Os trilhos da vida

Desde cedo, sem que tenhamos consciência disso, somos colocados em trilhos invisíveis que podem durar a vida inteira. Uns estão condenados a uma vida difícil e outros a uma confortável. O que somos e o que não podemos ser já foi decidido, mas não por nós. Herdamos muitos limites e oportunidades. Temos alguma escolha, mas não podemos escolher qualquer caminho. Escolhemos dentro de limites que não escolhemos. Educadores em vários países concluíram que a educação separa as pessoas desde cedo e que a alfabetização, os hábitos de leitura e o conhecimento são um caminho pelo qual muitas crianças carentes escapam dos piores trilhos. Por isso, propõem começar a intervenção cedo.

Bons governos pesquisam para formular políticas públicas. Magnuson e McGroder analisaram o efeito de dois programas sociais nos Estados Unidos: um enfatizava a educação das mães; outro o emprego e havia um grupo controle. O programa durou dois anos e revelou que a educação das mães se relacionava positivamente como avanço das crianças. Pesava mais do que o emprego.

Os trilhos não são determinados por um fator só, num único momento: vão sendo construídos, com a participação das famílias, das escolas, dos colegas e da vizinhança, de todos os que formam o habitus de cada um. Rathbun e Hausken  avaliaram a participação das professoras e suas características, estudando a kinder de 2.826 escolas públicas e 417 privadas. Infelizmente, as escolas com maior proporção de crianças em situação de risco e mais alta percentagem das que não falavam Inglês eram as que mais necessitavam de atenção das professoras, também eram as que menos recebiam. A participação dos pais nas atividades escolares é menor nas escolas em áreas mais pobres.

Carreira e universidade são socialmente seletivas. Os trilhos também passam por universidades e cursos. Há carreiras com alto custo e maior dificuldade em entrar: os alunos mais pobres e os com menor capital cognitivo buscam as mais fáceis. Há uma seleção social entre carreiras caras e/ou mais exigentes, como medicina e engenharia, e as mais baratas e menos exigentes, como educação, enfermagem, direito e ciências sociais. As diferenças na composição social das carreiras são antigas e não foram criadas pelas cotas. Há um quarto de século dados relativos ao vestibular da UnB já mostravam que os estudantes das ciências exatas e de medicina tinham pontuação mais alta, inclusive nas perguntas sobre as ciências sociais.

Essa é a população que “chegou”, após um longo processo seletivo. Não vemos as que foram levadas por outros trilhos a outros destinos, com futuros limitados.

A universidade não zera as desigualdades entre seus alunos. Os trilhos invisíveis da vida continuam nela, separando os alunos. Chegam ao doutorado.

Os contatos entre pais e filhos, particularmente ler para/com os filhos e contar histórias perpetuam diferenças educacionais entre classes e grupos étnicos e raciais. Uns participam; outros são omissos. As crianças vão entrando em trilhos diferentes, dos quais é difícil sair. Em 1999, a Shell Poll, revelou que os adolescentes que diziam que seus pais liam para/com eles estudavam mais: a diferença era de 64% a 46%, entre alunos que deveriam estar no mesmo nível. No Brasil, as desigualdades educacionais entre os pais são maiores, e seu impacto bem maior.

Alguns exemplos ajudam. Encontrei na PUCRJ duas alunas que me impressionaram pela seriedade: uma, de classe média alta, usufruía das vantagens do seu status, havia feito um estágio na Europa; a outra, moradora de uma favela, tinha uma das bolsas que a PUC oferece a membros de minorias. Houve concurso de interesse de ambas: o resultado não poderia ser outro – ganhou a nascida na classe média. Até no doutorado há desigualdades difíceis de superar: a resistência a aprender métodos quantitativos; a ler em Inglês e a  ler várias horas por dia. Os alunos que cresceram em famílias sem hábito de leitura, enfrentam mais dificuldades. A democratização do ensino superior, um bem social em si, teve dificuldades não previstas, inclusive o crescimento do número de universitários sem hábito de leitura.

Muitos orientadores não se dão conta de que os problemas acadêmicos de muitos alunos têm origens extra-acadêmicas. Professores socialmente conscientes buscam a maneira de superar esses obstáculos, mas os reacionários abrem fogo contra a democratização e os ideólogos de esquerda  negam o fato.

Mas não é só o ”destino”. Fazemos escolhas. Duas estudantes nascidas em favela ilustram: uma teve uma oferta de  assistente de pesquisa, mas seus compromissos de ativista e seus imbroglios sentimentais impediram que ela cumprisse suas responsabilidades contratuais e foi despedida. Outra, também nascida em favela, teve oportunidade em área desejada, mas passou vários anos hesitando entre a área em que estava matriculada, teatro e música e perdeu a chance. Recentemente, tive dois bolsistas com todas as vantagens da classe média que foram reprovados e perderam a bolsa por problemas com drogas.

Os alunos fazem opções que conspiram contra o melhor aproveitamento nos cursos e do dinheiro público. A elevação das aspirações de consumo é um dos maiores empecilhos. As bolsas passaram a ser suplementação de renda.

Não é fácil zerar diferenças centenárias. Os programas visam diminuir a herança social que condena pessoas a seguirem rumos independentemente do mérito. Porém, em nome do mérito há analises que começam com os indivíduos já muito desiguais. Uma sociedade justa privilegia o mérito reduzindo a desigualdade de origem. Quando as pessoas são metidas em trilhos rígidos antes mesmo de nascer, não há igualdade de oportunidades.

Porém, os pais de hoje também nasceram desiguais, e assim por diante. Construiríamos uma história sem fim da desigualdade.  Sou mais crítico de amplos segmentos da classe média consumerista, que pouco lê e não acompanha os filhos em seus estudos.

O desejo de construir uma sociedade justa não passa pela
absolvição de escolhas “erradas” dos atores atuais; passa pela igualdade das oportunidades, independentemente dos pais e da família.

O grande desafio do ensino superior é democratizar sem perder qualidade. Não é tarefa fácil.

 

Gláucio Ary Dillon Soares   IESP/UERJ

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s