Um estranho aniversário

Escrito em 16 de agosto de 2015

Hoje é o aniversário de vinte anos desde o dia em que recebi o diagnóstico de câncer. O câncer, infelizmente, vai bem obrigado. Seus marcadores sumiram, durante alguns anos, mas reapareceram. Vinte anos mais tarde, estão presentes.
Mas eu continuo vivo.
Quando, em 1995, telefonei para saber os resultados, esperava ouvir da enfermeira o mesmo que ouvira das duas vezes anteriores “Negative. You don’t have cancer.” Desta vez ela pediu para esperar – iria chamar o urólogo de plantão. Era a pista sobre o diagnóstico que viria e veio. O médico me disse, com certa dificuldade, que haviam encontrado um adenocarcinoma. Perguntei qual o Gleason e fiquei preocupado quando me disse 3+3. Depois descobri que era um resultado comum, mas a patologia revelou que os resultados eram piores, 4+3.
Eu estava estranhamente calmo. Em alguns minutos senti que precisava dividir a informação com alguém. Sai do meu escritório em 364 Grinter Hall e entrei no de Helen Safa, ao lado. Sentei e disse: “I have cancer”. Ela ficou muito mais agitada e preocupada do que eu. Mas eu queria alguém próximo para dividir o momento, ainda que em silêncio. Não havia mais essa pessoa “próxima” na minha vida naquele momento. Telefonei para meu filho Alexei, biólogo, que hoje pesquisa no Brookhaven National Laboratory. Fiz muitas perguntas: uma delas me preocupava sobremaneira. “Filho: se eu transar com minha namorada, ela pode pegar o câncer? ” Alexei, fleumático, respondeu: “Papi, se ela pegar, entrará para a História da Medicina. Será a primeira mulher com câncer da próstata”. Hoje, eu ainda acho graça, mas minha pergunta revelava a profundidade da minha ignorância.
Eu ia morrer, era tudo o que sabia. Comecei a pensar em como colocar a bagunça da minha vida em ordem, em preparação para a morte. Eram muitas coisas. Testamento; a compreensiva preocupação com destinar o produto do meu trabalho a quem eu queria e não para pagar burocratas e muito mais.
Eram tantas as perguntas e tão poucas as respostas… Me dei conta da minha ignorância. E fiz a pergunta, continuamente aperfeiçoada: “se eu, professor universitário, estou perdido porque sou ignorante a respeito da doença que vai me matar, quão perdido está o brasileiro comum, quase analfabeto? ” Ao fazer essa pergunta, eu me comprometi com prestar um serviço público: aprender a respeito do câncer e divulgar tudo, trocado em compreensíveis miúdos, a um público muito maior. Li o que podia, me correspondi com a esposa de um paciente em estado avançado que publicava um excelente blog chamado PSA Rising, com a qual mantenho contato até hoje, subscrevi os materiais de divulgação pela internet, identifiquei os sites úteis, aprendi a fazer buscas em sites médicos, sobretudo PubMed e fui aprendendo. Como bom paciente, buscava os milagres da medicina. Havia coisas mais eficientes e importantes, como dieta, exercícios e meditação, mas eu não sabia. Uns dois anos mais tarde conheci uma bióloga de formação, socióloga de pós-graduação, que estagiava nos EUA. Cognitivamente, me ajudou mais do que ninguém. Poucos anos depois disso descobri era possível criar e manter um tal de blog, e comecei uma atividade que consumia muito tempo, de preparar notícias para pacientes em língua portuguesa. Queria que as pessoas que sofriam por ignorância, sofressem menos e conhecessem mais. Queria que soubessem que a taxa de sobrevivência em 5, 10 e 15 anos aumentava (para todos os cânceres) 1% ao ano. Recebi perguntas e agradecimentos. Virou missão. Deram certo: mais de um milhão e trezentos mil acessos, somando o Blogger e o WordPress.
Essa missão é o que me impele a escrever, hoje, para você. Ajude e informe outros pacientes de câncer. Há muitos pacientes que pioram tudo porque não cooperam, entram numa depressão e se trancam, às vezes agressivamente, esperando a morte. Podem ter alguns ou até muitos anos de vida e não sabem. E porque não sabem, não vivem esses anos. Já estão mortos. Só falta o atestado de óbito.
É fácil ajudar. Com algum esforço, todos podemos ajudar muitas pessoas. Somos agentes do Bem. Se conhece pacientes desse câncer que estão perdidos, perguntem se querem falar comigo. Por e-mail, pelo telefone ou pessoalmente. Podem adiantar que eu também tive e tenho medo, que perdi anos da minha vida com um TOC a respeito de outros canceres, mas que poucas sessões de terapia cognitivo-comportamental me devolveram a vida, diga também que viajo, leio, estudo, escrevo, pesquiso, dou aulas e muito mais. Diga que eu tinha dito adeus a tudo isso. Não era necessário. E que redescobri um precioso e infinito mundo do espírito, que havia abandonado muito antes do câncer.
Ajude todo e qualquer paciente, não só amigos e parentes. Estão mergulhados no esgoto escuro do medo e da ignorância, mas o seu braço, o de quem me lê, é muito mais forte do que você crê. Puxe um para fora da escuridão, traga-o de volta para a vida. Há vida, vida linda, a despeito do câncer.
Obrigado por eles, por mim

 

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