IDOSOS: QUEDAS MATAM MUITO MAIS DO QUE ASSASSINATOS



 


 


 


 

AS QUEDAS:

OBJETO NECESSÁRIO DE POLÍTICAS PÚBLICAS, PARTE INSEPARÁVEL DA SEGURANÇA PÚBLICA


 

 GLÁUCIO ARY DILLON SOARES, PhD

IESP/UERJ

2011
 

1. Introdução: Segurança Pública – o que é e o que não é



Segurança Pública é um conceito que varia no espaço e tem variado muito no tempo. Engloba mais num lugar, menos em outro. No Brasil, tem predominado uma interpretação minimalista, eu diria estreita, em função dos dados relativos à significação numérica dos brasileiros afetados por deficiências nas áreas que deveriam estar incluídas no conceito, mas não estão. Esses dados mostram muitas mortes, dor e sofrimento infligidos à nossa cidadania por causas externas cujas fontes, não obstante, continuam arbitrariamente excluídas da Segurança Pública.

Pior, a composição conceitual da Segurança Pública segue de perto a organização do estado. Numa inversão perversa das coisas, a organização (ou desorganização) do estado é quem determina a organização conceitual da disciplina e não vice-versa. Se, amanhã, o volume das colisões e dos atropelamentos exigirem que sejam tratados por agências diferentes isso não poderá significar a exclusão de um dos tipos desses eventos, que terá que ser conceitualmente expulso da Segurança Pública, caso a organização do estado continue a definir os parâmetros da disciplina.

A história determinou que parte da polícia tivesse uma organização militar e, durante duas décadas, a transformou, manu militari, em força auxiliar do Exército. Inicialmente essa subsunção significou uma lamentável confusão entre Segurança Pública e Segurança Nacional. Agora que a confusão está sendo desfeita, fica outra, também lamentável, que identifica Segurança Pública com as atividades relacionadas à prevenção e à repressão ao crime. Essa triste e prejudicial confusão já se encontrava presente no Io Plano Nacional de Segurança Pública que, além de elaborado por advogados e juristas pouco afeitos ao pensamento científico, confundiram Direito Penal e Direito de Processo Penal com Criminologia. O resultado foi um disparatado plano de metas que não foram cumpridas.

A Segurança Pública no Brasil enfrenta encruzilhadas em diferentes níveis: ou olha para o passado, atrela a Segurança Pública ao crime, e somente a ele, perdendo identidade e sendo absorvido pela combinação de disciplinas jurídicas e policiais, ou olha para o futuro e busca uma concepção mais ampla, marcada pela pesquisa e pela prevenção de todas as causas externas que afetam, ou podem afetar, a população brasileira; em outro nível, precisa decidir se incorpora a ciência e deixa a normatividade em seu devido lugar e o achismo de fora, ou expulsa a ciência e a substitui pela normatividade, de um lado, e o chute, do outro. 

2. Segurança Pública e as Mortes Violentas Esquecidas: as Quedas  
As mortes violentas não criminosas ficaram de fora da concepção dominante da Segurança Pública no Brasil, em contraste com os países industrializados, onde o seu declínio numérico e o aumento dos suicídios foram determinantes de mudança que varou muitas décadas. Hoje, public safety está em boa parte dissociada da Segurança Nacional nesses países.

Uma dessas mortes violentas é a produzida por quedas.


 
FIGURA I
MORTES POR QUEDAS NO BRASIL, 1998 A 2008

 


As taxas de mortalidade por quedas no Brasil demonstram um crescimento dessas taxas, resultando parcialmente do aumento da população idosa. O processo é complexo e inclui outras variáveis.

É importante evidenciar as circunstâncias da queda e suas causas, conseqüências, e os padrões sócio-demográficos e de saúde associados com ela.

A Figura I demonstra, pelo menos, três hipóteses relacionadas com o presente trabalho:

  1. O crescimento das mortes provocadas por quedas durante o período de vigência do CID X;
  2. O nível absoluto elevado das mortes por quedas.
  3. Seus dados e sua projeção linear de 1998 a 2008 permitem prever aproximadamente dez mil mortes por quedas em 2011.

É muito? Justifica que incluamos essa área na Segurança Pública com base no número de brasileiros que mata? Se somarmos os homicídios de 2007, de acordo com Eurostat, da Alemanha, Dinamarca, Irlanda, Espanha, França, Itália, Luxemburgo, Holanda, Portugal, Reino Unido, Escócia, Irlanda do Norte, Suécia e Bélgica, chegamos a 4.439, bem menos da metade das mortes por quedas estimadas para o Brasil em 2011!. Morrem, no Brasil, por quedas, perto de 2,25 pessoas por cada vítima de homicídio naqueles países – juntos.

Quando há uma definição de que uma área relacionada com a violência deve ser incluída no conceito de Segurança Pública, particularmente se for em função do elevado número de vítimas, a primeira preocupação passa a ser a prevenção. Como reduzir o número de vítimas fatais e não fatais? O primeiro passo é definir quem são essas vítimas e obter todas as informações possíveis a respeito do fenômeno, inclusive fora do Brasil, tanto para que sirvam de inspiração para hipóteses a serem testadas, quanto para que sirvam de parâmetros comparativos para os resultados.

3. Os Tipos de Mortes por Quedas


O primeiro passo é definir se o fenômeno é homogêneo ou se são fenômenos diferentes incluídos num só título. A análise das relações com variáveis externas sugere dois padrões, que são confirmados pela análise do conteúdo das diferentes quedas. Um padrão, a que chamaremos de Tipo I, incluem quedas do mesmo nível (incluindo escorregões; tropeços; quedas da cama; quedas de cadeira; quedas de um degrau para outro; quedas ao sentar; quedas ao levantar etc.) são quedas do quotidiano e apresentam um tipo de correlação positiva com a idade. Outro padrão, a que chamaremos de Tipo II, são caracterizadas pela exposição a situações de maior perigo: quedas de montanhas; quedas ao limpar janelas; quedas de grande altura etc. São mais freqüentes nas idades adultas, mas não de crianças nem de idosos. Em verdade, é difícil conceber escaladas por pessoas maiores de setenta anos. Há, claro, mas pouquíssimas. 



FIGURA I I
IDADE E MORTES POR TIPOS DE QUEDAS NO BRASIL, 1998 A 2008
 

 

A relação entre a idade e a taxa de mortes por quedas de tipo I mostra

  1. Que a relação entre a idade e taxa de mortes é exponencial, começando a acelerar na maturidade, mas saltando a partir dos 60-69 anos;
  2. A relação é estável no tempo: os dados de 2003, 2004, 2005, 2006, 2007 e 2008 seguem o mesmo formato.

Esses dados remetem quase toda a prevenção para a Terceira e a Quarta Idades. É nelas que as taxas são muito mais elevadas; é nelas onde poderemos salvar mais vidas e evitar mais morbidades, temporárias e permanentes. Os idosos temem os assassinatos, particularmente o latrocínio, mas uma pessoa de mais de 80 anos tem um risco treze a catorze vezes maior de morrer numa queda do que de morrer vítima de homicídio. A taxa de vitimização por homicídio nessa faixa etária oscila na proximidade de oito mortes por cem mil habitantes ao ano, ao passo que as quedas têm estado entre cem e cento e vinte mortes por cem mil habitantes.

Alguns idosos caem com facilidade, ao passo que outros são mais estáveis e raramente caem. O que explica as diferenças?

Há fatores, muitos relacionados com o estilo de vida, que afetam o risco de sofrer uma queda e morrer dela. Uma pesquisa recente mostra que a pressão pode alterar o fluxo de sangue para o cérebro, o que, por sua vez, aumenta o risco de quedas. Não são poucas as mortes devidas a essa causa, principalmente entre idosos. Nessa faixa predominam, também, as quedas por “passo em falso”; por tropeços etc. As mortes não são a única conseqüência das quedas. O número dos que ficam inutilizados ou com seqüelas permanentes é muito maior do que os que falecem.

3. Por que caem os idosos?



Não obstante, a idade em si é um fator: a capacidade de andar normalmente declina com a idade. Aos 60 anos, 85% andam normalmente; mas aos 85, somente 15% andam normalmente. Por onde passa esse declínio?

Por várias explicações, inclusive algumas relacionadas ao cérebro. Farzaneh A. Sorond, MD, PhD, pesquisa no Brigham and Women’s Hospital, na Harvard Medical School. Ela afirma que a idade avançada está associadas a várias síndromes como as doenças cerebrais microvasculares, hipotensão de diferentes tipos, derrames, demência e a perigosa congestive heart failure, que é freqüentemente letal e afeta a qualidade da vida dos que são marcados por ela. Em suas explicações concede lugar especial à idade dos vasos sanguíneos.

Em uma pesquisa, a Dra. Sorond e sua equipe pesquisaram 419 idosos. Mediram o fluxo sanguíneo para o cérebro usando testes padronizados com ultra-som e descobriram que a pressão altera o fluxo de sangue para o cérebro. Os idosos ou seus médicos e/ou acompanhantes informaram sobre quedas nos dois anos seguintes. O resultado dos problemas no fluxo sanguíneo é a taxa mais alta de quedas. Problemas na pressão e a ausência de mudanças no fluxo sanguíneo afetam o risco de cair. O quintil (vinte por cento) com as menores mudanças no fluxo sanguíneo tinha um risco de cair setenta por cento mais alto do que os classificados no quintil com as maiores mudanças no fluxo.

A pesquisa também revelou que as quedas são freqüentes. O grupo com pior resultado contabiliza mais de 1,5 quedas por pessoa por ano e o grupo com melhor resultado menos de uma por ano.

O que isso nos diz? Informa que os problemas com a pressão aumentam muito o risco de quedas e de mortes por quedas. A pressão afeta o fluxo de sangue para o cérebro e, através desse efeito, o risco de morrer numa queda. Isso além de derrames, TIA’s etc. Ao tratar a pressão (através de medicamentos, dieta e exercícios) um médico ou enfermeira diminui o risco de quedas que podem matar ou deixar a vítima entrevada. 



FIGURA III
AS RELAÇÕES ENTRE IDADE  E TAXAS DE MORTALIDADE POR QUEDAS DE TIPO I

 



 
Porém, a Figura III demonstra uma discernível tendência ao aumento nos últimos anos observados. Se confirmada essa tendência, deveremos pesquisar as mudanças no estilo de vida da população idosa que favorecem esse crescimento.

Figura IV 
As taxas brasileiras de mortes por quedas por 100 mil hbs. e por sexo cresceram entre 2003 e 2008 de maneira previsível. 

A Figura IV demonstra que o número de mortes masculinas por quedas é maior do que o das femininas, contrariando o encontrado em vários países.

Poderíamos pensar que o crescimento se deve exclusivamente ao envelhecimento da população.
   

4. Hora de ação e prevenção



As quedas são uma forma de morte violenta. Cerca de dez mil brasileiros morrem assim todos os anos. Não é pouco. Um número ainda maior de feridos sobrevive, alguns por um tempo relativamente curto, outros por um tempo maior, com seqüelas, deficiências e dores.

É problema de Segurança Pública, já aceito como tal em muitos países. O Brasil não pode continuar ignorando-o, virando a cara para milhares de cidadãos que morrem todos os anos, cujas mortes poderiam ser evitadas.


 

GLÁUCIO ARY DILLON SOARES – IESP/UERJ

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