Um “experimento” sueco

 

Quero dividir uns pensamentos provocados pelas leituras que venho fazendo a respeito da ausência paterna e seus efeitos. Uma das associações encontradas em muitas pesquisas em diversos países demonstra que a ausência paterna se relaciona com a pobreza das crianças. Não é uma associação estatisticamente obrigatória, de um a um, mas a ausência e/ou os maus tratos aumentam muito o risco de pobreza e de miséria. Porém, pesquisando mais, verificamos que as consequências são muito mais amplas e muito piores: algumas diretamente resultantes da miséria e outras indiretamente, através da intermediação de comportamentos, como fumar, comer errado e em excesso, e não se exercitar.

Antecipando uma objeção, que é a desigualdade social e econômica que, quando mal entendida, escamoteia a influência de fatores individuais, dei particular atenção às pesquisas realizadas em países com menor desigualdade social. Uma delas, feita na Suécia, demonstra que a pobreza econômica e social na infância e na adolescência aumenta o risco de problemas cardiovasculares na vida adulta.

A amostra utilizada por Falkstedt, Lundberg e Hemmingsson era muito grande, com alguns controles derivados da população estudada. Eram quase 50 mil homens (sexo controlado), nascidos de 1949 a 1951 (idade controlada), que fizeram o serviço militar na faixa de 18 e 20 anos, o que elimina alguns casos de deficiência física, inclusive cardiovascular.

Os dados só poderiam ser coletados em um país com um sistema estatístico tão aperfeiçoado quanto o sueco. O número de registro de cada um, o dado ao nascer, o mesmo em todos os registros, permitiu o acesso a informações médicas muito tempo depois – duas e três décadas depois. A incidência de problemas cardiovasculares quando eles tinham entre 40 e 58 anos de idade foi obtida dos registros médicos. Foram incluídos outros dados que, em muitos estudos, estão associados com a miséria e o abandono e/ou mal trato na infância e na adolescência: sobre a aptidão cognitiva, que é muito afetada, se era fumante ou não, o BMI (Body Mass Index) e a altura. A análise mostrou que todos contam.

Os resultados mostram que há uma associação entre o status socioeconômico na infância e na adolescência e o risco de problemas cardiovasculares duas e três décadas mais tarde. A razão de risco é de 1,47 (95% CI = 1.30-1.67). Quase cinquenta por cento mais alta.

Os controles usados pelos pesquisadores sugerem (para mim) alguns dos caminhos que levaram a essa associação: moradia com muitas pessoas , hábitos negativos, também associados com a pobreza e a miséria, como o fumo e o BMI alto (em muitos países com renda alta a obesidade é maior nas faixas mais baixas de renda), e o desenvolvimento cognitivo deficiente, que está claramente associado com a miséria e a ausência física ou psicológica dos pais, parecem ser alguns dos caminhos, pois quando controlaram esses fatores, a razão de risco ficou mais baixa.

Isso, na Suécia…

Esses estudos – e incontáveis outros – sugerem que o combate à miséria, mal social muito maior e pior no Brasil do que na Suécia, deve ser uma prioridade nacional. Sugerem, também, que há outras intervenções políticas e sociais que são necessárias, como as campanhas cívicas contra o fumo, por melhores hábitos alimentares, e muito mais. Juntando essa pesquisa com muitas outras sobre a relação das crianças e adolescentes com os pais, vemos que uma política eficaz tem que ser multidimensional e seguir muitos caminhos. Reduzir a pobreza e a miséria ajuda muito, mas não é suficiente.

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ

LEIA MAIS: Childhood socio-economic position and risk of coronary heart disease in middle age: a study of 49,321 male conscripts. Eur J Public Health. 2011 Dec;21(6):713-8.

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