Felicidade através de coisas?

Penso nos valores do Brasil de hoje. Há quinze anos, Robert Lane, um conhecido cientista político, publicou um livro instigante no qual afirmava que as economias de mercado, mesmo as democráticas, não aumentaram significativamente a felicidade das suas populações. Lane afirmava que havia evidência de que as depressões clinicas estavam crescendo nas sociedades economicamente avançadas, tendência que seria confirmada pelo aumento da percentagem de pessoas que se consideram infelizes. Como Lane usa dados sobre diagnósticos de depressão, surge a pergunta sobre se há, efetivamente, um número maior de deprimidos, ou se a prosperidade e as mudanças nos valores permitem que uma percentagem mais alta dos deprimidos busque auxilio e tratamento. 
Esses dados se chocam com a filosofia utilitarista, explícita ou não, de muitos países, que buscam a maior felicidade possível para o maior número possível (de pessoas). Essa influente postura filosófica, segundo Lane, derrotou seus próprios objetivos, porque há uma crescente proporção de pessoas insatisfeitas com suas vidas. 
Lane analisa a felicidade de muitas perspectivas disciplinares, argumenta e apresenta dados que substanciam dois pontos fundamentais de seu pensar:
1. Nas economias avançadas, as principais fontes de bem-estar são uma vida familiar gratificante e amigos. São variáveis humanas, que se enquadram no conceito que adoto e amplio, o da felicidade através de gente e não de coisas.
2. Não obstante, Lane sabe que a miséria é fonte de infelicidade, mas analisa dados que demonstram que, acima da linha de pobreza, níveis cada vez mais altos de renda trazem pouco ou nenhum aumento no nível de felicidade tal qual declarado pelos entrevistados. 
Em verdade, Lane vê um efeito negativo da prosperidade sobre a família, reduzindo a solidariedade entre seus membros, e sobre a comunidade, que se torna cada vez mais atomizada, com crescente desconfiança das pessoas – nas pessoas e nas instituições políticas. 
No mesmo ano, Putnam publicou um artigo, Bowling Alone: America’s Declining Social Capital, no qual enfatizava o crescente isolamento pessoal dos americanos, em contraste com o crescente papel da televisão e das comunicações indiretas. Cinco anos depois, Putnam lançou seu conhecido livro, Bowling Alone: The Collapse and Revival of American Community. Como diferente de Lane, Putnam usa o esfarelamento da sociedade americana para explicar o enfraquecimento da democracia.
Esse é um tema sobre o qual há dados brasileiros e o que eles revelam é que os brasileiros confiam menos nos outros brasileiros do que os cidadãos de outros países latino-americanos. Os dados mostram que, na percepção do povo brasileiro, a crise ética e moral não é, apenas, dos nossos políticos: é do nosso país, é de todos nós, e se revela nos dados sobre a confiança interpessoal. Somente um em cada dezoito brasileiros confia nos demais. A metade do nível uruguaio, perto de um terço do argentino. Percentualmente, para cada brasileiro que confia nos seus compatriotas, há sete americanos que confiam nos deles. É o resultado da Lei de Gerson, em sua versão mais individualista, egoísta e hedonista. A lei do “vivo”, seguindo a diretriz, o princípio de “se dar bem”. 
Como construir uma sociedade e uma polis onde ninguém confia em ninguém? Inglehart, em 1989, concluiu que a confiança se correlaciona positivamente com o PIB e com a democracia. Para ele, a confiança alavanca a democracia e o desenvolvimento econômico. Müller e Seligson, em 1994, defenderam a causalidade oposta: a democracia e o nível de vida explicariam a confiança. A possibilidade de endogenia é clara e é difícil saber o que causa o quê, sendo a influência recíproca uma hipótese plausível. É a minha.
O glossário da mídia sugere quanto nos afundamos nesse caminho. Estamos muito mais preocupados com a crise econômica do que com a crise ética e a interpessoal. O que mais me preocupa é que atribuímos os problemas à lógica do capitalismo, sem mencionar que, para triunfar, ele requer que busquemos a felicidade através das coisas e não das pessoas ou do espirito, a devoção ao dinheiro e ao consumo, atropelando os demais se necessário. Para jogar com palavras, me preocupo menos com o espírito do capitalismo e mais com o capitalismo do espírito.

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