Propina para um ou bolsa para dois milhões?

Vimos, hoje, a notícia a respeito da propina recebida por um funcionário da Receita Federal – a bagatela de 160 milhões. O Globo (G1) que, creio, não pode ser acusado de esquerdista, comunista etc. e tem uma competente equipe de repórteres e de revisores, informa que “Grupo dos irmãos Batista teria pago R$ 160 milhões para agilizar liberação de créditos tributários.” Essa é a propina total, paga ao longo de vários anos, a um fiscal da Receita. A delação foi feita pelos responsáveis pela própria JBS.

Há, da parte da direita mais sectária e mal informada, a impressão de que o Bolsa Família seria um programa caríssimo e muito mal administrado.

Nem um, nem outro.

Em 2015, o custo total do programa foi cerca de 27 bilhões de reais. Um pouco mais de meio por cento do PIB. No mesmo ano, as renúncias fiscais (impostos de que o Estado abriu mão), programas que alguns, ironicamente, chamam de “Bolsa Empresário”, equivaleram a 400 bilhões de reais em 2017. A fonte não é Granma, jornal oficial do PCC (cubano). É, uma vez mais, o insuspeitíssimo G1. Claro que há partes válidas no argumento de que as renuncias fiscais contribuem para combater a recessão etc.

O Bolsa Família tem benefícios; porém, muitos não dispõem dessa informação. É fácil aceitar dois desses: a elevação do nível educacional das crianças das famílias beneficiadas e uma redução dos gastos médicos graças a redução da fome e da desnutrição. E há quem defenda, com dados e seriedade, que o Bolsa Família tem um expressivo efeito multiplicador.

Porem, o meu foco não é esse. Voltemos à noticia de hoje, dos 160 milhões que teriam sido recebidos por um funcionário corrupto da Receita.

Comparemos com o Bolsa Família: quanto recebem os beneficiados? Quem são eles? Quem pode receber?

Busque a informação na Caixa Econômica: para participar, é preciso que a família esteja em situação de pobreza ou de extrema pobreza. As famílias devem ter renda mensal de até R$ 85,00 por pessoa (extremamente pobre) ou que sejam pobres, com renda mensal entre R$ 85,01 e R$ 170,00 por pessoa (pobre).

Se você, que pertence à classe média e mora no Rio de Janeiro (ou cidade equivalente) teve que pedir o almoço por entrega e um refrigerante, você gastou a renda mensal de uma pessoa extremamente pobre. Essa pessoa recebe do PBF aproximadamente a mesma quantidade, 85 reais.

Voltemos ao nosso possível corrupto da receita. Quantas pessoas seriam ajudadas pelo PBF com o que parece que o nosso corrupto recebeu de propina?

Só a propina equivale a 1.882.352 bolsas. Chegando perto de dois milhões de bolsas. Só esse ladrãozinho e seu grupo (se é que, realmente, receberam propina da JBS – tudo sujeito a confirmação) recebeu o equivalente ao benefício anual de 156.863 pessoas paupérrimas.

Essa é a medida da corrupção e das injustiças que elas representam.

Para visualizar melhor, encha o Beira Rio, o Engenhão, o Pacaembu e o Independência com pessoas muito, muito pobres, subnutridas, em andrajos, beneficiários do Bolsa Família. Aquela pessoa, ou aquele grupinho, afanou o equivalente à renda anual de todas essas pessoas.

Se você ainda acredita que o Bolsa Família é o principal erro, um problema dos mais sérios do Brasil, e que a corrupção é coisa pouca…

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ

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PRESERVANDO O NOSSO CÉREBRO

O cérebro parece um músculo: exercitando-o se desenvolve; deixando parado, se atrofia.

Infelizmente, não é bem assim. Se fosse, os mundos acadêmico e intelectual estariam recheados de atletas olímpicos, cognitivamente falando. Porém, somos todos suscetíveis à demência e ao mal de Alzheimer’s.

O que não quer dizer que exercitar o cérebro seja inútil.

Uma pesquisa, que foi financeiramente apoiada pela Alzheimer’s Society da Grã-Bretanha, mostra que o que chamaram de Cognitive Training (CT), o treinamento cognitivo, pode contribuir para a prevenção da demência e para a manutenção das funções cognitivas em nós, coroas.

Como foi feita essa pesquisa?

Que resultados apresentou?

Primeiro, a pesquisa foi feita online, pela internet. Isso barateou enormemente o seu custo. Imagine como poderia baratear o custo do CT – para milhões de idosos brasileiros!

Seguiram um procedimento padrão: sortearam os participantes, adultos com mais de 50 anos, em três grupos: um foi treinado em Procedimentos Cognitivos Gerais; o segundo em Raciocínio e o terceiro pagou o pato: foi o grupo controle. Não foi treinado em nada. O treinamento durou seis meses e foi feito online.

Qual o objetivo principal? Contribuir para que idosos (mais de 60) tomem conta de suas atividades cotidianas, diárias. Continuem razoavelmente lúcidos e responsáveis por si mesmos.

Porém, os autores são pesquisadores e não perderiam essa oportunidade de avançar o conhecimento em outras áreas. A pesquisa tinha objetivos secundários: ver o efeito sobre o raciocínio, sobre a memoria verbal de curto prazo (essa aterroriza os coroas de verdade, >80 anos). Tem mais: recauchutar a memória funcional espacial, a aprendizagem verbal e a vigilância digital. O numero de coroas cobaias era grande: 2.912 com mais de sessenta. A garotada com mais de cinquenta até sessenta era ainda mais numerosa.

E os resultados?!!!? E os resultados?!!!?

Os pacotes de treinamento ajudam! O pacote geral e o com exercícios de raciocínio ajudaram os coroas de mais de sessenta a enfrentar os problemas do cotidiano. Os ganhos no raciocínio começaram mais cedo, em seis semanas; os outros demoraram mais tempo – seis meses.

Um grupo importante era os que já demonstravam algum declínio associado com a idade. São os gagás – como eu provavelmente já sou.

O que aconteceu com eles???

Aleluia! O Bom Deus não excluiu os gagás! Houve benefícios semelhantes aos obtidos pelos não gagás. Todos os grupos (menos o controle, claro) melhoraram.

Uma conclusão se impõe: o treinamento cognitivo online beneficia os coroas de diversas idades. Dentro de limites, mas beneficia. O maior benefício vem do treinamento no raciocínio.

Uma profecia (fácil!) também se impõe: treinamentos como esses e seus benefícios vão demorar a chegar ao Brasil e firmar raízes no país. Aqui tudo se faz através do estado, povoado em boa parte por analfabetos funcionais dedicados somente a aumentar o seu próprio patrimônio.

GLÁUCIO SOARES IESP/UERJ

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PRESERVANDO O NOSSO CÉREBRO

O cérebro parece um músculo: exercitando-o se desenvolve; deixando parado, se atrofia.

Infelizmente, não é bem assim. Se fosse, os mundos acadêmico e intelectual estariam recheados de atletas olímpicos, cognitivamente falando. Porém, somos todos suscetíveis à demência e ao mal de Alzheimer’s.

O que não quer dizer que exercitar o cérebro seja inútil.

Uma pesquisa, que foi financeiramente apoiada pela Alzheimer’s Society da Grã-Bretanha, mostra que o que chamaram de Cognitive Training (CT), o treinamento cognitivo, pode contribuir para a prevenção da demência e para a manutenção das funções cognitivas em nós, coroas.

Como foi feita essa pesquisa?

Que resultados apresentou?

Primeiro, a pesquisa foi feita online, pela internet. Isso barateou enormemente o seu custo. Imagine como poderia baratear o custo do CT – para milhões de idosos brasileiros!

Seguiram um procedimento padrão: sortearam os participantes, adultos com mais de 50 anos, em três grupos: um foi treinado em Procedimentos Cognitivos Gerais; o segundo em Raciocínio e o terceiro pagou o pato: foi o grupo controle. Não foi treinado em nada. O treinamento durou seis meses e foi feito online.

Qual o objetivo principal? Contribuir para que idosos (mais de 60) tomem conta de suas atividades cotidianas, diárias. Continuem razoavelmente lúcidos e responsáveis por si mesmos.

Porém, os autores são pesquisadores e não perderiam essa oportunidade de avançar o conhecimento em outras áreas. A pesquisa tinha objetivos secundários: ver o efeito sobre o raciocínio, sobre a memoria verbal de curto prazo (essa aterroriza os coroas de verdade, >80 anos). Tem mais: recauchutar a memória funcional espacial, a aprendizagem verbal e a vigilância digital. O numero de coroas cobaias era grande: 2.912 com mais de sessenta. A garotada com mais de cinquenta até sessenta era ainda mais numerosa.

E os resultados?!!!? E os resultados?!!!?

Os pacotes de treinamento ajudam! O pacote geral e o com exercícios de raciocínio ajudaram os coroas de mais de sessenta a enfrentar os problemas do cotidiano. Os ganhos no raciocínio começaram mais cedo, em seis semanas; os outros demoraram mais tempo – seis meses.

Um grupo importante era os que já demonstravam algum declínio associado com a idade. São os gagás – como eu provavelmente já sou.

O que aconteceu com eles???

Aleluia! O Bom Deus não excluiu os gagás! Houve benefícios semelhantes aos obtidos pelos não gagás. Todos os grupos (menos o controle, claro) melhoraram.

Uma conclusão se impõe: o treinamento cognitivo online beneficia os coroas de diversas idades. Dentro de limites, mas beneficia. O maior benefício vem do treinamento no raciocínio.

Uma profecia (fácil!) também se impõe: treinamentos como esses e seus benefícios vão demorar a chegar ao Brasil e firmar raízes no país. Aqui tudo se faz através do estado, povoado em boa parte por analfabetos funcionais dedicados somente a aumentar o seu próprio patrimônio.

GLÁUCIO SOARES IESP/UERJ

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Amendoim faz bem, mas cuidado com o môfo

O amendoim é o primo pobre de um conjunto que inclui nozes, castanhas de caju, castanhas, pinhões, amêndoas, macadâmia, castanhas do Pará, entre outras. As pesquisas sobre dietas e suas consequências são muito difíceis de realizar e os pesquisadores aceitam que os dados não são bons como gostariam. O consumo dessas “nuts” está associado à reduções de mortalidade em diferentes grupos étnicos e grupos com problemas de saúde, como diabéticos, obesos, fumantes e alcoólatras.

Segundo John Day, um cardiologista, ajudam a impedir o entupimento das artérias. Ajudam a baixar o LDL (o colesterol “ruim”). Artérias limpas significam um risco menor de problemas crônicos de saúde.

As pesquisas incluíram grupos muito variados: habitantes do Sudeste de baixa renda, chineses em Shangai etc. Todos os grupos se beneficiam da ingestão desses alimentos, inclusive o amendoim, inclusive a pasta de amendoim, ingrediente típico de sanduiches feitos apressadamente.

Acompanharam mais de duzentas mil pessoas. As mortes por doenças do coração e por derrames eram perto de vinte por cento mais baixas entre os que comiam um pouco dessas “nuts” diariamente, em comparação com os que não os incluíam na sua dieta.

Não obstante, esses alimentos devem ser saudáveis ou aparecem outros riscos. Há fungos que produzem aflatoxinas que estão ligadas a várias doenças, inclusive ao câncer do fígado. São um problema comum em países com baixo nível de higiene alimentar.

Eu, que curto muitas das “nuts”, inclusive amendoim “japonês”, olho para o positivo.

Gláucio Soares

Um teste de urina que poderá salvar vidas, sofrimento e dinheiro

Agora existe, em fase experimental, um teste simples, de urina, que pode ajudar no diagnóstico do câncer da próstata com alta acuidade, acertando em 98% dos casos.

Há dois tipos de erros que usualmente ocorrem no inicio do câncer. O pior não trata canceres que precisam ser tratados. Sem testes, é uma possibilidade real e uma ocorrência comum porque os sintomas que são perceptíveis pelos próprios pacientes só surgem quando o câncer está avançado.

O erro oposto tem a ver com diagnosticar e tratar invasivamente um câncer da próstata que não é agressivo, que não matará nem afetará a vida do paciente.

Quando o teste de PSA e o toque retal não excluem a possibilidade de câncer, o próximo passo é a biópsia, com agulhas, um procedimento claramente invasivo.

Precisamos de avanços e progresso nesse nível também, e não apenas nos níveis avançados do câncer.

Esse novo teste de urina pode evitar 4 em cada dez biópsias. Dificilmente há falsos positivos nas biopsias, mas ainda hoje há falsos negativos. O câncer está numa área que escapou às agulhas etc.

Esse teste, chamado SelectMDx, ainda está em desenvolvimento no Radboud University Medical Centre, na Holanda. Se confirmar as promessas, evitará muita dor, física e psicológica, para futuros possíveis pacientes.

Gláucio Soares IESP-UERJ

Espiritualidade, religião e depressão entre pacientes terminais

A depressão é comum entre pacientes terminais, com pouco tempo de vida. Nesse grupo de pessoas, há muita tristeza, muita desesperança. Nesse grupo, ter ou não ter uma vida espiritual e ter ou não ter uma religião fazem muita diferença. Uma pesquisa, publicada há quinze anos, analisou os efeitos da religião e da espiritualidade sobre pacientes terminais.[i] Eram 162 pacientes com câncer e/ou AIDS, com uma esperança de vida de menos de seis meses. Os pesquisadores usaram medidas padronizadas de alguns conceitos, inclusive a Hamilton Depression Rating Scale (HDRS), que é muito usada nos estudos quantitativos sobre a depressão.

A associação mais intima que encontraram foi entre a espiritualidade[ii] e a depressão: a mais espiritualidade, menos depressão. A espiritualidade alivia muitas pessoas com doenças terminais, no fim da vida delas.

E qual o papel da religião? O impacto da religião sobre a depressão se faz, segundo os autores dessa pesquisa, através da espiritualidade. A equação passa a ter três termos: ter uma religião aumenta a espiritualidade, que reduz a depressão.

Gláucio Soares            IESP/UERJ


[i] Christian J. Nelson, Barry Rosenfeld, William Breitbart e Michele Galietta, Spirituality, Religion, and Depression in the Terminally Ill, Psychosomatics, Volume 43, Issue 3, May–June 2002, Páginas 213-220.

https://doi.org/10.1176/appi.psy.43.3.213

[ii] Foi usada a FACIT Spiritual Well-Being Scale.

Comparando os efeitos colaterais da enzalutamida e da abiraterona

Temos lido e ouvido muito sobre os benefícios de dois medicamentos relativamente recentes que competem no mercado de pacientes cujo câncer já é resistente aos tratamentos hormonais, a abiraterona e a enzalutamida. Não obstante, há muito pouco a respeito de seus efeitos colaterais. Uma equipe, com a participação de médicos e pesquisadores brasileiros, realizou uma meta-análise para ampliar o conhecimento nessa área. Lembro que a meta-análise inclui instrumentos estatísticos para analisar dados já coletados.

A que conclusões chegaram?

A enzalutamida não está associada com o conjunto de eventos cardiovasculares, graves e não graves, em seu conjunto, ou com eventos cardiovasculares graves (nível ≥3), mas está associada ao risco de fadiga, de todas as intensidades (RR 1.29 – 95% CI 1.15-1.44).

Com a abiraterona, os resultados foram diferentes: aumenta o risco de problemas cardiovasculares, mas não aumenta a fadiga.

Esses resultados mudam a probabilidade de qual tratamento será usado em qualquer caso porque há resistências cruzadas e, depois de usar um desses medicamentos o outro surte pouco efeito.

Informação para nós, pacientes. Converse com seu oncólogo.

Gláucio Soares IESP/UERJ

Saiba mais: leia o artigo em Raphael B Moreira, Marcio Debiasi, Edoardo Francini, Pier V Nuzzo, Guillermo De Velasco, Fernando C Maluf, Andre P Fay, Joaquim Bellmunt, Toni K Choueiri, Fabio A Schutz, em Oncotarget. 2017 Aug 08, versão eletrônica.