QUAL O PESO DA RELIGIÃO NA REELEIÇÃO DE OBAMA?

Os primeiros dados a respeito do papel da religião nas eleições presidenciais americanas de 2012 orientaram muitos a olhar em direções que terminaram sendo menos relevantes do que pareciam. Uma pesquisa, realizada em 2010, nos diz que 18% da população americana pensavam que Obama era muçulmano; talvez mais importante, 43% não sabiam qual era a religião de Obama. Dada a hostilidade dos americanos aos muçulmanos – que explodiu com os ataques de 11 de setembro de 2001 – esses dados faziam prever uma grande dificuldade para Obama se reeleger.  

Porém, os caminhos através dos quais a religião está afetando os candidatos e seus vices são diferentes. Além de diferentes, eles interagem com outras características. Este artigo verificaalgumas dessas interações.

O apoio à candidatura de Obama tem crescido entre os eleitores católicos nos Estados Unidos. Hásurveys que acompanham o apoio dado pelos candidatos aos diferentes candidatos, em diferentes níveis. No dia 17 de junho houve um desses surveys e o resultado era, praticamente, um empate (49 a 47 para Obama, dentro da margem de erro).

Mas em três meses, Romney deu muitas mancadas e a diferença agora é bem maior, 54 a 39%, quinze pontos percentuais. Como os católicos pobres favorecem Obama, mas votam menos do que católicos ricos, a abstenção pode pesar muito. Quanto maior, pior para Obama. Como anda esse processo? Entre os americanos registrados para votar a diferença é um pouco menor, Obama está nove pontos na frente, 51% a 42%. Quem levou a pesquisa a cabo foi o Pew Forum on Religion and Political Life, que está acima de qualquer suspeita de sectarismo.

Entre os católicos brancos, há um empate; entre os católicos de minorias, a cor da pele e a etnia pesam e Obama ganha com certa facilidade. 

A hierarquia católica não apoia Obama. Os bispos se reuniram há dois meses para protestar contra uma decisão de Obama de exigir que até as instituições religiosas, como hospitais e universidades, dessem camisinhas e outros contraceptivos aos seus empregados se eles ou elas o pedissem.

Não obstante, as questões religiosas não são, até o momento, as questões que decidem o voto. As questões econômicas pesam mais.

Romney elegeu um católico muito conservador, Ryan, para a Vice-presidência, mas parece ter exagerado a mão. Atraiu alguns extremistas, mas arrepiou a maioria dos católicos. É preciso não esquecer que o Vice de Obama, Joe Biden, também é católico.

E a esquerda católica, como respondeu às propostas dos candidatos e aos nomes dos vice-presidentes? A esquerda católica sabe que Ryan é de direita e não gosta do plano republicano de reduzir os impostos sobre os ricos ao mesmo tempo que reduz ou elimina programas que beneficiam os setores mais pobres da população. É um obstáculo difícil de superar.

Já entre brancos evangélicos, Romney domina. É um dos poucos grupos em que cresceu, de 69 para 74%.

A religiosidade afeta a intenção de voto em interação com a raça. Entre negros protestantes Obama recebe 95% das intenções. A raça e as questões socioeconômicas pesaram mais do que algumas questões morais, como o fato de Obama não se opor a casamentos homossexuais. Não obstante, a pressão ficou menor porque a população americana mudou de opinião sobre esse quesito. Há oito anos, 60% se opunham aos casamentos entre pessoas do mesmo sexo; atualmente são apenas 44%. Entre os independentes, a oposição caiu de 53% a 40%. Claro, os que mais se opõem são os republicanos, mas mesmo assim mudaram nos últimos oito anos: de 78 a 70% contra.

Esse é um tema eleitoral no qual a tendência a longo prazo da opinião pública é clara: em 1996, os opostos aos casamentos gays eram 65% e os favoráveis eram apenas 27%


A questão do aborto tem sido central nas eleições americanas. Dados dos últimos anos revelam que embora as posições tenham mudado um pouco, o tema perdeu importância. As mudanças constatadas, ente 2007 e 2009, foram no sentido de colocar mais restrições ao aborto. Esse declínio das posições chamadas de 
pro-choice não foi grande, mas mascara uma tendência importante: o aborto perdeu centralidade na política americana. Ainda é um tema eleitoral importante, mas já não é central, já não é aquela linha que determinava quem votaria em quem. Entre republicanos o movimento foi no sentido contrário: houve uma perda de sete pontos dos que apoiavam a legalização do aborto: Obama para um lado, republicanos para o outro.; na última pesquisa deste ano, os favoráveis passaram a ser pequena maioria: 48 versus 44%. O alicerce para essa mudança talvez seja o crescente número dos que acreditam que a preferência sexual não pode ser alterada. É interessante, também, que há consideráveis diferenças entre as coortes etárias: os mais jovens aceitam com mais facilidade os casamentos homossexuais: quanto mais velha a pessoa, maior a probabilidade de rejeição. Não obstante, em todos os grupos etários baixa a rejeição a esse tipo de casamento.

O grupo, claro, no qual a religião influencia menos o voto é o dos que não têm uma religião declarada. Parte deles não vivem os preceitos de uma religião. Por menor relevância das questões religiosas, nesse grupo os demais temas eleitorais dominam. Nesse grupo, Obama dispara, 65% a 27%. O oposto também é verdade: para os americanos que são muito religiosos e vão à igreja pelo menos uma vez por semana – neles, Romney supera Obama por uma margem moderada, 51 a 42%.

Qual o efeito conjunto dessas variáveis e de tantas outras? Não sabemos com certeza, mas até agora Obama tem vantagem, que vem ampliando lentamente.

 

 

GLÁUCIO SOARES            IESP-UERJ

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