CÃES CONTRA O CÂNCER

Voltamos ao tema: como cães podem ajudar a detectar o câncer da próstata. Os “melhores amigos do homem” provam, mais uma vez, sua acuidade. McCulloch e associados analisaram a acuidade de cães na detecção de canceres da mama e do pulmão, no início e em canceres mais avançados também.[1] Mais importante, mas com seus perigos: cães comuns, como o seu ou o do vizinho, podem ser treinados para chegar a um alto nível de precisão na detecção de canceres (e de outros cheiros…). Os autores treinaram cinco cães domésticos, comuns, para detectar canceres. Os animais também foram treinados a expressar comportamentalmente o que cheiraram. Quando o resultado foi positivo (detectavam câncer na amostra da urina), sentavam ou deitavam em frente do recipiente; quando não, passavam para o próximo. Os cães foram treinados em três etapas, cada uma mais exigente do que a anterior. Através de gratificação diferencial (gratificação quando acertavam, ausência de gratificação quando erravam), foram desenvolvendo a associação entre o que detectavam através do cheiro e a gratificação. Usaram amostras do ar expirado de 55 pacientes com câncer do pulmão, 31 com câncer da mama e 83 controles. Um cuidado óbvio foi ter apenas uma amostra por pessoa. Em contraste, a análise química do ar expelido pelas mesmas pessoas foi reprovada no teste. Cães 1×0 Análise Química!

A sensitividade e a especificidade foram altíssimas, 0,99 nos dois casos, na análise do câncer do pulmão, e 0,88 e 0,98 na análise do câncer da mama. Ambos canceres são corriqueiramente classificados em quatro estágios e os cães identificaram o câncer da mesma maneira, independentemente do estágio. Ah, sim: o que é sensitividade? Simples: a percentagem de cancerosos corretamente identificada. A fórmula também é simples: é só dividir os positivos corretos pelo total (que inclui positivos corretos mais os falsos negativos). A especificidade é o mesmo raciocínio aplicado aos erros, aos negativos. Numa especificidade perfeita todos os negativos e nenhum falso positivo são identificados. Há dois erros: não identificar o câncer quando ele existe e identificar um câncer quando ele não existe. Falso negativo no primeiro, falso positivo no segundo.

Qual o critério? Biópsias. Elas têm falsos negativos, mas rarissimamente (devido a erro) tem falsos positivos.

Leia mais sobre essa pesquisa em

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/16484712

Recentemente, pesquisadores italianos verificaram que dois cães treinados poderiam identificar elementos químicos orgânicos na urina de pacientes que revelam que eles têm câncer da próstata. Dessa vez foram apenas dois cães e o resultado – uma taxa de acerto combinada, dos dois, de 98 por cento satisfaz os requisitos mais exigentes. Melhor do que o PSA e o toque retal combinados. Os italianos apresentaram os resultados na conferência anual da American Urological Association em Orlando, na Flórida.

O pesquisador italiano Gianluigi Taverna, sugere que o uso de cães, juntamente com testes já padronizados, como o PSA, apresentaria um avanço clínico.

Como foi feita a pesquisa? Usaram a urina de 677 pessoas, sendo 320 cancerosos e 357 pessoas saudáveis. Os cancerosos eram de todos os tipos, desde os com baixo risco até os com metástase distante. Os cães eram gratificados quando identificavam cada amostra cancerosa e sentavam em frente a ela.

Como é que funciona?

Os tumores produzem químicos chamados compostos orgânicos voláteis, que, como o nome diz, evaporam e produzem um cheiro que é captado pelas narinas ultrassensíveis dos cães. Os cães têm uma memória olfativa poderosa – não esquecem os cheiros. Por isso, as mesmas amostras não poderiam ser usadas repetidas vezes. Essa habilidade é que permite o uso de cães farejadores na busca de pessoas sequestradas, de corpos, de criminosos e muito mais.

E os cães, acertaram?

Um acertou em 98,9 por cento das amostras e o outro em 97,3%. Se os erros forem aleatórios ou absolutamente individualizados, o uso de dois cães na mesma amostra faria com que acertassem 9.623 vezes em cada dez mil!

Acham que é só isso?

Tem muito mais!!!

Os japoneses entraram nesse quadro. Sonoda e sua equipe

publicaram um artigo mostrando a utilidade dos cães no correto diagnóstico do câncer do cólon.[2] Há necessidade de um teste que seja tão barato e não invasivo para detectar o câncer do cólon, que seja mais confiável, com menos erros.

A pesquisa: foram obtidas amostras do “bafo” e de fezes liquidificadas de pacientes com câncer e pacientes saudáveis – o grupo controle. Eram vários grupos de cinco amostras: uma de canceroso e quatro de pessoas saudáveis. Um Labrador Retriever foi treinado para detectar câncer pelo cheiro. Cada vez, um par de amostras foi colocada em frente ao cão, uma de canceroso e outra de controle. Como em outros experimentos semelhantes, ele deveria sentar em frente à amostra com materiais de cancerosos. Trinta e três grupos de amostras de bafo e 37 de fezes liquidificadas foram usados. O cão corretamente identificou 91% dos casos de câncer detectados por colonoscopia, a partir do cheiro, e identificou 99% dos saudáveis. Quando as fezes foram usadas, as percentagens foram 97% e 99%, respectivamente.

A acuidade da detecção feita pelo cão não foi afetada nos casos em que o paciente fumava, em que a doença era benigna ou uma inflamação.

Por quê?

Os cães possuem até trezentos milhões de receptores olfativos nos seus narizes e nós, apenas seis milhões, cinquenta vezes menos.

Tem mais: a parte do cérebro que é dedicada a identificar e analisar cheiros, proporcionalmente, é 40 vezes maior nos cães.

Parece claro que há um potencial aberto para a utilização dos cães na medicina diagnóstica. Os resultados obtidos até agora tiveram treinamento muito limitado e um número mínimo de cães. O uso de vários cães e várias técnicas e vários treinamentos reduz os erros: são probabilidades combinadas. Não obstante, não é levado a sério por administradores hospitalares, médicos e suponho que seja levado negativamente a sério pela indústria farmacêutica. Se conseguirmos vencer o reacionarismo ranheta do establishment médico e farmacêutico, poderemos ver que o melhor amigo do homem é ainda mais amigo do que pensávamos.

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ


[1] McCulloch M, Jezierski T, Broffman M, Hubbard A, Turner K e Janecki T. “Diagnostic accuracy of canine scent detection in early- and late-stage lung and breast cancers” em Integr Cancer Ther. 2006 Mar; 5(1):30-9.

[2] Sonoda H, Kohnoe S, Yamazato T, Satoh Y, Morizono G, Shikata K, Morita M, Watanabe A, Morita M, Kakeji Y, Inoue F e Maehara Y, “Colorectal cancer screening with odour material by canine scent detection” em Gut. 2011 Jun;60(6):814-9. doi: 10.1136/gut.2010.218305. Epub 2011 Jan 31.

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