis (MESA), em Psychoneuroendocrinology. 2015 Oct;60:105-13. doi: 10.1016/j.psyneuen.2015.06.007. Epub 20 de Junho de 2015.

[v] Mais informações sobre o centro dirigido por esse médico podem ser obtidas em http://www.drmercola.com/

[vi] Beck Suicide Intent Scale, Barratt Impulsivity Scale-11, Buss-Perry Aggression Questionnaire e Past Feelings and Acts of Violence Scale.

[vii] Menon V, Sarkar S, Kattimani S, Mathan K., Do Personality Traits Such as Impulsivity and Hostility-Aggressiveness Predict Severity of Intent in Attempted Suicide? Findings From a Record Based Study in South India. Indian J Psychol Med. 2015 Oct-Dec;37(4):393-8. doi: 10.4103/0253-7176.168563.

[viii] Nordentoft M, Prevention of suicide and attempted suicide in Denmark. Epidemiological studies of suicide and intervention studies in selected risk groups, Dan Med Bull. 2007 Nov;54(4):306-69.

[ix] Ping Zhang, Robert E. Roberts, Zhuoya Liu, Xian Meng, Jie Tang, Lin Sun e Yizhen Yu, Hostility, Physical Aggression and Trait Anger as Predictors for Suicidal Behavior in Chinese Adolescents: A School-Based Study, em PLoS One. 2012; 7(2): e31044. Published online em 16 de Fevereiro de 2012.  10.1371/journal.pone.0031044.

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