Pectina e câncer de próstata: cuidado para não errar
Publicado por soares7 em Setembro 3, 2007
Os pesquisadores que anunciaram que a pectina (encontrada em frutas cítricas etc.) provocava a apoptose (suicídio) de células cancerosas continuaram a pesquisa e agora soltaram o que Jacquie Strax chama de “uma bomba”.
A bomba é que o efeito depende da maneira como a pectina é preparada e produzida. Uma funciona; outra não.
- A FPP (fractionated pectin powder), que se pode comprar, induziu apoptose em número quarenta vezes maior do que as células que não sofreram tratamento nem interferência. É um excelente resultado, muito promissor.
Até aí, tudo bem.
- Porém, a pectina cítrica, que é o produto padrão, não alterado, assim como o “pH-modified CP, PectaSol” não provocaram apoptose.
- O que nos leva à conclusão de que a peptina por si mesma não causa a apoptose, mas sim em combinação ou em interação com outros fatores.
Que fatores?
A história da pesquisa científica é uma história de detetive. O objetivo é desvendar os caminhos através dos quais é possível transformar a simples pectina dos cítricos em um produto anti-cancer. O primeiro passo é tratar a pectina com calor. O passo anterior eliminou um produto já comercializado, o PeS (Pectasol), assim como o CP, que não é modificado nem tratado, já são comercializados e vendidos.
É uma história que se repete:
- pesquisadores divulgam resultados preliminares que indicam que tal ou qual fator reduz ou cura um câncer;
- na cabeça de pacientes, amigos, parentes e outros interessados, surge a idéia de utilizar esse fator;
- as companhias, tanto farmacêuticas quanto de produtos “naturais”, percebem que há um mercado e fabricam pós, extratos etc.;
- que é vendido com grande sucesso,
- provocando o aumento no valor das ações das companhias.
Claro que vai haver uma corrida para a fabricação e consumo de pectina tratada a calor.
O que falhou no caso de Pectasol? Uma combinação entre pesquisa insuficiente e envolvimento do pesquisador com o produto. Houve um estudo, pequeno e clínico, feito por Stephen Strum e por Isaac Eliaz. Deveria ser o início de um processo e não o fim. Eliaz, com base nessa pesquisa inicial e, possivelmente, com receio de ter sua patente modificada e roubada por grandes empresas (acontece o tempo todo) patentou, fabricou e colocou no mercado o Pectasol. Strum, por sua vez, está no conselho médico da Life Extension Foundation (LEF), que distribui e vende Pectasol.
Problema clássico de conflito de interesse que prejudica a seriedade da pesquisa científica. No caso, pode ter levado a conclusões prematuras e forçadas, que teriam levado à fabricação prematura de suplementos que foram vendidos a milhares e milhares de pacientes que talvez tenham jogado fora seus recursos. Precisamos, mesmo, de mais pesquisa na área feita com seres humanos, sem pectina, com cítricos ao natural, com pó de pectina, com Pectasol, com pectina tratada a calor etc.
O fato de que a pectina não tratada também não produza um efeito apoptótico significativo dá um tranco nos naturebas à outrance.
Não obstante, há outra importante diferença que não podemos deixar de fazer: há respostas muito diferentes entre cânceres metastisados e cânceres primários, ou originais. Muitas terapias que funcionam num tipo não funcionam no outro. O interessante dessa pesquisa é que o ingrediente funcionaria tanto num tipo quanto noutro. O experimento foi feito com duas séries de células cancerosas, uma AI (<span style=”font-style:italic;”>androgen independent</span> e outra que respondia ao tratamento hormonal.Pectina funcionaria até em células que já não respondem ao tratamento hormonal.
As interpretações mais extremas, mas dentro do razoável, lembram que pectina reduz colesterol e glucose em humanos; com ratos e in vitro reduz metástase e reduz cânceres do pulmão e do colon.
Antes de qualquer medida, antes de sair comprando ou experimentando tudo, sugiro a meus irmãos pacientes de câncer de próstata que se informem e leiam, para o que possivelmente necessitarão da ajuda de um bioquímico.
Leituras:
- MODIFIED CITRUS PECTIN SLOWS PSA DOUBLING TIME: A Pilot Clinical Trial, Stephen Strum MD, Mark Scholz MD, Jon McDermed Pharm D, Michael McCulloch BA, Isaac Eliaz MD Presented at the International Conference on Diet and Prevention of Cancer, May 28 June 2, 1999, Tampere, Finland);
- Strum et al, Prostate Cancer, 2003.
- Guess, B.W. Prostate Cancer and Prostatic Diseases, December 2003; pp 301-304.
- Debra Mohnen et al em Glycobiology de Agosto de 2007
Resumo e observações por Gláucio Ary Dillon Soares, paciente de câncer, para outros pacientes, familiares, amigos e interessados.