Curcumã: futuro adjuvante na quimioterapia contra o câncer da próstata?

Há alguns anos não se recomendava qualquer tipo de quimioterapia para o câncer da próstata. A químio seria recomendável apenas para canceres com crescimento relativamente rápido. O câncer da próstata não seria um deles. Há uma década apareceram os primeiros resultados que demonstravam um aumento da sobrevivência quando docetaxel era usado contra o câncer da próstata. O aumento, com a mediana de vários meses, passou a justificar o seu uso nos casos mais avançados. De lá para cá, o problema passou a ser como usar esse recurso quimioterápico de maneira mais efetiva.

Agora surgem pesquisas sobre combinações (docetaxel + outro ingrediente) que aumentam a sobrevivência e/ou reduzem os efeitos colaterais.

Uma delas, Fase II, usa curcuminóides em conjunção com o docetaxel, em pacientes que já não respondem ao tratamento (anti)hormonal (são definidos pela sigla CRPC). Curcumã (turmeric) é um aditivo alimentar, “dá gosto”. É uma raiz. É muito usado em partes da Índia e em outras áreas. Hakim Mahammedi, pesquisador do Centre Jean Perrin, e colegas apresentaram os resultados na conferência anual da European Society for Medical Oncology.

Pesquisas iniciais, pré-clínicas, haviam demonstrado que os curcuminoides inibiam as metástases, e a angiogênese, além de reduzir a resistência a medicamentos já estabelecidos. Mahammedi e associados queriam maximizar o efeito do docetaxel em pacientes tipo CRPC. Já haviam feito trabalho semelhante em pacientes com câncer da mama.

Como outras pesquisas Fase II o número de pacientes é pequeno (n = 30); tinham resistência crescente ao tratamento hormonal e também um PSA que crescia, indicando que as células cancerosas estavam se multiplicando. Obtiveram quatro respostas completas e treze parciais (redução do PSA), o equivalente a 59% dos pacientes. A redução foi observada em pouco tempo, antes do terceiro ciclo de três semanas cada.

Quanto tempo durou até que o PSA voltasse a crescer? Quase seis meses, na mediana.

Quanto tempo viveram depois? Na média, 19 meses, com mediana de dois anos (metade menos; metade mais).

Não se desespere com esses números. Lembre que, nos últimos anos, apareceram outros tratamentos que esticam ainda mais a sobrevivência (como Xtandi, Zytiga, Jevtana, Provenge etc.) e que há muitos outros sendo testados. Lembre-se, também, que essa é uma população idosa cuja esperança de vida sem câncer é limitada.


  GLÁUCIO SOARES       IESP-UERJ

 

 

Como foi o tratamento? Com docetaxel foi padrão: um ciclo de 75mg/m2, intravenoso durante uma hora, cada três semanas; no total, seis ciclos. Docetaxel foi administrado com prednisolone que, segundo entendo (e posso estar muito errado), reduz alguns efeitos colaterais. Os curcuminóides foram dados oralmente, 6 g/dia, começando quatro dias antes do docetaxel e terminando dois dias depois.

 

Dados os resultados estimulantes de outras pesquisas Fase I e II com curcuminóides, é evidente que precisamos de uma, muito maior (e mais cara), com grupos controle e demais exigências de uma pesquisa científica.  Os comentaristas deixaram claro que esses resultados não constituem prova da utilidade dos curcuminóides e que uma pesquisa Fase III, com um desenho cuidadoso e seleção igualmente cuidadosa, é indispensável. 

 

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