UMA CAMPANHA CONTRA O FUMO

Em 2014 foi iniciada uma campanha de esclarecimento, conscientização e prevenção a respeito dos danos causados pelo fumo chamada Tips. Boa parte da campanha se baseou em relatos de fumantes e antigos fumantes. Os organizadores estimam que, devido à campanha, nada menos do que 1,83 milhões de fumantes tentaram deixar o vício, um número substancial, mas apenas 104 mil conseguiram abandoná-lo definitivamente.

Eu aprendi três coisas com esses resultados:

1. É muito difícil abandonar o vício: menos de seis por cento conseguiram como resultado dessa campanha;

2. Não obstante, os resultados valeram o esforço da campanha: mais de cem mil deixaram. Muitas, muitas vidas foram salvas.

3. Essas estimativas são frágeis porque não sabemos quantos deixariam de fumar sem a campanha.

Dados epidemiológicos estimam que quase meio milhão de americanos morrem anualmente devido às consequências, diretas e indiretas, do fumo.

Pior: para cada um que morre, há trinta vivendo com sérios problemas e restrições. Vidas encolhidas, irremediavelmente comprometidas.

Seria bom se, na vida de cada um, essa luta começasse mais cedo. Lembro-me de Yul Brinner, ainda relativamente jovem, no leito de morte, respondendo à pergunta (se me lembro bem…): “há algo que queira dizer?”

Respondeu: “don’t smoke”. Não fumem.

 

GLÁUCIO SOARES IESP/UERJ

MORRER DE INDIGNAÇÃO

Li que um padre morreu vítima da própria indignação contra a usura. Isso aconteceu durante um sermão em 20 de março de 1286, em Sena. Se chamava Ambrósio de Sansedoni. Morreu em pleno sermão, de indignação.

Penso quantos de nós adoecem vitimados pela sensação de impotência e indignação de estarmos à mercê de um estamento político que coloca o amor pelo dinheiro e pelo poder acima, muito acima dos interesses e da vida da cidadania, da sua vida e da minha vida.

Eleitos para servir ao povo, se servem do povo para servir a si mesmos.

Há, dentro de cada um de nós, um Ambrósio de Sansedoni.

Gláucio Soares IESP/UERJ

Justiça Desigual

 

18 de março às 23:21 ·

Li, hoje, notícia que me deixou inquieto. A esposa de Sérgio Cabral, Adriana Anselmo, teve sua prisão transformada em prisão domiciliar para cuidar de dois filhos menores. Li, em texto de Julita Lemgruber, que a práxis é permitir a prisão domiciliar quando há filhos pequenos e o marido também está preso.

Me pergunto se essa práxis deve ser aplicada, também, a homicidas. É, apenas, uma divagação. Acredito que a sofisticação do conhecimento poderá criar jurisprudência no Brasil para que o sistema penal aceite, permita e regule provas baseadas em probabilidade e risco.

Na minha opinião, os desvios bilionários de recursos públicos matam muita gente, adoecem e prejudicam muitas mais; se conseguirmos computar todos os efeitos diretos e indiretos, os autores de mega-desvios, como os denunciados na Operação Mascate, um desdobramento da Operação Calicute, poderíamos demonstrar que os autores desses desvios mataram mais gente do que muitos pequenos traficantes somados.

A crise na qual foi jogado o Estado do Rio de Janeiro graças em boa parte ao ex-Governador Sergio Cabral, se fez sentir nas estatísticas criminais do nosso estado. Em 2002, ano anterior à promulgação do Estatuto do Desarmamento, houve 8.045 mortes; a partir de então começaram a descer. Em 2012 houve 4.666, uma pedestre regressão sugere decréscimo de 336 por ano durante mais de uma década. Muitas vidas foram salvas. O Estatuto do Desarmamento e as políticas inteligentes implementadas por Beltrame contribuíram para isso.

Porém, o deterioro do país como um todo, e do Estado do Rio de Janeiro em particular, interrompeu essa queda na letalidade violenta. Os números fizeram pior do que parar de baixar: eles cresceram. Foram 5.348 mortos em 2013; 5.719 em 2014; 5.010 em 2015 e, em 2016, novo salto de patamar, para 6.248. Inverteram a tendência construída durante mais de uma década.

Na minha opinião, assassinos de massa não são apenas os que apertam o gatilho, mas incluem os que, através de corrupção, negligência, incompetência ou imperícia permitem que centenas ou milhares de outras pessoas o façam.

Mais uma vez, na minha opinião, é o que aconteceu no Estado do Rio de Janeiro. Sérgio Cabral e Adriana Anselmo, em graus diferentes, contribuíram para que milhares morressem. O cálculo exato da responsabilidade de cada um é impossível. Se as mortes tivessem estacionado no nível de 2012, no final de 2016 estariam vivas 1.382 pessoas que estão nos cemitérios. Essa diferença se refere somente a um ano e não leva em consideração a projeção da tendência de baixa construída com tanto sacrifício.

A razão para a prisão domiciliar é nobre. Cuidar de filhos menores. É a práxis. Não sei se essa tarefa importantíssima será cumprida ou não.

Não obstante, tenho outra fonte de inquietação. Há muitas décadas eu lia e ouvia constantemente a expressão “em uma sociedade de classes”. Era uma repetição tão frequente e monótona que parecia mantra. Me parecia desnecessária: todas as sociedades conhecidas são ou foram de classe. É preciso ir além. Na minha opinião temos a ganhar resgatando as ideias de Poulantzas, aceitando duas de suas considerações: a região do político tem certa autonomia e o estado é complexo (eu agregaria que, com frequência, é incoerente). Sem negar a afirmação de que o estado tem uma relação desigual com as classes, as raças, os gêneros, os detentores do poder político e os excluídos dele… e muito mais.

Há estamentos políticos e a categoria mais fundamental para entender o funcionamento nada democrático dos sistemas policial e judicial é a desigualdade. Desigualdade econômica e social e desigualdade no acesso ao estado, em geral, e à justiça, em particular. O trabalho da polícia e da justiça é profundamente desigual. Na minha opinião a prisão domiciliar de Adriana Anselmo é mais um exemplo: quantas mulheres envolvidas direta ou indiretamente com o pequeno tráfico, ou crimes menores, estão presas, assim como seus companheiros, e tem filhos menores?

Por que elas vão continuar na prisão e Adriana Anselmo ficará em casa?

GLÁUCIO SOARES

AVANÇOS IMPORTANTES CONTRA A LEUCEMIA

É possível que estejamos domando a leucemia, uma assassina de centenas de milhares, inclusive de crianças.

Uma pesquisa revela que mais de 80% dos pacientes que sofriam de CML (chronic myelogenous leucemia) continuavam vivos depois de onze anos de tratamento com imatinib (Gleevec). Nessa pesquisa, quatro em cinco dos pacientes originalmente alocados para o grupo imatinib tiveram uma resposta citogenética completa!

Havia outro grupo, que era tratado com interferon, mas seus membros depois de um ano de tratamento passaram para o grupo imatinib devido às diferenças entre os resultados já no primeiro ano.

Depois de 18 meses, os resultados iniciais mostraram uma resposta citogenética de 76% com imatinib e de apenas 14,5% com interferon, que era o tratamento padrão.

São dados de pesquisa que será ampliada. Alguns pesquisadores sugerem que esses resultados ajudarão no conhecimento de outros canceres.

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ

Abiraterona: em jejum ou com comida? E que comida?

Acetato de abiraterona (AA) é um dos medicamentos disponíveis quando os medicamentos anti-hormônios mais tradicionais e antigos, como o Lupron e o Zoladex, já não produzem os resultados esperados.

Seus fabricantes recomendam que seja tomado em jejum. J. T. Stover e associados estavam pesquisando pacientes que param de responder à abiraterona (o PSA volta a crescer etc.), e dividiram os prontuários médicos de pacientes que estavam sendo tratados com AA entre 01/04/2011 e 31/12/2013 preocupados com a mudança no PSA entre os que tomavam o AA em jejum e passaram a toma-lo com comida. Outro efeito analisado foi o tempo em que permaneceram tomando AA.

Os dois grupos estavam com o PSA crescendo.

O que encontraram?

Dezenove pacientes haviam mudado de “em jejum” para “com comida” e 41 permaneceram usando “em jejum”. O PSA baixou em três dos dezenove pacientes que mudaram de “em jejum” para “com comida”, ou 19%; a testosterona também baixou em cinco de sete que passaram a tomar AA com comida.

O tempo que os pacientes passam com um medicamento é importante porque quando o medicamento não produz mais resultados ele é abandonado. Pois os pacientes que mudaram de regime para “com comida” permaneceram no tratamento cerca de cem dias a mais.

Uma pesquisa cujos resultados preliminares foram apresentados recentemente no simpósio da ASCO em Orlando, na Florida, mostram outros dados, na mesma direção: 36 pacientes que tomaram 250 miligramas com um “low fat breakfast” obtiveram resultados idênticos aos de outros 36 pacientes que tomaram a dose recomendada, 1.000 miligramas, em jejum!

Há mais do que medicamentos e tratamento na equação: há custos. Nos Estados Unidos, o custo mensal do AA é de nove mil dólares, trinta mil reais, repito, por mês.

Se esse bom resultado com comida se confirmar em pesquisa mais extensa a economia para cada paciente será de R$ 22.500,00 mensais!!!!!!

Considerando que, nos padrões atuais (em jejum), os pacientes ficam entre 12 e 18 meses (essas são aproximações) tomando a ZYTIGA calcule a economia para o paciente (ou para quem paga a conta) se for confirmado que “com comida” o medicamento é quatro vezes mais eficiente.

Teremos que aguardar pesquisas com muitos pacientes mais e com maior duração.

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ

PS – sim, tive vontade de fazer a pergunta de extrema negatividade e não a fiz.

Saiba mais:

J T Stover et al, Reversal of PSA progression on abiraterone acetate through the administration with food in men with metastatic castration-resistant prostate câncer. Prostate Cancer and Prostatic Diseases 18, 161-166 (June 2015) | doi:10.1038/pcan.2015.7

https://medicalxpress.com/news/2017-02-high-priced-cancer-drug-low-fat-meal.html#jCp

ATLETAS DE FIM DE SEMANA

Lembro-me de ter ouvido e lido, mais de uma vez, um comentário sobre os que só exercitam durante o fim de semana. Dizia que era perigoso.

Li, há dias, uma nota de Robert H. Shmerling sobre os atletas de fim de semana.[i] Shmerling guia a nossa imagem do atleta de fim de semana: alguém que se exercita intensamente durante o fim de semana, mas que durante o fim de semana tem uma vida sedentária. Imaginamos alguém gordo ou gorda, não jovem nem velho. Além disso, quando se exercita, exagera.

A imagem pode ir mais longe e se afinar com a realidade: atletas de fim de semana, com dor nas costas, dores musculares, distensão muscular etc. lotam os consultórios médicos.

A despeito desses problemas, nem tudo é negativo nesse grupo de pessoas. Atletas de fim de semana que seguem as diretrizes de exercitar intensamente durante, pelo menos, 75 minutos ou, com menos intensidade, por mais tempo – o dobro, 150 minutos – tem um risco menor, relativamente aos que não se exercitam de morrer, seja devido a problemas cardiovasculares, câncer e outras causas.

Vivem mais!

Esse é o resultado de uma pesquisa com nada menos do que 63 mil pessoas na Inglaterra e na Escócia, que deram informações sobre suas atividades físicas de 1994 a 2012.

O pior resultado é que dois em três eram inativos. Seu risco de morrer era muito mais alto. Um em nove se exercitava regularmente. Eram os que viveram mais e melhor. Quatro por cento eram atletas de fim de semana e apenas um em nove se exercitava regularmente. Havia, também, muitos numa categoria residual, que não se exercitavam regularmente, não eram atletas de fim de semana, mas não eram inativos.

Durante a duração da pesquisa coletaram dados sobre saúde, doenças, mortes e suas causas.

Os atletas de fim de semana, como esperado, viviam menos e pior do que os que se exercitavam regularmente, mas viviam mais e melhor do que os sedentários. Seu risco de morrer era 30% menor do que a dos sedentários; o risco de morrer devido a problemas cardiovasculares era 40% mais baixo que o dos inativos e o risco de morrer de câncer era 18% menor.

Onde ficaram os atletas de fim de semana? Perto dos que se exercitavam regularmente ou perto dos sedentários?

Perto dos que se exercitavam regularmente!

Tenho algumas considerações sobre esses resultados:

Primeiro, as pessoas mudam de categoria. Há trânsito entre elas. Arrisco que várias começam como atletas de fim de semana, começam a ler a respeito dos benefícios dos exercícios e passam a fazer exercícios com mais frequência e regularidade. Mudam suas prioridades na vida e “abrem” tempo para exercícios no meio da semana.

Segundo, a literatura é prudente, sobretudo a respeito do início dos exercícios. Aconselha a começar “devagar” e aumentar a intensidade gradualmente, seja só nos fins de semana, seja com maior frequência.

Terceiro, a pesquisa mostra uma correlação, medida de associação, mas não demonstra causalidade nem, na hipótese de causalidade, mostra os caminhos através dos quais o exercício aumenta a expectativa de vida. Não devemos subestimar duas possíveis mudanças causadas pelos exercícios. A primeira nos ensina que o exercício é mais produtivo quando é social, feito em grupo. Os que se exercitam em grupo p- é minha hipótese – faltam menos, são mais assíduos. A segunda nos ensina que os exercícios podem deslanchar um processo cognitivo: alguns começam a ler, a buscar informações, e buscam melhorar outros aspectos da vida, associados com um aumento na esperança de vida, como melhoria na dieta, redução do número de fumantes, combate inteligente à insônia e ao estresse e muito mais.

Todas essas mudanças são benéficas para a saúde e se associam com aumento na esperança de vida.

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ


[i] “The underappreciated health benefits of being a weekend warrior”, Faculty Editor, Harvard Health Publications.

EMBOLIAS PULMONARES

 

Recentemente, li um artigo de divulgação sobre a DVT, trombose das veias profundas, e sua relação com as embolias pulmonares. Foi escrito por Beth W. Orenstein, com revisão medica por Farrokh Sohrabi. Trouxe lembranças de momentos difíceis.

Eu tive embolias pulmonares, que não foram diagnosticadas imediatamente. Há, somente nos Estados Unidos, 600 mil embolias pulmonares por ano; desses, cem mil morrem. Se tudo o mais fosse igual entre o Brasil e os Estados Unidos, e somente a população fosse diferente, estimaríamos a incidência de embolias no Brasil em cerca de 400 mil ao ano e as mortes em 67 mil. Há inúmeras correções a fazer nesse número, mas fica claro que é um sério problema de saúde pública.

Há muitos mitos a respeito das embolias pulmonares e vale a pena reproduzir comentários e conselhos de pesquisadores e clínicos.

O risco de embolia é muito afetado pelo estilo de vida; você pode reduzir muito o risco de ter embolias pulmonares melhorando o seu estilo de vida.

Fazendo o quê?

Quatro comportamentos são importantes:

· NÃO FUMAR: deixar de fumar não é fácil, mas é essencial;

· SE MEXER, fazer coisas, ir a lugares, tudo menos ficar imóvel dentro de casa ou no escritório o tempo todo;

· SE HIDRATAR. A desidratação se associa com as embolias e

· COMBATER A OBESIDADE, que também aumenta muito o risco de embolias.

Uma notícia ruim é que jovens podem ter embolias pulmonares. A idade aumenta o risco, mas o risco de jovens está longe de ser zero.

Há sintomas de DVT. Dá para saber.

O mais comum é o inchaço. Pernas, pés ou coxas inchadas podem ser indicadores, mas muitas outras doenças e condições provocam inchaços. Seu médico sabe diferenciar entre elas.

Há outros indicadores de que há perigo: vermelhidão e dores nas pernas, batatas da perna ou coxas são sinais de perigo.

Mulheres gravidas tem uma elevação temporária do risco até, aproximadamente, 6 semanas depois do parto. Muita atenção nesse período.

Cirurgias e fraturas que imobilizam o paciente aumentam, ainda que temporariamente, o risco de DVT e possíveis subsequentes embolias.

Uma doença que mata cem mil pessoas somente nos Estados Unidos tem que ser levada a sério.

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ