Mais uma violência contra os cegos

O Instituto Benjamin Constant foi criado pelo Decreto Imperial n.º 1.428, de 12 de setembro de 1854 e inaugurado formalmente poucos dias depois. Não é um depósito de cegos, nem “o lugar dos cegos”, mas uma instituição que, ao longo de mais de um século e meio, se dedicou à pesquisa sobre os cegos e à educação dos cegos. Eu, que tenho o privilégio de ver, sempre o via como um símbolo.
Aprendi com os cegos em plena campanha do Paz no Trânsito. Nossa campanha, um êxito que reduziu as mortes no trânsito à metade em quatro anos, ignorou as necessidades especiais dos cegos até que os próprios cegos tomaram a iniciativa de procurar-nos. Aprendemos com eles e, baseados nas informações fornecidas por eles, criamos os primeiros sinais de trânsito sonoros, ao longo das rotas mais seguidas pelos nossos irmãos cegos.
Pesquisando, aprendemos mais. Desconstruímos o conceito de que os cegos eram vítimas de um acaso malvado. Não eram. No Distrito Federal, dois terços dos três mil cegos cadastrados eram vítimas de homens e instituições malvadas e violentas. Muitos eram cegos graças a tiros e acidentes de trânsito. A cegueira é parte integral da violência.
Agora, acometidos de outro tipo de cegueira, membros do governo querem fechar o símbolo da integração dos cegos ao país. Entendam que é possível criar outra instituição mais moderna e funcional em outro lugar, mas serão paredes mudas, sem voz nem história.
Uma cultura cívica violenta causa a maior parte das cegueiras no nosso país e uma cultura política cega quer tirar dessas vítimas o seu  símbolo de cidadania, a sua história.

Gláucio Soares                    IESP/UERJ    

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