Quem vai ganhar as eleições?

Gláucio Ary Dillon Soares e Tatiana Guimarães
Como pensar os resultados do primeiro turno?
Sandro Pizzorno, um excelente sociólogo italiano, com mais do que uma pitada de marxismo, criou o conceito de “áreas de igualdade”, aquelas em que o interesse de pessoas, grupos e classes coincidiam. A virtude maior do conceito em relação ao marxismo ortodoxo é permitir que numa área de interesse uns e outros estejam juntos, mas noutra estejam separados.
Dilma e Serra têm bases sociais muito diferentes. Dilma é mais forte nos estratos de mais baixa renda e escolaridade, ao passo que Serra ganha votos à medida que sobem educação e renda. Essas características variam no espaço brasileiro, entre regiões, estados e cidades. Todos os níveis contam: dentro das cidades também. Serra venceu nas áreas de renda média e alta de São Paulo e do Rio de Janeiro, como mostraram os mapas publicados pelo Estadão.
Porém, espaço, renda e educação não bastam para determinar o voto. Outros fatores contam, inclusive gênero, idade e religião, assim como os apresentados “como conjunturais– escândalos administrativos, corrupção, a posição em relação ao aborto etc. Dependendo da combinação específica e do peso que os fatores assumirem naquela eleição, eleitores passam de um lado para outro.
Moisey Ostrogorsky, muito antes de Pizzorno (afinal, ele morreu em 1921), tinha usado um conceito semelhante para explicar porque alguns grupos entravam e saiam dos partidos. Ampliando Ostrogorski(y), a associação entre indivíduos, grupos e classes e um partido (e, por extensão, um político ou um grupo, em períodos eleitorais ou não) é temporária e pode mudar. Ajuda a explicar porque tantos que votaram em Fernando Henrique (contra Lula) depois apoiaram Lula. A fidelidade (a políticos, partidos ou ideologias) não é permanente. As lealdades com freqüência colidem umas com as outras.
Comparando Dilma e Lula, Dilma não se saiu mal: Lula venceu em 16 estados no primeiro turno de 2006 e Dilma em 18. Lula também foi para o segundo turno em 2002 e 2006. O que pode (deve?) preocupar os seus defensores é a queda precipitada da participação de Dilma no total das preferências nas últimas semanas. No início de setembro, Dilma ganhava em todos (ou quase todos) os estados.
Há outras variáveis que ajudam a entender o resultado: talvez passem despercebidas as indicações de desinteresse e apatia, possivelmente originadas na insatisfação com os candidatos: numa eleição “casada” (presidente, governador, senador, deputado federal e deputado estadual) as cifras que indicam esse clima são algo mais altas do que esperado: quase três milhões e meio de votos em branco – pessoas que foram votar e não votaram; mais de seis milhões e cem mil votos nulos – pessoas que foram votar e anularam o voto, ou erraram, sem falar nos quase vinte e cinco milhões que não foram votar. Somando nulos, brancos e abstenções, há mais votos do que os recebidos por Serra! Somente os votos nulos e brancos somados aos obtidos por Dilma dariam – e sobrariam – para elegê-la no primeiro turno. É um cálculo ingênuo, mas Dilma foi a mais prejudicada pelos votos inválidos. A correlação entre as duas votações (% Dilma e % inválidos), de 0,61, é estatisticamente significativa no nível de 0,001. Já a correlação negativa de 0,46 com a % Serra nos informa que Serra se saiu melhor nos estados com menos votos inválidos. 
Os votos inválidos sempre existiram? Claro. Não obstante, Nicolau demonstrou o declínio em todas as regiões, desde 1994, dos votos inválidos (brancos + nulos) nas eleições. Em todas elas, o Nordeste teve a percentagem mais alta, mas a distância entre as regiões diminuía de eleição para eleição.
Neste primeiro turno, nove dos dez estados com votos nulos e em branco acima de 10% estão no Nordeste; o outro é o Rio de Janeiro. As percentagens mais altas foram na Paraíba e no Rio Grande do Norte. Contrariamente ao esperado por muitos, as percentagens mais baixas (menos de seis) estão todas no Norte.
Jairo Nicolau também demonstrou outra tendência, relativa às abstenções: “Dois dados chamam a atenção. O primeiro é que a as Regiões Norte e Nordeste tiveram maiores taxas de abstenção em todas as disputas. O segundo é que a diferença entre as regiões tem diminuído.” Nessas eleições, as abstenções representaram 18% dos eleitores inscritos. Não mudou muito.
E agora?
Muitos acreditam que o segundo turno será decidido pelo Partido Verde porque partem do princípio aritmeticamente elementar (e politicamente errado) que os votos já obtidos por Dilma e Serra seriam fixos e que só faltaria somar a fatia dos votos transferidos da Marina. É ingenuidade. Há um movimento constante, de duas vias, de intenções de voto de um candidato para outro. Pode chegar a ser grande. Nos últimos dias do referendo de 2005, sobre a proibição da comercialização de armas de fogo e munições, o grupo favorável à proibição perdeu um milhão de intenções de voto por dia.
Ainda não sabemos quem vai ganhar, quem será o próximo Presidente do Brasil.

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