Entre a Cruz e a Estrela Vermelha?

Entre a Cruz e a Estrela Vermelha?
Antes de analisar as relações entre as religiões e a política, é importante saber algo sobre elas. Em uma pesquisa com amostragem probabilística feita no DF, que uso porque tinha várias perguntas sobre a religião, fica claro que as religiões não são iguais. A composição social e econômica dos fiéis das religiões difere muito. Comecemos com o sexo: numa pesquisa que realizei no Distrito Federal, as mulheres representavam 67% do total de fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) e também pesavam muito em outras pentecostais (59%). Entre católicos e protestantes tradicionais, a percentagem era mais baixa (54 e 53).
As diferenças educacionais também eram significativas: a IURD tinha a mais alta percentagem de analfabetos e de pessoas com primeiro grau incompleto: 45%, vinte por cento a mais que os católicos e quase quarenta por cento a mais do que os espíritas. A IURD não estava isolada, uma vez que 33% dos fiéis de outras igrejas evangélicas pentecostais tinham baixo nível educacional, assim como 40% dos das não pentecostais.
Parte considerável da influência de uma igreja se dá através do contato direto com os fiéis e entre os fiéis, incluindo a intensidade e a frequência desses contatos. Os fiéis, por sua vez, influenciam uns aos outros. No DF, os católicos, maioria no Brasil, frequentavam menos a Igreja, seus ritos e iniciativas. Consequentemente, interagiam menos. Em muitas paróquias, os fiéis que assistem à missa saem logo depois dela e não participam de nenhuma outra atividade associada com a igreja. Na mencionada pesquisa, somente 17% iam à Igreja mais de uma vez por semana, em contraste com 51% dos protestantes, 53% dos evangélicos não pentecostais, 55% dos seguidores da IURD e 68% dos fieis de outras igrejas evangélicas pentecostais (como a Assembleia de Deus). Silvia Fernandes, analisando dados do Catolicismo no Brasil, encontrou diferenças menores, mas na mesma direção: no Rio de Janeiro, os católicos que participavam de atividades da própria Igreja mais de uma vez por semana eram 18% do total, ao passo que entre os não católicos essa percentagem era 27. Em São Paulo, as diferenças eram maiores: 15% e 34%.  As redes sociais dos católicos são mais ligadas a outras atividades, ao passo que, nas denominações mencionadas, a sociabilidade também é variada, mas dentro do grupo religioso. Talvez seja justo dizer que boa parte dos que se declaram católicos são apenas “nominais”, para fins de censo: no Distrito Federal, dois em cada três católicos se consideravam pouco ou nada religiosos. Essas duas constatações – baixa frequência e baixa religiosidade – nos leva à conclusão de que o poder dos católicos baseado nos números, inclusive o político, está artificialmente inchado. É significativo o contraste com os evangélicos, entre os quais apenas um em três se declarava pouco ou nada religioso. Essa associação é estatisticamente muito significativa. O caráter hierárquico da Igreja Católica não ajuda a formar redes espontâneas de fiéis. Essas condições contribuem para explicar porque seu êxito político é menor do que o número de fiéis sugere.
As características religiosas formam síndromes com variáveis socioeconômicas e políticas. As áreas residenciais evangélicas são as de IDH mais baixo, renda mais baixa, educação mais baixa. Elas têm dado maior apoio a candidatos populistas no Rio de Janeiro, assim como a evangélicos como Benedita, Garotinho, Rosinha e Crivella, mas em São Paulo áreas semelhantes eram redutos eleitorais dos partidos e candidatos de esquerda, sobretudo o PT.
Dada a composição socioeconômica e a distribuição espacial dos evangélicos, fica fácil ver que Russomano avançou, como afirma Ricardo Kotscho, “principalmente nos redutos petistas das extremas periferias das zonas leste e sul, que votaram em Marta Suplicy nas últimas eleições.” Em São Paulo, Haddad e Russomanno disputam o voto em várias áreas onde Serra não penetra. Além do ambiente favorável nessas áreas, a rivalidade entre petistas e tucanos os impediu de ver que o candidato forte, a ser derrotado, era Russomanno. Quem quisesse ganhar as eleições tinha que ganhar dele. Enquanto a principal trincheira de petistas e tucanos é política e econômica, a entre tucanos e Russomanno é religiosa e social. O mundo mudou e tucanos e petistas não se deram conta. A politização evangélica é clara. Em caso de vitória, eu previa a partidarização. Renato Galdino, presidente do conselho político do ministério evangélico de Santo Amaro, teria se filiado formalmente ao PRB. A politização é clara, e vem de cima. Bem de cima, aliás. Segundo o bispo Edir Macedo, Deus tem um plano político: que os fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus e os evangélicos que sejam seus aliados, governem o Brasil. Essa afirmação é explicitada no livro Plano de Poder, escrito com Carlos Oliveira.
Quando escrevi a versão jornalística desse artigo, Russomanno ganhava nas pesquisas e Paes tinha confortável vantagem no Rio de Janeiro. A pergunta que todos faziam era: pode mudar ou a eleição está definida em São Paulo e no Rio de Janeiro?
Minha resposta foi que, em São Paulo, com quatro em cada dez votos ainda indefinidos na pesquisa espontânea, havia margem para mudança. Porém, além de receber a grande maioria dos votos indefinidos o candidato petista teria que receber apoio substancial de Lula e outros próceres nacionais do PT[1]. Para evitar a transferência de regiões e bairros inteiros, antes petistas, para candidatos evangélicos, Lula e outros políticos de esquerda com influência em São Paulo teriam que mergulhar na campanha. Ironicamente, esse apoio intenso e ostensivo não favoreceria apenas Haddad, mas, indiretamente, Serra também, o inimigo tradicional. Outra possibilidade, politicamente irônica, seria, no segundo turno, Serra apoiar Haddad ou Haddad apoiar Serra contra Russomanno. Era difícil que acontecesse. Como Russomanno não alcançou o segundo turno, não foi necessário esse mecanismo.
No Rio, o quadro é diferente: o voto religioso é mais antigo – e mais estudado. Analisando a votação de Crivella, Bispo da Igreja Universal, candidato à prefeitura do Rio de Janeiro em 2004, Sonia Terron sublinhou ele obteve votações mais significativas nas Zona Oeste, Central do Brasil e na Leopoldina, áreas evangélicas com forte penetração da IURD. Cesar Romero Jacob, Hees, Waniez e Brustlein escrutinaram as eleições para prefeito e para presidente nas cidades do Rio de Janeiro e em São Paulo, de 1996 a 2010. Concluíram que a votação recebida por Crivella foi forte em “áreas… onde a presença de evangélicos é mais expressiva”. Há uma clara correlação, mas também há colinearidade com a baixa renda e outros indicadores de pobreza. Os autores citados concluíram que o caráter religioso da candidatura de Crivella e o caráter anti-ecumênico que atribuem às igrejas pentecostais teriam levado os eleitores dos bairros mais católicos do Rio a rejeitá-lo. Mencionam que os dados do censo atribuem quase dois terços da população da cidade aos católicos e apenas 17% aos evangélicos. Creio que os autores superestimaram a significação da declaração censal dos católicos. Repetindo, os evangélicos são mais evangélicos e os católicos são menos católicos. Uma percentagem considerável dos evangélicos já foi católica.
Em 2012, Paes, franco favorito, recebeu muito apoio de pessoas politicamente influentes (Lula, Dilma, Cabral) e de partidos, como o PT e o PMDB. Recebeu mais apoio dos evangélicos do que seus oponentes. 
Porém, se os católicos têm contra seus candidatos o baixo envolvimento religioso dos fiéis, os evangélicos não formam uma Igreja só, mas muitas. No Rio de Janeiro, Crivella alcançou apoio consideravelmente mais alto nas áreas pentecostais do que nas com alta proporção dos eleitores que o IBGE chama de evangélicas “de missão” (luterana, metodista, batista, congregacional, adventista, entre outras). Essas subdivisões pesam e influenciam o resultado: Nicolau e Terron analisando a votação obtida por Crivella no primeiro turno mostram uma uma modesta correlação (0,19) com a percentagem de evangélicos de missão, alta correlação com a percentagem de pentecostais (0,72), sem falar na forte correlação negativa (-0,61) com a percentagem de católicos. Pelos dados censais, as de missão são mais relevantes no Rio de Janeiro do que em São Paulo, 16% vs 11%. O apoio das não pentecostais é eleitoralmente mais importante no Rio do que em São Paulo.












As duas capitais não se comportam de maneira igual: embora tenhamos semelhanças, há importantes diferenças. Na história política do Rio de Janeiro, os partidos organizados de esquerda não tiveram a consistente penetração em algumas regiões que tiveram em São Paulo; em contrapartida, líderes populistas como Chagas Freitas e Brizola (o mais conhecido de todos), deixaram marcas profundas na política estadual e municipal. A geografia socioeconômica do Rio de Janeiro é mais simples do que a paulista: como sublinha o cientista político Antonio Carlos Alkmim, todos os indicadores pioram à medida que nos afastamos da orla, dando os contornos para uma geografia socioeconômica subjacente a uma geografia eleitoral que se repete há décadas.
E as favelas?
As favelas constituem um óbice às generalizações bidimensionais: cobrem perto de 4% do território, são, aproximadamente, cerca de mil e abrigam entre 20 e 25% da população carioca. Dificultam as generalizações espaciais baseadas unidades espaciais maiores, como as zonas e os bairros, e exigem unidades de análise menores. Muitas, localizadas nas Zonas Sul e Norte têm uma composição socioeconômica, religiosa e política marcadamente diferente da zona ou bairro em que se situam, mais parecida com as zonas e bairros mais pobres e distantes da orla.
Levando em consideração toda essa massa de informações, quem ganhará as eleições para prefeito do Rio de Janeiro e de São Paulo?
 Só Deus sabe…
GLÁUCIO SOARES                IESP/UERJ


[1] Haddad iniciou a campanha sem name recognition e muito mal nas pesquisas. Era necessária uma transferência massiva de votos, o que aconteceu.
[2] Uma versão anterior foi publicada em Cult 173, ano 15, Outubro de 2012, págs. 17-19.

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