Aumentando a eficiência dos tratamentos contra o câncer

Algumas combinações de medicamentos contra o câncer da próstata são bem mais eficientes do que cada medicamento isoladamente.

Algumas, mas não todas. Há casos de resistências cruzadas, nos que a resistência que as células cancerosas adquiriram em relação a um medicamento se aplica, em maior ou menor extensão, a outro ou outros medicamentos.

Uma combinação que tem produzido alguns resultados usa a químio e a radiação em uma faixa definida da onda para ativar terapias chamadas de foto térmicas (minha tradução de photothermal) e foto dinâmicas (minha tradução de photodynamic). São abreviadas como PTT/PDT. Porém, vários medicamentos esbarram em suas propriedades (ou ausência delas), como não serem solúveis em agua, e serem eliminadas rapidamente pelo nosso corpo.

Por isso, pesquisadores buscam, também, tratamentos auxiliares que aumentam a eficácia dos tratamentos primários. Tal parece ser o caso de envolver os medicamentos em albumina – que é uma proteína abundante no plasma sanguíneo.

É o que pesquisadores da Medical School of Nanjing University, na China, estao fazendo. “Embrulham” o PTT/PDT, o docetaxel (químio) e o contraste infra-vermelho (IR780). No meu primitivismo de paciente, gostei de saber que os agentes chamados PPT matam as células cancerosas através do calor; eles são ativados por lasers, atingindo temperaturas mais altas do que a resistência das células. A ideia de fritar ou de escaldar as células cancerosas me agrada imensamente… ainda que não seja exatamente isso o que acontece.

Trabalhando com camundongos, os pesquisadores analisaram as imagens, constatando que, em 48 horas as nanopartículas que desenvolveram se concentraram na região onde está o tumor. Concentrando a radiação nessas áreas, os pesquisadores perceberam que conseguiram estancar o crescimento dos tumores – um resultado que não foi alcançado usando docetaxel ou o PPT isoladamente.

Cresce a pesquisa chinesa.

Bem-vinda!


GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ


Saiba mais: “Self-assembled albumin nanoparticles for combination therapy in prostate cancer,” no International Journal of Nanomedicine.

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Nova geração de tratamentos hormonais?

A personalização do tratamento do câncer da próstata já está em curso. Personalização significa que a escolha do tratamento leva em consideração características do paciente, inclusive o estágio e o subtipo do câncer.

A Janssen Biotech, Inc., uma empresa farmacêutica, acaba de submeter um novo tratamento, baseado na apalutamida, que se aplicará somente a pacientes cujo câncer já não responde ao tratamento hormonal, mas ainda não apresentam metástases. É uma fatia importante do mercado.

Até o momento, a Food and Drug Administration (FDA), que é quem concede licença a novos medicamentos nos Estados Unidos, não concedeu nenhuma licença que se aplicasse a pacientes com essas características.

O que justifica esse pedido?

Os resultados de uma pesquisa clínica Fase III, chamada ARN-509-003 (SPARTAN) onde compararam os resultados do grupo experimental, que recebeu a apalutamida, com um grupo controle. A empresa considera que a apalutamida é a “nova geração” de tratamentos hormonais – além da abiraterona e da enzalutamida.

Que efeitos foram usados como critérios? O principal foi a ausência de metástases, mais exatamente o tempo que leva até o aparecimento da primeira metástase. A apalutamida promete uma “esticada” na duração desse estagio da doença, que é melhor (ou menos pior) que o seguinte, quando já há metástase. Dada a correlação entre o tempo até o aparecimento de metástases e o tempo até a morte, é provável que também signifique uma esticada na sobrevivência.

Converse com o seu urologista ou oncologista a respeito.

GLÁUCIO SOARES     IESP-UERJ

Cachorros farejam o câncer na urina

No estado de Indiana, um grupo de pesquisadores, com Dr.Mangilal Argawal à frente, está levando a sério a possibilidade de usar cachorros na detecção do câncer da próstata.

Foram inspirados por uma pesquisa feita na Itália onde os cachorros foram treinados para detectar corretamente o câncer cheirando a urina. Acertaram em 98% dos casos, um resultado muito superior ao de outros testes. As biopsias, custosas, invasivas, frequentemente dolorosas e sujeitas a infecções e outros efeitos colaterais, tem uma taxa incômoda de falsos negativos.

Embora os erros tenham diminuído, ainda existem. Quando eu fiz biopsias os dois primeiros “batches” (um de quatro agulhas, outro de seis) deram resultados negativos. Como o PSA continuava crescendo, foi feita nova série de seis agulhas e o câncer foi encontrado.

O olfato dos cachorros é muito, muito mais poderoso do que o dos humanos. Alexandra Horowitz, que estuda os caninos no Barnard College, afirma que os cachorros podem notar uma colher de açúcar no volume equivalente a duas piscinas. A acuidade seria de partes por trilhão.

Fonte: Inside of a Dog. 384 páginas, ISBN 9781416583431 | September 2010. À venda na Kindle por 13 dólares.

Na minha leitura, há dois grandes problemas no uso sistemático de cachorros na detecção do câncer da próstata: o primeiro é o treinamento. Tudo depende da qualidade e da extensão do treinamento. O segundo é o preconceito. Não vai ser fácil convencer pacientes a depositar as suas fichas em algo tão importante como a detecção de um câncer em um cachorro.

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ

Uma luzinha de esperança

Essa é uma luzinha de esperança para quem já passou por todas as etapas do câncer da próstata. Quem são esses pacientes? Aqueles que não respondem mais às terapias já estabelecidas, como docetaxel, cabazitaxel, enzalutamida e abiraterona. Uma empresa chamada Endocyte desenvolve terapias personalizadas, feitas para subgrupos de pacientes com características especificas, e não para todos os pacientes.

Em que consiste a luzinha de esperança?

Em um tratamento com um nome impossível, 177Lu-PSMA-617, que direciona seu poder de fogo para um antígeno vinculado a uma membrana, chamado PSMA. Esse antígeno está presente em cerca de 80% dos pacientes com metástase que não respondem a qualquer tratamento hormonal. O 177Lu-PSMA-617 reduziu o PSA em mais de 50% numa percentagem razoável dos pacientes (de 40% a 60%). Os demais não responderam ao tratamento. Houve melhoria em boa parte do que apresentavam metástases para outros órgãos e redução da dor (muito temida nas metástases ósseas).

A mediana da sobrevivência foi de 12,7 meses.

Esses são resultados com poucos pacientes. São promissores, o que levou ao projeto de uma pesquisa maior, Fase III, prevista para 2018.

Uma luzinha no fim do túnel…

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ

Câncer da próstata e estatinas

O câncer da próstata atinge, majoritariamente, pessoas idosas, ainda que tenhamos casos entristecedores de crianças com a doença. Os idosos também são mais afetados por doenças cardiovasculares e enfrentam problemas com o colesterol. Muitos tomam estatinas para controlar o colesterol.

Claro que os pesquisadores se perguntaram: as estatinas afetam o câncer? Se afetam, é para melhor ou para pior?

Parece fácil pesquisar essa relação, mas há possíveis efeitos endógenos: dados os mesmos problemas cardiovasculares, quem toma estatinas, na média, tende a ter mais cuidado com a saúde do que quem não toma, a fazer check-ups mais frequentes, a ir ao médico regularmente e a ter mais recursos monetários, cognitivos e associativos. São pacientes diferentes.

As pesquisas feitas, em sua maioria, foram retrospectivas, e buscaram saber se os pacientes que tomavam estatinas (informação obtida dos próprios pacientes ou, em poucos casos de países com excelente sistema de estatísticas integradas, das receitas médicas) apresentavam um desenvolvimento diferente do câncer.

E os pacientes que passaram a tomar estatinas depois do diagnóstico do câncer? As estatinas ajudaram?

Uma pesquisa realizada na Dinamarca informa que o consumo regular de estatinas possivelmente reduz o risco de morte em 20%. Prudentemente, os pesquisadores dão um passo para trás e afirmam que a associação não demonstra causalidade.

Como foi feita a pesquisa?

Analisaram dados de quase 32 mil dinamarqueses de 35 a 85 anos que foram diagnosticados com um adenocarcinoma da próstata entre 1998 e 2011. Coletaram as informações começando um ano depois do diagnóstico, e organizaram os dados relativos aos 2,8 anos seguintes – na mediana.

O resultado: homens que passaram a usar estatinas depois do diagnóstico tinham um risco 17% menor de morrer daquele câncer e 19% menor de morrer de qualquer causa.

Entre parênteses: confirmando o que já sabíamos, dos 32 mil, 7.365 morreram do câncer e 11.811 de outras causas. Mais pessoas diagnosticadas com câncer da próstata acabam morrendo por outras causas do que devido ao câncer.

Claro que os pesquisadores “controlaram” outros fatores que alteram o risco de morte, começando com a idade do paciente, o ano do diagnóstico, o escore Gleason, um indicador da agressividade do câncer, o tipo de tratamento e fatores socioeconômicos. Controlados esses fatores, concluíram que o uso de estatinas reduziu o risco de morte pelo câncer em 17% e de todas as causas juntas em 19%.

Para fins da pesquisa, usuários de estatinas eram os pacientes que tiveram duas ou mais receitas depois do diagnóstico do câncer, sem contar as receitas do primeiro ano.

Pacientes com diagnóstico precoce e os que fizeram prostatectomia se beneficiaram mais da estatina.

Os pesquisadores e outros “experts” entrevistados concordam em que uma pesquisa maior, com grupos controle, é necessária antes que os médicos comecem a prescrever estatinas para ajudar no tratamento do câncer da próstata. As estatinas também têm efeitos colaterais.

Se você, um parente ou amigo enfrenta um câncer da próstata, consulte seu urologista ou oncologista sobre essa possibilidade. De jeito algum se automedique.

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ

Alfred Stepan e a ditadura

Recebi a notícia do falecimento de Alfred Stepan, professor de “government” da Universidade de Columbia, em Nova Iorque, onde ocupava a cátedra Wallace Sayre. Stepan fundou em Columbia o Centro para o Estudo da Democracia, Tolerância e Religião. Stepan foi, também, um dos estudiosos do regime militar no Brasil. Escreveu Os Militares na Política.

Quase acidentalmente, Stepan também influenciou o que se podia e o que não se podia publicar durante a ditadura. Não se podia publicar nada sobre a desigualdade de renda, que cresceu muito nos anos posteriores ao golpe. Creio que foi o Hoffman que escreveu um artigo acadêmico sobre a desigualdade de renda no Brasil que não podia ser publicado, tal a severidade da censura que afligiu o Brasil durante a longa noite de 21 anos por que passamos.Circulou datilografado, quase como um pergaminho religioso. Em palestra, Stepan, já um renomado professor americano, mencionou a desigualdade de forma veemente e um resultado, bem-vindo e inesperado, foi que passamos a poder estudar e publicar a respeito de algo que estava acontecendo e que afetava muito a vida de dezenas de milhões de brasileiros. Não dava mais para esconder. Mas era proibido publicar. A censura era feroz e imprevisível.

Ironicamente, muitos pesquisadores sentíamos uma solidariedade com os colegas que foram oprimidos por Stalin e sucessores na União Soviética que também eram obrigados a datilografar copias de seus trabalhos e suas pesquisas, circulando-as privadamente entre os colegas para receber críticas e comentários, sempre com receio de que acabassem nas mãos de um espia do regime. Eram os suados samidatz.

Essa mesma censura ainda nos impede saber quanta corrupção havia no regime militar. Os escândalos eclodiam, mas eram rapidamente abafados. Hoje, diante da podridão dos últimos governos, muitas pessoas passaram, erroneamente, a romantizar o regime militar. Não viveram aquela opressão, alimentando-se de contos da carochinha. Os que eram jovens adultos quando a ditadura começou ou já morreram ou estão na Terceira Idade avançada.

Por incrível que pareça, a memoria daquele período de trevas em boa parte se perdeu.

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ

R$ 6,00 restant

A corrupção e o câncer do ovário

Lúcia, dei uma espiada nas estatísticas a respeito do câncer do ovário, conforme pediste. Como esperado, as melhores são as dos países com mais alto nível educacional e mais alta renda, o que introduz um viés quando transferimos conhecimento baseado nas estatísticas desses países para informar a cidadania de países com informação menos confiável.
Nos Estados Unidos, a chance de uma mulher ter câncer do ovário em qualquer momento da sua vida é uma em 75 e de morrer por causa desse câncer é uma em cem.
Entre as que foram diagnosticadas com esse câncer, duas de cada três morrem dele. É um câncer agressivo. Cinco anos depois do diagnóstico, 45% das pacientes estão vivas.
Que fatores aumentam ou diminuem o risco de morrer desse câncer? A idade é um fator importante: as pacientes mais jovens (menos de 65 anos) têm um risco morrer de morrer desse câncer.
A Grã-Bretanha usa um corte etário diferente: mulheres jovens (15 a 39) e não jovens (>40). A sobrevivência aos cinco anos no primeiro grupo é 84%, mas apenas 14% no grupo de idosas (80-89).
Nesse câncer, como em tantos outros, o diagnóstico precoce salva muitas vidas. Se o câncer não tiver metastizado para fora do ovário (estágios IA e IB), 92% das pacientes estão vivas cinco anos depois do diagnóstico. Com um bom sistema de informação, educação e saúde pública, a maioria dos casos poderia ser diagnosticada cedo, mas não é. Nos Estados Unidos somente 15% dos casos são diagnosticados cedo. Imagino que, no Brasil, a percentagem seja ainda mais baixa.
O diagnóstico tardio piora muito as estatísticas e o risco que elas representam: se diagnosticada no estágio IV, a chance de qualquer mulher estar viva cinco anos depois cai para 17%.
Esses dados devem ser tomados com muito cuidado porque há muitas diferenças entre os sistemas educacional, médico, hospitalar e de saúde pública que covariam com a renda per capita.
É mais um exemplo de um câncer cuja mortalidade depende da eficiência do sistema de saúde. Como, no Brasil, uma parte considerável é de gestão pública, a política tem um papel ainda mais relevante.
Reitero que, em se tratando de câncer, os erros podem ser fatais. Todo tratamento deve ser discutido com a equipe médica, cuja formação (onde estudaram?) e atualização se associam com a sua probabilidade de sobreviver. A auto-medicação ou as indicações de amigos e familiares podem ser letais. Procure seu médico.
Na minha cabeça, é nítida a relação entre a corrupção e a incompetência no setor público, de um lado, e o alto número de vítimas que poderiam ter sido salvas e não o foram e, olhando para o futuro, das que morrerão desnecessariamente. Com investimentos modestos muitas vidas seriam salvas. Se sairmos da análise de primeira linha e aprofundarmos a pesquisa, veremos que os grandes corruptos, sejam pessoas ou instituições, são assassinos de massas.

Gláucio Soares IESP-UERJ