Onde o câncer da próstata mata mais?


Há uma polêmica entre médicos e entre associações nacionais de medicina de diferentes países. Essa polêmica vinha crescendo, mas teve um incremento extraordinário com a publicação, na Grã-Bretanha, de um trabalho afirmando que uma percentagem bem elevada dos ingleses que são diagnosticados com câncer da próstata acabam morrendo deste câncer, exatamente o contrário do que afirma a medicina dominante nos Estados Unidos, segundo a qual “muitos viveriam com câncer da próstata, mas poucos morreriam dele”


Os americanos são acusados de usar e abusar dos exames de PSA e de tratarem mais pacientes do que é necessário. Com isso, provocariam efeitos secundários sérios, como uma percentagem alta de impotência, outra de incontinência (menos freqüente e duradoura) etc. Os médicos americanos da “linha dura” não querem arriscar a ter mais pacientes mortos além daqueles que não conseguem mesmo salvar.

Uma lembrança aritmética: a percentagem aumenta se aumentarmos o numerador e também aumenta se diminuirmos o denominador. Os americanos afirmam que a taxa deles é mais baixa porque tratam mais e de maneira mais radical e muito europeus dizem que isso é falacioso, que as taxas americanas são artificialmente mais baixas do que as européias porque há muitos casos que, na Europa, não entrariam na estatística dos que tinham câncer (o denominador) e que nos Estados Unidos entram. Exemplo: um idoso de mais de 75, com um PSA na área cinza e nenhum outro indicador não seria biopsiado e não entraria nas estatísticas européias; nos Estados Unidos seria biopsiado e se algum câncer fosse encontrado seria tratado e entraria nas estatísticas dos “salvos”.

Os perigos são claros:

  1. tratar quem não precisa e vai morrer de outras causas devido à idade avançada e/ou a co-morbidades (outras doenças), criando medo e ansiedade, reduzindo a qualidade da vida, desnecessariamente, ou, do outro lado,
  2. não tratar, aconselhar ao “watchful waiting”, que muitos pacientes redefinem como “não são cancerosos”, deixando de tratar e curar ou postergar a morte por muitos anos de muitos pacientes.

As estatísticas brasileiras nos dão números que geram uma taxa de mortalidade de 38%, melhor que a da Europa do Sul e a da Europa do Norte. Mas nossas estatísticas – tanto de quem tem o câncer quanto de quem morre dele – são muito, mas muito deficientes. Eu não levo em consideração as estimativas para o Brasil.

GLÁUCIO SOARES

IESP/UERJ 

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