Um artigo sobre o Beltrame

Um artigo sobre o Beltrame (re-enviado pelo Zeca Borges):

Um certo José – ROSISKA DARCY DE OLIVEIRA

O que faz dele um personagem insólito no panorama dessa cidade que não é asua e que conquistou? Trata-se de um homem aparentemente comum, voz mansa, fala pausada e gestos sóbrios, distante do estereótipo do policial truculento, espécie de misterioso herói urbano que, de camisa polo e desarmado, dobrou o poderio do tráfico e devolveu a dignidade à polícia que comanda. De onde vem o poder de José Mariano Beltrame?

Tínhamos esquecido, a golpes de decepção, que há quem tenha convicções, sentido de dever e que, quando tudo isso vem associado à competência técnica, à honestidade e à determinação,
dessa combinatória improvável pode enfim resultar um homem público que cumpra o seu destino.

Quando conheci Beltrame, há cerca de três anos, o que mais me impressionou, além de sua cortesia, foi a coragem de dizer a verdade, de admitir o que, na época, eram seus estreitos limites, não prometer o que não poderia fazer. Prometia, isso sim, fazer tudo que pudesse.

É o antidemagogo, pensei, saindo de seu gabinete. Sobreviverá nesse mundo de maquiáveis de fancaria? Sobreviveu graças a vitórias que estabeleceram entre ele e seus comandados um clima de respeito, entre ele e a população laços tão fortes de confiança que essa aliança lhe deve dar a segurança de que já foi por nós plebiscitado no posto que ocupa.

Estamos celebrando a derrubada de um mito persistente que apregoava a invencibilidade do tráfico, a incurável corrupção da polícia, o destino dos pobres encurralados e humilhados em becos e vielas, de prisioneiros de classe média por trás das grades de suas casas. O fim das noites de ruas desertas e dos sonhos de imigração.

Há que celebrar o prestígio da honestidade e da honra que se recuperam como valores depois de uma longa treva em que bandidos eram heróis e modelo para os jovens. Talvez seja essa a maior das vitórias de Beltrame, que nos chega junto com os territórios devolvidos à cidade. Não se subestime esse legado impalpável, mas precioso: a força do seu exemplo.

A julgar pelo entusiasmo da população, ela não esperava por outra coisa, embora muitos exprimissem seu ceticismo e desesperança sob a forma do ”não vai dar certo, é fogo de palha”.Louvem-se as exceções, iniciativas como o Disque Denúncia, os familiares de vítimas que, inconformados, protestavam, os juízes e promotores incorruptíveis e a mídia que chamou a si o drama do Rio e não deu sossego à corrupção e à violência.

Os cariocas têm pelo Rio um estranho amor, ambíguo, que canta a beleza da cidade em prosa e verso, mas a maltrata no dia a dia. Uma espécie de contentamento passivo como se, por obra e graça de uma melhor gestão pública, da beleza natural ou do heroísmo de alguns, um milagre se produzisse. Passamos da euforia ao pessimismo como se o sucesso ou fracasso da cidade dependesse apenas de quem nos governa. Uma gangorra emocional em que pesam pouco os atos de cada um. Torcemos, mas não entramos em campo. Apesar do encantamento pela cidade, não creio que, nós cariocas, nos sintamos responsáveis por ela.

O que se tem dito e escrito sobre as favelas, sua ilegalidade e desordem, são puxões de orelha mais que justificados. Mas esse é também — e disso falamos bem menos — o cotidiano do asfalto. Nos últimos anos a alegria e a descontração da cultura carioca deslizaram perigosamente para a incivilidade.

Como um bumerangue, o vale-tudo se volta contra todos. Quem bloqueia os cruzamentos estrangula a si próprio com os nós do trânsito. Quem tem seu lixo recolhido na porta, nem por isso poupa do lixo as praias e praças, resquícios da casa grande em que a senzala são os lixeiros. Nem as ruas de seus carros mal estacionados. Nem se priva de andar de bicicleta na contramão. Quem fora do Brasil atravessa as ruas na faixa aqui não anda meia quadra para respeitar um mínimo de ordem urbana. São atos aparentemente triviais, mas que praticados por todos — ou quase todos — alimentam a cultura da desordem e da incivilidade. É esta cultura — que não é da favela ou do asfalto, mas de toda a cidade — que está em questão.

Têm agora uma chance única de se redimir todos aqueles que, ao longo dos anos, foram espelhando a omissão e a desordem do Estado e incorporando-as a seus próprios comportamentos como uma lei não escrita que absolvia a grande e a pequena corrupção, as grandes e as pequenas violências.

A população do asfalto, como a das favelas, está devendo a si mesma — e a um certo José Mariano — uma mudança de comportamento. Outro compasso em que acerte o passo aos novos tempos.

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