Tratamentos do câncer da próstata (conversa)

Enviado em 16/06/2014 as 9:41 pm

Boa noite Glaucio,acompanho seu blog já algum tempo, mas apesar de ter lido todas as suas postagens durante todo esse tempo, uma dúvida não me foi esclarecida, dúvida esta que tenho sempre e não consigo saná-la com ninguém.. talvez você possa me ajudar: já entendi que o tratamento do cancer de próstata passa por diversas etapas, (falo especialmente no caso do indivíduo que não foi castrado). Faz-se radio, depois hormônio terapia e depois quimio. Minha dúvida é: o que vem após a quimio?
Eu sei que isso deve variar muito conforme o paciente, mas você consegue me dizer se existe um período máximo para realização de quimio? Meu pai faz há 1 ano, eu sempre digo a ele que isso vai passar, que será por 2 anos apenas, mas não sei mesmo quanto tempo. Uma vez ele perguntou entre os dentes à médica e ele entendeu que seria “enquanto ele sobrevivesse”. Será isso? Sabe me ajudar?
Mais uma vez agradeço sua atenção.

Quanto à Irene, sua amiga de longa data, farei minha oração para que sua família seja confortada.

Deus abençoe você também.

Obrigada por toda ajuda sempre!


Rose: começo, previsivelmente, com o conselho de buscar mais de uma opinião qualificada, de urólogos e oncólogos – a minha não conta, pois não é de médico e sim de paciente. Outra sugestão: te oriento a melhorar a informação recebida dos médicos de teu pai. Leva um caderninho, laptop, ou algo mais onde possas registrar o que te diz o médico, pensando, compilando e levando uma lista de perguntas e de informações sobre o paciente. Tendo enfatizado essas precauções, te transmito o que li e assimilei. Vejo o processo como constituído por uma série de decisões em níveis cada vez mais focados.

A primeira é tratar/não tratar. É uma polêmica atualíssima em função das decisões tomadas por um comitê do governo americano do qual não participou um só biólogo, que recomendou não incluir os testes de PSA nos cobertos pela Medicare, exceto quando há condições que aumentam o risco de um câncer agressivo, como um histórico de câncer na família. Deixaram de subsidiar um teste anual após os 50. Do lado positivo, a medida é econômica, mas não muito: o PSA é um teste barato, também evita as biópsias desnecessárias, que são caras e aumentam a ansiedade dos pacientes, afastam também os riscos de infecção. Há tratamentos que poderiam ser evitados, mas que aumentam modestamente o risco de uma situação mais grave no futuro. Essa decisão deve ser do paciente, aconselhado pelos médicos. 

Os que decidem se tratar nesse momento, usualmente o fazem com objetivo e esperança de cura (with curative intent). Há vários tratamentos radiativos, diferentes modalidades cirúrgicas (sendo a retropúbica com preservação de nervos a mais popular hoje em dia), o implante de sementes radioativas, HIFU e outras. Pelo que li, com muita produção contraditória, a prostatectomia radical é a que mais reduz o risco de morte específico – deste câncer. É um tratamento muito invasivo que usualmente deixa pesadas sequelas (incontinência, ainda que temporária; impotência em muitos casos e mais). Alguns cirurgiões checam primeiro os nódulos linfáticos e, caso estejam contaminados, não retiram a próstata; outros retiram mesmo assim, sem ter garantia de cura porque acreditam que o procedimento aumenta a sobrevivência. Além disso, numa última tentativa de cura, podem recomendar a irradiação da área (meu caso), na esperança de ainda conseguir a cura. Recebe o nome de “salvage radiation”. Após cirurgia e/ou radiação, o PSA deve tornar-se indetectável. Porém, o equipamento para detecção melhorou, e o que era indetectável há dez anos é facilmente detectável hoje. Quando comecei essa caminhada recomendavam 0,1 ou 0,2 ng/ml. Hoje, no Sloan Kettering, usam 0,05 e aqui no Brasil alguns laboratórios usam 0,003 e até menos. O PSA pode não desaparecer e outros tratamentos entram em consideração, ou pode desaparecer e reaparecer. Há pesquisas que mostram que quanto mais tempo o PSA levar até “voltar” a ser detectável, melhor. Após a volta do PSA o comum é fazer um acompanhamento e usar cálculos sobre esse marcador (velocidade do PSA, PSADT etc.) para decidir se iniciar a terapia hormonal ou não. O que li mostra um pequeno ganho marginal em iniciá-la cedo. Há várias terapias hormonais e todas têm efeitos colaterais. A mais usada nos Estados Unidos é o acetato de luprolídeo (Lupron), que pode ser dado na forma de depósito, com uma injeção cada 3, 4 ou 6 meses. É caríssima. Sem seguro, o paciente pagará perto de seis mil dólares por injeção. Pode ser contínuo ou intermitente. A maioria dos médicos – e dos pacientes também – aqui e lá preferem a forma intermitente porque dá uma aliviada nos efeitos colaterais.

Mais cedo ou mais tarde os tratamentos hormonais perdem seu efeito e o câncer volta a avançar. Esse período varia muito, entre alguns meses e vários anos. É possível usar outros tratamentos anti-hormonais de segunda e de terceira linhas, como preconiza Snuffy Meyers. A químio vinha depois e o ingrediente tradicional é o taxotere. Um estudo recente pode, se confirmado por outros, mudar a prática clínica, porque mostrou um ganho de um ano na sobrevivência geral quando o taxotere é usado cedo, junto com o início do tratamento hormonal. Porém, há boas notícias que confundem muito a ordem dos tratamentos. Nos últimos anos passaram a ser usados outros medicamentos como o Provenge (também caríssimo, perto de 90 mil dólares por tratamento) que estimula e usa o sistema imune treinando suas células para depois recolocá-las no corpo dos pacientes, a abiraterona, a enzalutamida e alguns mais. A ordem desses tratamentos ainda não está bem pesquisada, entre outras razões porque ela precisa averiguar a sobrevivência de longo prazo o que requer um acompanhamento de longo prazo até produzir conhecimento válido. Taxotere é a químio mais usada, mas há outras além do Docetaxel (Taxotere®): Cabazitaxel (Jevtana®); Mitoxantrone (Novantrone®); Estramustine (Emcyt®); Doxorubicin (Adriamycin®); Etoposide (VP-16); Vinblastine (Velban®); Paclitaxel (Taxol®); Carboplatin (Paraplatin®); Vinorelbine (Navelbine®).

Usualmente, a primeira a ser usada é a docetaxel, quase sempre com prednisona. Quando já não funciona, entram outras e a mais usada nos Estados Unidos é cabazitaxel. Há dados mostrando que elas aumentam a sobrevivência, mas seus efeitos e duração variam muito entre os pacientes de maneira que medidas de tendência centrao (média, mediana) perdem utilidade. É raro algum médico afirmar que conseguiu curar pacientes com esses medicamentos. O mais comum é que reduzam o crescimento do câncer e melhorem a qualidade de vida, durante um tempo limitado – alguns meses a poucos anos.

Com relação à duração do tratamento, há um problema ético no país que me preocupa. Às vezes, médicos e familiares se outorgam o direito de não informar totalmente o paciente. Em muitos países o conhecimento é um direito inalienável do paciente, independentemente dos seus efeitos. Aqui muitos decidem bancar Deus, determinando o que o paciente deve e não deve saber.

Espero ter ajudado.


Gláucio Soares

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s