Erro medico e/ou erro politico



Toda doença tem aspectos políticos e o câncer da próstata não é exceção. A distribuição de fundos públicos para pesquisa, tratamento e prevenção talvez seja um dos campos mais politizados. Os pacientes, assim como seus parentes e amigos, podem participar e participam de diferentes maneiras e com diferentes intensidades nesses processos. O câncer da próstata é um dos campos com clara sub-representação dos interessados, em parte porque os homens ainda tem muita vergonha de admitir que são pacientes ou até que são vulneráveis a essa doença. O exame de toque retal, as freqüentes conseqüências de tratamentos como a impotência e a incontinência são tabus. Por isso, há menos fundos para pesquisas, tratamentos e prevenção do câncer da próstata do que para o de mama ou para a AIDS por paciente e por morto. Por isso, Marília Coutinho e eu apresentamos um trabalho, já em 1998, chamado Men: The Disorganized Majority,
posteriormente publicado na revista Dados

Na atualidade, médicos e políticos escoceses estão no meio de um debate e de uma campanha política muito séria. Por que?
Há dois anos, Abdel Baset al Megrahi, um terrorista líbio foi solto de uma prisão escocesa por razoes humanitárias. Tinha câncer da próstata avançado e teria três meses de vida. Isso, há dois anos.

Quem é Abdel Baset al Megrahi? O terrorista que colocou uma bomba num avião da Pan American, vôo 103, que explodiu sobre Lockerbie na Escócia, matando 270 pessoas. Quem eram os mortos? Em sua maioria estudantes de high school americanos, mas havia outros passageiros e a queda matou escoceses que estavam em Lockerbie.
É um assassino em massa, e há quem defenda a tese de que assassinos deste tipo não poderiam ser libertados por razoes humanitárias. 
Porém, há um problema pesado do ponto de vista médico. Abdel Baset al Megrahi teria, no máximo, três meses de vida; dois anos depois ele continua vivo. Incompetência crassa. Professor Roger Kirby, do Prostate Centre em Londres, afirmou que os médicos que fizeram o prognóstico e os médicos que aconselharam o governo não estavam a par das pesquisas em andamento, nem de medicamentos recentes, como a abiraterona, que aumentou a sobrevivência (na mediana em vários meses, mas no extremo da distribuição em anos).
A indignação dos parentes e amigos das vítimas não tem limite. Abdel Baset al Megrahi negou direitos humanitários a todas as suas vítimas. Para eles, razoes humanitárias não se aplicam a monstros, a assassinos em massa.


Não é a primeira vez que algo semelhante acontece na Grã-Bretanha. Há anos, outro assassino em massa, que faz Abdel Baset al Megrahi parecer gente boa, o General Augusto Pinochet, se beneficiou de indulto semelhante. Estava em cadeira de rodas e dizia estar paralitico. Foi liberado e voltou para o Chile. Desceu andando, ás gargalhadas, do avião em Santiago. Não estava paralitico, nem gravemente enfermo. Era fraude. Em tempo: o governo chileno oficialmente reconheceu mais 9.800 vítimas da ditadura, elevando o número de vítimas do regime comandado por Pinochet a mais de quarenta mil!
Nos dois casos. Por detrás de políticos ingênuos (ou nem tanto), incompetência e fraudes médicas grosseiras. 

 

GLÁUCIO SOARES
IESP/UERJ

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