Câncer de próstata sem medo

Gláucio Soares organiza um blog de um paciente para pacientes, familiares e amigos. Cartas comerciais promovendo vendas e propostas de tratamentos sem apresentar os dados das pesquisas que demonstram sua eficiência não serão publicadas.

Órfãos de pais vivos

Publicado por soares7 em Junho 13, 2008

Publicada no Correio Braziliense de 12/06/2008. Talvez interesse.

No Estado do Rio de Janeiro, o DEGASE é o órgão que recebe “as crianças e adolescentes” em conflito com a lei. A proposta de manter uma idade mínima penal alta (o Brasil é um dos cinco países com a idade mínima mais elevada) se baseia, em parte, na esperança de que o jovem se recupere. Nas prisões de adultos ela é mais baixa e o risco de abuso, de violência física e sexual, é muito maior.
O DEGASE procura essa recuperação, com erros e acertos. Há medidas sócio-educativas, cursos profissionalizantes, atendimento médico e psicológico. Porem, a formação de um delinqüente começa antes do DEGASE e continua depois dele. O período de permanência no DEGASE é o único observável neste processo.
O que está esperando o delinqüente após a permanência no DEGASE é chave para sua recuperação. Infelizmente, com demasiada freqüência, são devolvidos ao mesmo ambiente que permitiu que se tornassem delinqüentes. Lá, é muito difícil a recuperação. A taxa de reincidência entre adolescentes é alta. Em alguns casos, não muitos, as oportunidades criadas no DEGASE são o ponto de inflexão de uma carreira que seria criminal: mudam o destino, para melhor. Uma política preventiva inteligente deve investir na família extensa porque outros familiares, particularmente avós e tias, são chamados para suprir lacunas.
Em alguns países, o período de internação às vezes reaproxima pais e filhos – às vezes. Porém, no Rio de Janeiro, a localização da internação conspira contra isso. A centralização dos locais de internação faz sentido administrativo. Fica tudo perto, o recrutamento de pessoal qualificado é mais fácil etc. Porém, do ponto de vista da saúde psicológica de muitos jovens pode ser muito negativa. A composição sócio-econômica das famílias dos delinqüentes é muito pobre. A viagem para vir de outra parte do estado visitar o filho ou filha representa uma percentagem significativa da renda mensal. Não há como. Mesmo os parentes e amigos dos delinqüentes que moram na região metropolitana, amplamente definida, encontram sérios problemas de tempo e financeiros. Dependendo de onde morem, a visita pode implicar em uma combinação que inclui trem, metrô, ônibus e caminhada. É muito gasto, é muito tempo.
A comunicação escrita nunca foi usada por muitas famílias dos delinqüentes. Assim, ela não é uma substituta viável para as visitas pessoais. Parte grande dessas famílias é composta por analfabetos funcionais e, mesmo entre os que sabem escrever, são raros os que têm o hábito de escrever.
Infelizmente, custo, tempo e distância não são os únicos obstáculos às visitas. Muitos não querem visitar os filhos. As razões são várias, e só podem ser compreendidas a partir do universo de significados dos pais. Nele, algumas vezes o filho não conta, particularmente para o pai. Não é objeto nem sujeito de amor e carinho. Inexiste o sentimento de obrigação em relação ao jovem delinqüente: é um estorvo. Alguns causam vergonha porque são delinqüentes, mas outros são apenas vitimas de homens e mulheres que tiveram filhos sem serem pais e mães. É um fenômeno comum, que não se restringe aos internos, nem aos delinqüentes. Por um capricho da biologia, é possível reproduzir sem ser pai ou mãe. Essa reprodução irresponsável é mais freqüente entre os mais pobres, mas não é exclusividade. Em muitas “famílias” de classe média, a obsessão com o sucesso profissional, com o consumo e com o prazer impede que filhos e filhas tenham o tempo de qualidade, a atenção e o afeto dos pais. Além das necessidades materiais, o hedonismo de muitos pais e mães impede que os filhos colham os benefícios de viver em uma família de verdade. Não há tempo para eles. São famílias de mentirinha. A responsabilidade é jogada em cima das outras instituições sociais protetoras, a religião e a escola, ambas em crise. Cresce a função socializante da televisão e da rua; daí às drogas o passo é curto.
Algumas pessoas que trabalham no DEGASE admitem terem tentado convencer alguns pais e mães a permanecer algum tempo com o filho ou a filha durante as escassas e curtas visitas. É quando aparecem as justificativas vazias, como “tenho um compromisso”. Talvez. É difícil saber onde termina a necessidade financeira e começa a rejeição psicológica.
A relação entre os internos e os pais, às vezes, é tão ruim que alguns não querem ser visitados por eles. Uns têm vergonha do que os pais são – analfabetos, prostitutas etc. Em outros, as visitas não são de apoio, mas de recriminação e atribuição de culpa. “Micos” públicos. Não ajudam na recuperação. É evidente que a recuperação dos delinqüentes passa pela reeducação dos pais.
Para quem pesquisa empiricamente a delinqüência, a relevância da família e de outros grupos de proteção social e psicológica se impõe. A criminologia necessita ir além das explicações fáceis, mecânicas. É preciso pesquisar, mergulhar no mundo dos delinqüentes, de suas famílias e das instituições que cuidam deles.

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