Aniversário do Câncer

Os cânceres também aniversariam. No dia de hoje, 16 de agosto, há 17 anos, telefonei para saber qual o resultado da biópsia (seis agulhas) que eu fizera três dias antes. Nas biópsias anteriores, a enfermeira, de quem me tornara conhecido, me dera os resultados pelo telefone.  Há muita variância entre as práticas hospitalares nos Estados Unidos. No Sloan Kettering, eu tenho um espaço eletrônico no qual deixo e recebo mensagens, como dia e hora de consultas e resultados de exames. Informações mais pesadas são dadas diretamente pelo médico através do telefone, de maneira que ninguém deve ficar ansios@ quando recebe um email no MySKMCC. 
Acho arrogante usar o próprio exemplo, para muitas coisas, mas creio que essa prática, nesse caso, dados os leitores e pacientes, pode ser útil.
Em relação aos cânceres mais conhecidos (pulmão, mama, cólon etc.), o câncer da próstata é lento. Mesmo quando agressivo, é muito menos agressivo do que outros, como o glio-blastoma, no cérebro. Assim, a primeira coisa a saber é que o diagnóstico de câncer da próstata não é uma sentença de morte e, mesmo quando o câncer é agressivo, não é uma sentença a curto prazo. Leva anos e anos. Nos lugares em que o tratamento é sério, a sobrevivência, medida seja pela média de anos vividos até a morte (dos que morreram), seja pela percentagem dos pacientes que estão vivos cinco, dez, quinze anos após o diagnóstico, é longa. É irônico que esse câncer, lento como é, só oferece uma chance séria de cura, seja através da cirurgia (com o nome improvável de prostatectomia radical), seja através da radiação: se não curar no primeiro tratamento, não cura mais. O que tão pouco significa que o paciente vai morrer deste câncer.
O dado importante, meu querido leitor, é que, com raras exceções, esse é um câncer de idosos. A incidência cresce exponencialmente após os 60, mas após os 60 também crescem outras doenças. Mesmo os que seguem um tratamento, devido a sugestão dos médicos, não morrem necessariamente do câncer: há muita co-morbidade, outras doenças, e muitos cancerosos acabam morrendo delas, particularmente as que afetam o sistema circulatório e outros cânceres. O próprio tratamento do câncer pode aumentar o risco de morrer de uma delas.
Eu gostaria que acreditassem que a questão mais importante não é quando vão morrer, nem de quê, mas que tipo de vida vão ter até lá.
Explico: eu perdi, literalmente perdi, alguns anos da minha vida com um Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) relacionado com os cânceres. Ironicamente, não ficava angustiado com o câncer da próstata, mas com os outros cânceres. Me convencí de que tinha câncer no estômago, no cólon, na boca, leucemia, tudo. Só não me preocupei com o câncer nos cabelos porque esse câncer não existe e porque não tenho cabelos. A minha qualidade da vida foi artificialmente muito baixa devido a esse TOC.Um dia, tomei coragem e fui tratar da cuca. Busquei, antes, dados empíricos a respeito do tipo de terapia mais adequado para esse transtorno. A eficiência é um vetor que conta na minha vida e eu não queria gastar uma fortuna e o que me restava de tempo de vida falando da minha mãe (pronto: saiu o preconceito…). 
Li e descobri que a terapia cognitivo-comportamental dava bons resultados, que eram demonstráveis e mensuráveis. Saí buscando uma boa terapia e, feliz contradição, minha namorada na época, que era psicoanalista, recomendou dois a três nomes de respeito. Em somente quatro a cinco sessões, o TOC ficou sob controle.
Lgo percebi que eu sabia pouco , quase nada, sobre qualquer câncer e, conversando com outros pacientes que estão aprisionados dentro da língua portuguesa, percebi a necessidade de colocar informações recentes à disposição de pessoas que sofrem muito após o diagnóstico. Como poucos são os médicos que se comunicam e, entre eles, há uma percentagem substancial que também depende de traduções e relatos de segunda mão, porque não sabem pesquisar na internet nem lêem Inglês, ficou claro que havia um enorme espaço para ser preenchido. Era um espaço humano, cheio de dor, medo, angústia. Descobri que os melhores (no meu caso) hospedeiros de blogs eram o Blogger, da Google, e o WordPress. Criei um blog em cada. Para o primeiro, “Câncer da Próstata: Pesquisas e Pacientes”, até hoje escrevi 1.248 postagens; para “Câncer da Próstata sem Medo”, escrevi 2.412. Um trabalhão, que requer 2-3 horas diárias. Mas valeu a pena. Até esse momento, foram 440 mil acessos no segundo e 390 mil no primeiro. Considerando todos os blogs de utilidade pública, e os acadêmicos também, foram um milhão e trezentos mil acessos aos meus blogs.
Recuperei a minha vida: fora os blogs, publiquei quase duzentos artigos em jornais, trinta e sete artigos acadêmicos, dez capítulos de livros, quatro livros e orientei muitos estudantes; tive amores, felicidades, decepções e tristezas. Em suma, parodiando Neruda, confesso que vivi. Não obstante, passei muito tempo olhando para o teto, esperando o pior, ou fazendo buscas frenéticas na internet, provocadas por qualquer coisa – uma vermelhidão, um carocinho, o que fosse.Superei isso. 
E, o mais importante, redescobri Deus. Como disse Santo Agostinho, eu o buscava fora e, todo o tempo, Ele estava dentro de mim.
É isso o que desejo para ti, meu amigo. Que vivas! Que não faças contagem regressiva! Que não morras em vida!
Fica com Deus.

Gláucio Soares

Uma opinião sobre “Aniversário do Câncer

  1. Obrigada por existir!!!Meu pai foi diagnosticado com câncer de próstata em 2008. Fez a cirurgia e não tem apresentado resquícios da doença até hoje. Seus blogs foram não só uma fonte de informações para mim como encontrava neles um bálsamo para minha dor… não estávamos sós. Torço muito pela sua saúde e dentro de mim o tenho como um amigo. Obrigada novamente. Elis.

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