O fator Marina: novo ou velho?

 

Esse é um artigo baseado em pesquisas publicadas. As leituras dos primeiros resultados posteriores à morte de Eduardo Campos, enfatizam que as percentagens das intenções de voto dadas a Dilma e Aécio continuam iguais às das pesquisas com metodologias semelhantes realizadas pouco antes da tragédia. De onde veio o crescimento de Marina em adição às intenções de Eduardo Campos? Essas análises concluem que Marina mobilizou parte dos indecisos, dos que não prendiam votar etc. Os “nulos e brancos” 13%, baixaram a 8%. Cinco por cento que, possivelmente, foram para Marina. Esses não queriam votar em nenhum dos três candidatos anteriores. Os indecisos eram 14% e baixaram para 9%: mais 5% que também para Marina. Não sabiam em quem votar, nem se votariam. Agora sabem, chegando a dez por cento.

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Mesmo assim, o crescimento de Marina em relação a Eduardo Campos foi maior. Faltam alguns pontos percentuais. Se olharmos as intenções de voto para os demais candidatos, pequenos e nanicos, encontraremos transferências prováveis para Marina. Só então as contas fecham.

Votos positivos e negativos

Há votos negativos. Os insatisfeitos com “isto que está aí (os 12 anos do PT) não votariam em Dilma em hipótese alguma, E os insatisfeitos com os oito anos que estiveram lá (PSDB) tampouco votariam em Aécio. É interessante que Marina não alterou as percentagens dos inclinados a votar em Dilma e em Aécio – a menos que tenhamos tido movimentos compensatórios de votos: tanto Dilma quanto Aécio teriam perdido parte dos votos de um lado, mas recebido votos de outros lados na exata proporção. Algum transito de votos desse tipo se dá, mas a igualdade das percentagens desses dois candidatos conspira contra a teoria desses movimentos que se anularam. O segundo turno revela que o peso do voto “qualquer um, menos do PT” é menor do que o do voto “qualquer um menos do PSDB” Aécio transfere mais para Marina do que vice-versa, o que explica o maior crescimento de Marina no segundo turno. Essa transferência se faz ainda que a rejeição a Dilma seja maior do que a Aécio.

Intenções de Voto em Abril e em Agosto

A percentagem recebida por Marina nessa pesquisa não deveria surpreender porque não é novidade: há poucos meses, em abril, antes da Copa, com os candidatos induzidos (os entrevistadores liam o nome dos candidatos), Dilma aparecia com 39%, Marina tinha 27%, e Aécio ficava com 16%. Houve oscilações durante essa queda e os ganhos de Aécio, significativos inicialmente, pararam depois.

De lá para cá Dilma caiu três pontos e Aécio subiu quatro, mas estagnou. Marina recebia, proporcionalmente, mais intenções de voto em Abril do que em Agosto: 27% contra 21%. Sem outras alterações de qualquer tipo, poderá avançar vários pontos ainda no primeiro turno. Na pesquisa pós-Eduardo, Marina recebeu seis pontos a menos do que quatro meses antes. Não houve um forte “efeito da morte de Eduardo” favorável a Marina: ela tinha mais intenções de voto em Abril. Para que esse efeito, no qual tantos acreditamos, tenha existido é necessário supor que houve uma queda de Marina depois de Abril, no período posterior à pesquisa de Abril e anterior à morte de Eduardo. Se houve, não há como saber.

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E o segundo turno?

Antes das eleições, toda estimativa é futurologia e nada mais do que isso. Aqui vai o que leio – até agora – e a história não para! O dado mais importante é o maior crescimento de Marina em relação ao de Aécio do primeiro para o segundo turno. Marina receberia 47% dos votos validos e Aécio apenas 39%. Há sete pontos a mais de diferença. Claramente, Aécio transferiria mais votos para Marina do que vice-versa. Acredito (meu chute) que ainda há votos entre os demais candidatos, pequenos e nanicos, que migrarão, ainda este turno, para os que podem vencer. Quantos ninguém sabe – é o voto útil. Talvez seja possível reduzir os votos nulos e em branco e que alguns indecisos se decidam. Essas intenções de voto perfazem 23% do total; em Abril atingiam apenas 18%.

O que diz a história?

Porém, as três últimas eleições não aconselham interpretações extremas do que acontecerá com os votos nulos, em branco e as abstenções no segundo turno. Somados, eles significam 27% dos que podiam votar em 2002, 26,7% em 2006 e 26,5% em 2010 – eleição da qual Marina participou. É um patamar histórico, que se mantem. Ou teremos uma brecha na tendência histórica, ou talvez 5% ou mais dos que declararam intenção de voto na pesquisa não votarão em Outubro.

Situação Sartreana. Aécio precisa preservar Marina e vice-versa para que haja segundo turno. Neste, para vencer, Aécio precisaria de uma transferência muito maior de votos de Marina do que as pesquisas indicam que receberia nesse momento. Dilma já deve ter percebido que Aécio dificilmente a derrotará, seja no primeiro, seja no segundo turno, e terá que girar os canhões para paralisar Marina no primeiro turno. Isso facilita o trabalho de Aécio, que pode atacar Dilma e preservar Marina, Aécio evitará críticas pesadas a Marina concentrando-as em Dilma. Dados os antagonismos entre PT e PSDB (lembro com tristeza que, petistas e tucanos que hoje se odeiam lutaram juntos contra a ditadura, pelo MDB). Hoje, há rancores, rivalidades e ódios profundos, e as mudanças de votos de um para outro serão poucas.

O fogo amigo

A análise regional mostra uma importante debilidade de Aécio. Na sua região, o Sudeste, receberia (sempre de acordo com a pesquisa) menos do que Dilma (29% contra 24%), com Marina recebendo outros 22%. É a região com mais votos no país. Considerando que Aécio foi governador de Minas, elegeu o sucessor, que está disparado na corrida para o Senado, por um lado, e que, em São Paulo, Alkmin tem metade das intenções de voto e que Serra está na frente na disputa da carreira de senador, as intenções de voto para Aécio são muito abaixo do que seria de esperar. Para explicar essa diferença entre o que poderia (deveria?) receber e o que está recebendo, recorro a duas explicações: o PSDB, o grande adversário do PT, é um partido de forte predomínio paulista. Seus seis candidatos anteriores foram todos paulistas: Covas, FHC duas vezes, Alkmin, Serra dias vezes. O PSDB pensa paulista e o Brasil é muito mais do que isso. É um possível elemento na análise.

O paulistismo do PSDB foi exacerbado por um colossal erro de cálculo de Aécio: não arregaçou as mangas pelos companheiros paulistas em duas eleições anteriores. Dilma derrotou Serra 58% vs 42%, no segundo turno em Minas, a mesma diferença percentual do primeiro turno, 16 (47% vs 31%). Enquanto isso, Anastasia foi eleito governador com 63% dos votos, sendo sua votação mais do que o dobro da de Serra no mesmo estado. Vitimados por Aécio e Anastasia, será difícil que Alkmin e Serra arregacem as mangas por seu correligionário mineiro. O fogo amigo mata! Como São Paulo é o maior colégio eleitoral do Brasil, a retribuição da displicência poderá ser a diferença entre a eleição e a não eleição. Graças à intervenção de Lula, Dilma deixou de ser vítima de fogo amigo. O movimento “Volta Lula” a colocou como candidata e cidadã de segunda categoria dentro daquela tendência.

Marina poderá fortalecer a sua influência se ouvir os conselhos dos políticos mais analíticos, mas também

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poderá despertar apoio de grupos que fornecem muitos ativistas como, crescentemente, os evangélicos. Se não antagonizarem outros grupos religiosos e ideológicos, tudo bem; se o fizeram darão base e espaço para movimentos contrários numerosos.

Há uma importante mudança institucional no segundo turno que poderá prejudicar Dilma: no primeiro, ela disporá de, arredondando, doze minutos de tempo no rádio e na TV, ao passo que Aécio disporá quatro minutos e meio e Marina de menos de dois minutos. O jornal Zero Hora calculou que Dilma Rousseff terá praticamente o triplo de Aécio Neves (PSDB) e 6,5 vezes mais do que Eduardo Campos (PSB), agora substituído por Marina. “Serão quase 12 minutos, o equivalente a 47,2% de cada bloco reservado aos presidenciáveis” afirma o jornal. A personalidade, a presidenciabilidade – e outros fatores – dos candidatos aparecem nessas oportunidades, mas apenas nas entrelinhas deixadas pelos marqueteiros, usualmente profissionais muito competentes. O maior tempo favorece, mas não determina, que vencerá e quem perderá. Lula, nas duas eleições que ganhou, teve menos tempo do que seus adversários tucanos, ainda segundo o Zero Hora.

Há uma importante diferença no segundo turno, porque os tempos são iguais para os dois candidatos. Essa diferença pode significar mudanças, para mais e para menos, na votação dos candidatos. Quem ganha e quem perde? Só a bola de cristal sabe dizer.

 

Gláucio Soares IESP-UERJ

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