Câncer de próstata sem medo

Gláucio Soares organiza um blog de um paciente para pacientes, familiares e amigos. Cartas comerciais promovendo vendas e propostas de tratamentos sem apresentar os dados das pesquisas que demonstram sua eficiência não serão publicadas.

Treze anos com câncer de próstata – I

Publicado por soares7 em Agosto 15, 2008

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Esta postagem foi publicada às 11:39:30 de 15/8/2008

Treze anos com câncer de próstata – I

Há treze anos telefonei para o meu urólogo para saber os resultados da biópsia. Eu havia feito dez agulhas anteriormente, todas negativas. Quando a enfermeira não quis me dizer quais os resultados e chamou o médico assistente, Dr. Rivera, eu já sabia qual era o resultado. Eu estava psicologicamente preparado, calmo. Quando ele me disse, em espanhol, “encontramos um adenocarcinoma”, não fiquei surpreendido nem apavorado. Porém, quando perguntei qual o Gleason e ele me respondeu 3+3 perdi a confiança. Parei um pouco, ainda calmo, mas sem entender: afinal se necessitaram de três baterias de agulhas, com 4, 6 e mais 6 para detectar o câncer, como poderia ser agressivo? Entrei no escritório de minha vizinha, Dr. Helen Safa, e conversei calmamente com ela.

A despeito da minha calma, olhando esses treze anos, vejo que minhas respostas tiveram algo de montanha russa. Desenvolvi um TOC, Transtorno Obsessivo Compulsivo, com excessiva preocupação com outros cânceres. Examinando o meu corpo, vejo que não sobrou área grande sem que, em algum momento, eu invocasse que tinha um câncer por lá. Uma pele necrosada debaixo do dedão? Câncer! Tinha que ser! Algumas semanas e “não sarava”. Meu amigo Jorge Zaverucha me levou a um médico que cortou uma parte grande da pele com necrose, calo e tudo o mais. Acabou o câncer. Dor no pé? Câncer! O podiatra alimentou respondendo à minha afirmação em forma de pergunta ansiosa que sim, poderia ser câncer. Os raios X mostraram espigões, colapso da planta do pé (tenho pés exemplarmente chatos), mas nada de câncer. Houve duas cirurgias. Na primeira, a enfermeira deveria ter misturado água quente com a fria e deixou, apenas, a água fervendo. O cirurgião notou porque caiu um pingo na sua mão, que queimou e fez bolha. Fiquei com um cateter metálico uretra a dentro. Urrei durante dois dias e duas noites quando passou o efeito da morfina. Na primeira noite, meu filho Alexei ficou segurando a minha mão e não dormiu. Na segunda, pedi a minha namorada de então que segurasse a minha mão e não deixasse o lençol roçar no cateter porque doía muito, muito. Dormiu em dez minutos. Depois de várias tentativas de pedir que ficasse desperta e fosse companhia, desisti. Ela não conseguia ficar acordada. Voltou meu filho Alexei que me acompanhou sem pestanejar e ela foi dormir. Depois disso fiquei com birra de pessoas dorminhocas. O meu universo encolheu rapidamente. Minha maior preocupação era que o lençol não tocasse no cateter, que estava metido na uretra e na bexiga, que estavam queimadas. Meu sonho era poder virar um pouco, porque minhas costas começavam a incomodar (eu estava na residência de um amigo, Hernan Vera). Se não me virassem, se formavam pequenas irritações que se transformavam em feridinhas. Mas virar era um inferno. Não havia aspirina ou remédio sem receita que ajudasse muito. Depois de dois dias fui retirar o cateter no Cancer Center. Atravessei o espaço da calçada até o consultório com uma escassa roupa hospitalar. Era muita dor. Fui pingando sangue, xixi e cocô. Quando perguntei ao medico assistente como fazer para retirar o cateter metálico (grosso, usando para olhar lá dentro), ele disse “respira fundo e morde”. Foi uma dor muito forte e pude ver sangue e pus caindo no chão. E ainda não tinha feito cirurgia, nem radiação.

Treze anos depois, estou aqui, escrevendo para vocês. (continua)

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