A crise econômica e a explosão dos suicídios na Europa

Uma pesquisa sistemática, levada a cabo por Stuckler, McKee e Sanjay Basu, que foi publicada em Lancet, trata das consequências da crise econômica e  financeira na área da saúde: aumentaram os suicídios, aumentaram as tentativas de suicídio, aumentaram vários tipos de doença mental, sobretudo as depressões. Dois dos países mais duramente atingidos pela crise, a Grécia e a Irlanda, foram os que tiveram as maiores elevações nas taxas de suicídio. Os dados desses pesquisadores são mais moderados do que os publicados no jornal The Guardian, mas se referem ao período de 2007 a 2009. 
A Grécia tinha uma das mais baixas taxas de suicídio da Europa (há alguns anos, era de 2,8 por cem mil). A taxa continua entre as  mais baixas, mas teve um incremento considerável nos últimos anos. Por quê? Chama a atenção a coincidência entre o crescimento da taxa e o crescimento da crise econômico-financeira grega. Somente entre janeiro e maio de 2011, segundo Helena Smith, escrevendo no The Guardian, o aumento da taxa teria sido de 40% em comparação com o mesmo período em 2010.
A principal religião da Grécia é a ortodoxa, cuja rejeição do suicídio é radical: não admite um ritual religioso no caso de suicidas. Contudo, esse freio ao suicídio parece estar declinando: Nikos Tsafos, em Greek Default Watch, apresenta dados mostrando um declínio nos casamentos religiosos. O mesmo autor mostra um declínio nos casamentos e uma crise na família, outra barreira tradicional contra o suicídio. 

A crise também se reflete no número de chamadas a instituições de auxílio a possíveis suicidas: uma delas, chamada Klimaka, informa que aumentaram dez vezes. São chamadas tanto de homens quanto de mulheres e, em tempos de crise, o desemprego, o medo do desemprego e temas relacionados, passaram a ser os mais frequentes. A taxa grega de desemprego de 2011, 18%, é três vezes a do Brasil. O suicídio, com frequência, dá aviso e os consultórios de psicólogos, psicanalistas e psiquiatras estão lotados. Houve um aumento de 30% apenas em um ano nas consultas a psiquiatras e os problemas giram ao redor da ansiedade e da depressão causadas pelo medo cujo fundo é econômico e financeiro. Os afetados não são apenas os adultos: os serviços de atendimento a crianças estão lotados e os níveis de estresse infantil e juvenil das vítimas são altos. Esses menores de idade estão enfrentando problemas antes desconhecidos, como o de ver o pai, a mãe, ou outros familiares, presos por crimes de origem econômica. Ninguém se preparou para essa crise, muito menos as crianças e adolescentes. 
A Irlanda foi chamada de o Tigre Celta –  enquanto durou o boom econômico. O bust, a quebra, foi proporcional ao boom. A resposta à recessão econômica não se fez esperar: em um período curto, de 2007 a 2009, a taxa de suicídios aumentou 16%. É um aumento que não se observa em tempos normais. Essa onda veio no bojo do que os terapeutas chamaram de “depressão do tigre celta”. Explodiu o número de homens jovens e de idade média nos consultórios médicos e psiquiátricos, com falta de apetite, insônia, e outros sintomas associados à depressão. Em Cork, nada menos de quarenta por cento dos suicidas estavam desempregados, segundo Arensman, da National Suicide Research Foundation. Os que trabalhavam nas áreas mais sensíveis às flutuações econômicas, como a construção, foram os mais atingidos. Note-se que na Irlanda, assim como na Grécia, a religião da maioria da população ainda é cristã (católica) e condena radicalmente o suicídio. Não obstante, uma das consequências observáveis do boom econômico e do consumerismo foi o declínio da religiosidade. O “freio” religioso perdeu poder. A percentagem da população que confiava muito ou totalmente na Igreja declinou de 48% em 1991 a 28% em 2008, segundo Máire Nic Ghiolla Phádraig em artigo publicado em Research Update.   
O suicídio é “apenas” uma das consequências: há outras. O crime também aumentou muito, assim como a pauperização, observou-se um crescimento no número de mendigos e de sem-teto e muito mais. Os sem-teto, somente no centro de Atenas, atingem vinte mil. Os jovens foram particularmente afetados: no grupo de 25 a 40 anos, o desemprego atingiu 42%. Afinal, são cinco anos de recessão. A Grécia é exemplo de irresponsabilidade fiscal. Gastou, gastou e gastou, endividou-se muito além do prudente, e agora não tem como pagar o que deve. 
Há mais: alguns dos membros mais recentes da Comunidade Europeia, como a Hungria e a Lituânia, são países que, historicamente, têm altas taxas de suicídio, porém foram menos afetados – houve um aumento inferior a 1% nas taxas – os membros mais antigos, ao contrário, foram os mais atingidos, castigados por um aumento de quase 7%.
Não há duvida de que a crise econômica afetou o bem estar social e psicológico das populações na Europa. O suicídio é a sua dimensão mais radical, mas há muitas outras. A crise não se mede, apenas, em euros. 


GLÁUCIO ARY DILLON SOARES         IESP-UERJ


Publicado n’O GLOBO de 24/05/2012

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